O preço da rebeldia
«Imaginem esta palavra phase, escripta assim: fase.
Não nos parece uma palavra, parece-nos um esqueleto.»
Alexandre Fontes, A Questão Orthographica, Lisboa, 1910, p. 9
Daqui a duas dezenas de anos, quando o próprio Acordo Ortográfico de 1990 já tiver sido revogado, sem repristinação do de 1945, teremos, ainda assim, quem, nos jornais e nas revistas, continue a escrever pelas regras deste. O que o Jornal de Letras, por exemplo, agora faz com alguns colaboradores. «Mantém-se, por sua solicitação, a ortografia do autor. Como dissemos quando anunciamos que passaríamos a seguir o novo Acordo Ortográfico, o prof. Vitorino Magalhães Godinho é das raras exceções que admitimos — até porque já vem de trás, dado que a ortografia que segue é anterior ainda à reforma de 1945.» A nota da redacção está aposta ao artigo «Portugal perdeu ou ganhou a Guerra de 14―18?» (JL, n.º 1047, pp. 34―35). Temos assim, neste texto, «notòriamente», «escolas de repetição creadas segundo plano de Pereira Bastos», «reune», «peùgada», «atribuidos», «fôrça», «fôsse», «esfôrço», «côres», «sistemàticamente», «subtituidas», «inclusivè», «requere», «fôssem»... Aqui e ali, uma falta de concordância — não permitida por nenhum acordo ortográfico... — assoma, e temos o remate que demonstra cabalmente que, como acontece com as crónicas de Rui Tavares no Público, os rebeldes, por mais respeitáveis, não são revistos: «Sem essas deliberadas acções de demolição da República, outro teria sido o seu futuro — decerto; mas não podemos perdermo-nos em simulações para refazer o passado.»
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