Graus: Celsius ou centígrados?

Aplaudido


      No final da Edição das Dez, na TVI24, Henrique Garcia (de quem não gosto da voz trovosa, mas também não gosto dos novos óculos de Paulo Rangel e estou caladinho) falou da meteorologia, e disse sempre «graus Celsius». É, provavelmente, caso único em toda a televisão. Embora no Ciberdúvidas se diga que é indiferente graus Celsius e graus centígrados (mas, como noutras matérias, afirmam isto e o contrário), os entendidos que oiço e leio afirmam o contrário. Correcto é grau Celsius.

[Post 4131]

Sobre «onde»

O candidato Onde da Silva


      Já aqui falei mais de uma vez da absoluta falta de propriedade no uso do advérbio onde, verdadeira maldição dos tempos modernos. Vejam este exemplo da boca de um ex-jornalista. À saída da visita que ontem fez a Cavaco Silva, o líder do CDS-PP, Paulo Portas, afirmou: «Os conhecimentos e a sabedoria que ele tem em matéria económica e de finanças públicas, a credibilidade, quer interna quer externamente, a moderação que sempre revelou e o sentido de Estado que teve no exercício do seu mandato presidencial são razões de sobra, sobretudo neste momento em que o País se encontra, para nós considerarmos que é o melhor candidato e portanto o candidato onde se deve votar.»

[Post 4130]

Pronúncia: «equidade»

Não grite


      No programa de debate político Contra-Análise, na RTPN, Paulo Rangel e Correia de Campos falavam ontem de cortes salariais. Paulo Rangel usou várias vezes a palavra «equidade», como é, em semelhantes matérias, da praxe, e sempre com o e esgoeladamente aberto: /èquidade/. Lembrei-me logo das prevenções de João Araújo Correia: «Que bem que tu recitas, minha licenciada! Mas, porque dizes èrrores? (A Língua Portuguesa, João de Araújo Correia. Lisboa: Editorial Verbo [s/d, mas de 1959], p. 28).

[Post 4129]

Gramática

Nada mudará


      «Então, lacrado o sobrescrito, e definitivamente, o afamado homem de Letras confiou-lho, depois de muito e muito recomendar que por nadíssima deste mundo o perdesse, porque seria uma pena» (Tiros de Espingarda, Tomaz de Figueiredo. Lisboa: Editorial Verbo, 1966, p. 213).
      Deviam as gramáticas mudar só porque um escritor (dez, cem) acrescenta o sufixo -íssimo a um substantivo em vez de a um adjectivo? De modo nenhum. Coisíssima nenhuma.

[Post 4128]

Acordo Ortográfico

O preço da rebeldia

«Imaginem esta palavra phase, escripta assim: fase.
Não nos parece uma palavra, parece-nos um esqueleto.»
Alexandre Fontes, A Questão Orthographica, Lisboa, 1910, p. 9

      Daqui a duas dezenas de anos, quando o próprio Acordo Ortográfico de 1990 já tiver sido revogado, sem repristinação do de 1945, teremos, ainda assim, quem, nos jornais e nas revistas, continue a escrever pelas regras deste. O que o Jornal de Letras, por exemplo, agora faz com alguns colaboradores. «Mantém-se, por sua solicitação, a ortografia do autor. Como dissemos quando anunciamos que passaríamos a seguir o novo Acordo Ortográfico, o prof. Vitorino Magalhães Godinho é das raras exceções que admitimos — até porque já vem de trás, dado que a ortografia que segue é anterior ainda à reforma de 1945.» A nota da redacção está aposta ao artigo «Portugal perdeu ou ganhou a Guerra de 14―18?» (JL, n.º 1047, pp. 34―35). Temos assim, neste texto, «notòriamente», «escolas de repetição creadas segundo plano de Pereira Bastos», «reune», «peùgada», «atribuidos», «fôrça», «fôsse», «esfôrço», «côres», «sistemàticamente», «subtituidas», «inclusivè», «requere», «fôssem»... Aqui e ali, uma falta de concordância — não permitida por nenhum acordo ortográfico... — assoma, e temos o remate que demonstra cabalmente que, como acontece com as crónicas de Rui Tavares no Público, os rebeldes, por mais respeitáveis, não são revistos: «Sem essas deliberadas acções de demolição da República, outro teria sido o seu futuro — decerto; mas não podemos perdermo-nos em simulações para refazer o passado.»

[Post 4127]

«Solarengo/soalheiro»

Mais um inimigo


      «Estamos em Vila Nova de Cerveira. Sobe-se à serrania onde um cervo metálico se impõe aos humanos que se quedam ao fundo do vale, à beira-rio. O Minho espreguiça-se, úbere, direto à foz, sem pressas. É outono solarengo, ao contrário do primeiro parágrafo do texto do livro, bela frase» («Dos frades até às artes», António Loja Neves, «Atual»/Expresso, 13.11.2010, p. 34).
      Se o realizador, actor, jornalista e programador e — sobretudo, sobretudo — coordenador do Gabinete de «Copydesk» do Expresso António Loja Neves escreve assim, talvez esteja na hora de... nos revoltarmos! Calma, calma, estou a brincar, não quero mais inimigos. Pelo menos hoje. (Mas não aduzam, excepto como piada, como argumento de autoridade que o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, da Academia das Ciências de Lisboa, os dá como sinónimos.)
      «Para além da vidraça esmorecia um cristalino entardecer soalheiro, frio mas adoçado pelo seco da altitude» (Tiros de Espingarda, Tomaz de Figueiredo. Lisboa: Editorial Verbo, 1966, p. 205).

[Post 4126]

Léxico: «relho»

Rio Varosa, onde Tomaz de Figueiredo pescou centenas
de belas trutas de pintas negras. Imagem daqui

Pesca à pluma


      «Eu próprio todo me pélo por sacar da babugem que orla as torrentes, e onde mosquinhas e efémeras sobrenadam, a truta de pintas pretas, dita da serra e denominada relho, vocábulo nem recolhido nos dicionários, mas que lá vem no Mapa de Portugal, do padre João Baptista de Castro, senhora dona truta, essa, que ao sentir-se ferrada até chia, negaceando-a, à inglesa, com uma march-brown, ou com o soajeiro bicho de pena de cuco, no extremo de uma seda dos Hardy Bros. Ltd, de Alnwick, afamados em todo o mundo» (Tiros de Espingarda, Tomaz de Figueiredo. Lisboa: Editorial Verbo, 1966, p. 40).
      É espantoso, eu sei, mas o certo é que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora recolhe o vocábulo: «truta pertencente a uma espécie pouco vulgar em Portugal, também conhecida por truta-marisca». Já o Dicionário Houaiss, sem relho nem trabelho, é caso para dizer, omite-o.
      A march-brown (ou march brown), de nome científico Rhithrogena germanica, não tem chamadoiro em português, ou Tomaz de Figueiredo sabê-lo-ia. Quando era notário em Tarouca, arrancou centenas de trutas ao rio Varosa.

[Post 4125]

Particípios duplos

Lá acertam


      Às vezes, acertam: «Mais tarde, alguns manifestantes conseguiram subir ao telhado de um prédio adjacente, levando à intervenção da polícia, mas só ao final da tarde é que foram dispersos os manifestantes» («Estudantes atacam sede de conservadores», Abel Coelho de Morais, Diário de Notícias, 11.11.2010, p. 25). «O governo de Marrocos está a controlar o acesso de jornalistas ao país, tendoexpulsado do território diversos profissionais» («Jornalistas expulsos», S. P., Correio da Manhã, 13.11.2010, p. 43).

[Post 4125]

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