Falsos cognatos

Reincidência


      O leitor Francisco Agarez chamou-me a atenção para este trecho de um artigo do Diário de Notícias de ontem: «Independentemente do que isso, a ser verdade, diz sobre a relação de Assange com a liberdade de imprensa e o seu apego à transparência, teremos de concluir que os outros jornais, os escolhidos, podem ter sido mais lenientes com Assange?» («Os famosos cinco jornais e a aventura da WikiLeaks», Fernanda Câncio, Diário de Notícias, 5.12.2010).
      Parece português e do melhor, mas não é: — leniente é má tradução do inglês lenient. Este significa «brando», que é o que a jornalista pretendia dizer. Em português, «leniente», ou «lenitivo», diz-se do que suaviza ou acalma. Já vimos aqui que esta jornalista é muito atreita a usar anglicismos, o que só lhe deslustra os textos. Por quem é, deixe-se disso.

[Post 4161]

«Ponto da situação»

Não percebo


      «Para já», disse José Manuel Rosendo, nas notícias das 3 da tarde de ontem na Antena 1, «vamos em directo para o aeroporto de Lisboa, onde está o repórter Miguel Videira. Vamos fazer um ponto de situação.» Estou farto de ouvir isto. Vejamos, caro José Manuel Rosendo: não se estava a referir a uma situação concreta, a que se vivia no aeroporto de Lisboa, relacionada com a greve dos controladores espanhóis? Então, é ponto da situação.

[Post 4160]

Léxico: «cobertura»

E de luxo


      «Entre os bens a partilhar está uma luxuosa moradia com piscina em Vilamoura, Algarve, que valerá quase dois milhões de euros. Segundo revelou esta semana um diário, o casal detém ainda um terreno para construção e cinco apartamentos, também em Vilamoura, e uma cobertura num prédio em Alfragide, arredores de Lisboa» («Separação deixa amigos em choque», Nuno Pinto Martins, «Notícias TV»/Diário de Notícias, 3.12.2010, p. 11).
      Segundo a generalidade dos dicionários, não seria habitação condigna, mas para o Dicionário Houaiss, cobertura também é «apartamento construído sobre a laje do último andar de um edifício, a que geralmente se reserva uma área livre». É acepção relativamente recente entre nós, e talvez tenha vindo do Brasil.

[Post 4159]

Ortografia: «spinolista»

Não precisa


      «O economista, que conciliara uma carreira académica com o trabalho no Banco de Portugal, na 12 de Março de 1975 — isto é, no dia seguinte ao golpe spinolísta, que iria desencadear as nacionalizações e o radicalizar da revolução — apresentava as suas credenciais como embaixador de Portugal em Bona (na época havia duas Alemanhas e Berlim era a capital da RDA)» («O homem que negociou com FMI e CEE», Fernando Madaíl, Diário de Notícias, 3.12.2010, p. 7).
      Bem, eu não sei se Fernando Madaíl sabe (como posso saber o que os outros sabem?), mas o vocábulo realçado a vermelho não tem acento e há mesmo dicionários que o registam. Spinolista, pois. Quanto ao título do artigo, «O homem que negociou com FMI e CEE», quase de certeza da responsabilidade de outro, também está errado: no caso, o artigo é de regra.
      (Quase a propósito: julgo que o Jornal de Notícias é o único — ou dos poucos, vá — a grafar sem acento, Madail, o nome do presidente da Federação Portuguesa de Futebol.)

[Post 4158]

«Leis extravagantes»

Haja quem o faça


      O Prof. Paulo Pinto de Albuquerque deve ter lido o meu texto e resolveu corrigir a falha do Diário de Notícias: «Na linguagem comum, extravagante é algo exótico, esquisito, fora do comum. Na linguagem jurídica, lei extravagante é uma lei que se encontra fora do código que regula o sector da vida social a que se destina. Em Portugal, as leis penais extravagantes não são apenas leis fora do Código Penal. Muitas delas são também leis verdadeiramente exóticas, mesmo incompreensíveis, que representam uma sucessão voraz de diktats arbitrários. Numa palavra, as leis penais fora do Código Penal encontram-se num estado caótico, impondo-se que o legislador proceda à sua codificação, actualização e uniformização» («Leis penais extravagantes», Diário de Notícias, 3.12.2010, p. 55).

[Post 4157]

Tradução: «sweet feed»

Imagem tirada daqui

Alguém sabe?


      Parece que o indivíduo fechava a égua na baia e dava ao potro pequenas porções de aveia moída e sweet feed, suplementando-lhe assim a alimentação — e eu não duvido. À primeira vista, pelo menos. O sweet feed já tem aveia moída, mas está bem. Eça de Queiroz de certeza não saberia que nome tem em português esta mistura doce, normalmente constituída por cereal (aveia, cevada e milho) moído, sal, minerais e melaço. Nem eu, que tenho o maior léxico relativo ao tema, sei se tem correspondência em termo nosso.

[Post 4156]

Plural dos apelidos

Por exemplo


      «The war had left the Morrises…» E o tradutor verteu assim: «A guerra deixou os Morris...» Vejam como Camilo pluralizou um apelido que termina em s: «Tinha meninas para conservar a raça dos Queiroses e Meneses; mas a casta varonil iria pelas gerações além menos sujeita a reparos de genealógicos» (Novelas do Minho, 2.º vol., Camilo Castelo Branco. Fixação do texto e nota preliminar pelo Prof. Dr. Jacinto do Prado Coelho. Lisboa: Parceria A. M. Pereira, 1971, p. 131).

[Post 4155]

«Mandato/mandado»

Como se fosse difícil


      O Metro não tem dúvidas: «Há um mandato de detenção internacional para Julian Assange, fundador do WikiLeaks» («Controvérsia ainda para durar», I. C., Metro, 3.12.2010, p. 7).
      Como se vê, jornalistas e revisores continuam a confundir «mandado» e «mandato». Não direi todos, mas os melhores dicionários registam para o vocábulo «mandado» o significado de ordem, determinação superior, e por isso «mandado judicial», «mandado de captura», «mandado de prisão», etc. Para «mandato», e o étimo é o mesmo, sendo por isso palavras divergentes, os dicionários registam o significado de autorização conferida a alguém, delegação, procuração, e por isso «mandato eleitoral» «mandato parlamentar», etc.

[Post 4154]

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