Ortografia: «guarda-marinha»

Perfeito


      Ora aprendam com Camilo, o génio picado das bexigas: «Dois filhos do visconde, Heitor e Rui, eram guardas-marinhas, devassos e caloteiros; o mais novo era pensionista no colégio militar» (Novelas do Minho, 2.º vol., Camilo Castelo Branco. Fixação do texto e nota preliminar pelo Prof. Dr. Jacinto do Prado Coelho. Lisboa: Parceria A. M. Pereira, 1971, p. 86). Guardas-marinhas, pois então.

[Post 4153]

Selecção vocabular

Com mil milhões de macacos!


      «Para lá do seu significado comercial para a editora Casterman e para a Moulinsart, detentora dos direitos da obra de Hergé, esta tradução para hindi vem reiterar a vocação universal, a intemporalidade e a popularidade todo-terreno de Tintin, e dos valores que ele corporiza e transmite» («Tintin em hindi, com mil milhões de macacos!», Eurico de Barros, Diário de Notícias, 1.12.2010, p. 29).
      Todo-o-terreno, adjectivo, neste caso, sim, é usado e está dicionarizado. Mesmo sem este erro, seria uma forma bem infeliz de dizer. Assim, ainda pior.

[Post 4152]

«Ir no encalço de»

Sempre a falharem


      «Após variadíssimas peripécias, e com Dupont e Dupond sempre no seu encalce, acaba por chegar à Índia, onde ataca o tráfico de ópio, desmantelando uma organização de traficantes» («Enviado especial passou três vezes pelo território», Marina Marques, Diário de Notícias, 1.12.2010, p. 29).
      Já aqui tínhamos visto este erro. Na verdade, a expressão é ir no encalço de, ou seja, seguir de perto, seguir na pista de. Não deixa de me surpreender a displicência com que os jornalistas escrevem.

[Post 4151]

«Leis extravagantes»

Que se afasta do habitual


      «Ou são obsoletas ou precisam de reforma: é este o diagnóstico em forma de livro feito a 112 leis que estão fora do Código Penal», lê-se no subtítulo da notícia «Leis extravagantes foram vistas à lupa por equipa de magistrados» (Diário de Notícias, 1.12.2010, p. 20). No corpo do artigo, nem sequer é aflorada a definição de lei extravagante. A jornalista Rute Coelho há-de pensar que o que diz o subtítulo é suficiente para o leitor médio não julgar que leis extravagantes são leis excêntricas. Aposto singelo contra dobrado como nem sequer a maioria dos colegas de redacção da jornalista conhece o conceito.

[Post 4150]

Expressão

Só eles é que falam


      Macário Correia quer que os algarvios se revoltem contra as portagens. De caminho, escoicinha a língua: «Só eles é que falam para a comunicação social e só eles é que dão opinião. A opinião das populações e dos autarcas não conta. Não são ouvidos, não são achados. É um acto de desconsideração.» Há outro burocrata, muito mais interessante, porque ficcional, que também deturpa os provérbios e expressões. É Sipiágin, do romance Solo Virgem, de Turgueniev, que dizia, por exemplo, «a cavalo dente não se olha o dado».

[Post 4149]

Selecção vocabular

Então não


      «Aos 8 anos Tomás aceitou, “de bom grado”, a notícia de mais um dia de gazeta mas para a mãe o encerramento da escola básica na Guarda “causa transtorno”» («“Dia em grande para inventar brincadeiras”», Amadeu Araújo, Diário de Notícias, 1.12.2010, p. 15).
      Fazer gazeta não é faltar às aulas ou ao emprego? Então, está incorrecto, pois a criança não faltou — a escola é que estava fechada.

[Post 4148]

Acordo Ortográfico

Fecha-se o cerco


      «O presidente da Assembleia da República, Jaime Gama, quer que o Parlamento aplique o novo Acordo Ortográfico a partir de 1 de Janeiro de 2012. Jaime Gama propõe que se decida que “a Assembleia da República passará a aplicar a ortografia constante do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa em todos os seus actos legislativos e não legislativos, bem como nas suas publicações oficiais e instrumentos de comunicação com o exterior”» («Acordo Ortográfico na Ar em 2012», Diário de Notícias, 1.12.2010, p. 12).
      No Assim Mesmo, provavelmente já noutra casa, também se aplicarão as novas regras ortográficas a partir dessa data. Para quem não ficar contente com a notícia, deixo as mesmas palavras noutra ordem. No Assim Mesmo, já noutra casa, provavelmente também se aplicarão as novas regras ortográficas a partir dessa data.

[Post 4147]

Símbolos

Cultura científica moribunda


      «Sem se aperceberem, os peões confiam no barulho que os carros tradicionais fazem para calcular a distância a que os mesmos estão. Principalmente os invisuais e os seus cães-guia. Logo, o barulho é essencial. Quando os veículos eléctricos e híbridos circulam a uma velocidade elevada ouvem-se bem pelos pneus e pela estrada. Mas quando a velocidade ronda os 50 kms a história é diferente e vão ser precisos aparelhos electrónicos nos novos carros que substituam o barulho» («O silêncio nem sempre é de ouro», Emma Forrest, Metro, 30.11.2010, p. 21).
      Este erro já passou por aqui. Como é que uma publicação com revisão apresenta erros tão básicos? Os símbolos não têm plural, cara Catarina Poderoso, revisora do Metro. Outros erros muitos comuns é kilómetro em vez de quilómetro; Kg em vez de kg; gr. em vez de g; mt. em vez de m; etc. Não passa muito pela imprensa, mas noutro tipo de publicações também se vê, por exemplo, sen α em vez de sin α e outras incorrecções.

[Post 4146]

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