«Replicar», de novo

Implicar com o replicar


      Por ocasião da Cimeira da OTAN, algumas agências bancárias do Parque das Nações blindaram as fachadas, titulava o Correio da Manhã. Contudo, do artigo concluía-se que fora, mais modestamente, apenas as superfícies vidradas, o que, apesar de tudo, costuma ser um pouco menos. E adiantava este jornal: «A mesma medida está a ser replicada por outros bancos e empresas, nomeadamente multinacionais» («Bancos blindam fachadas na Expo», Lurdes Mateus, Correio da Manhã, 13.11.2010, p. 15). Não chegava dizer que a medida estava a ser seguida ou imitada por outros bancos e empresas? Não respeitam nem a língua nem os leitores, estas almas negras.

[Post 4124]

«Discrição/descrição»

Talvez passem na oral


      «A entrada das cerca de 80 prostitutas terá sido feita como se se tratasse das mulheres dos delegados georgianos e arménios. Segundo o CM apurou, quando os responsáveis do hotel perceberam que se tratava de prostitutas manifestaram-se incomodados e embaraçados com a situação, que foi resolvida com a descrição possível», Manuela Teixeira/Sónia Trigueirão, Correio da Manhã, 23.11.2010, p. 22).
      E qual é a descrição possível? «Estreia da Gauchinha! Luna 30tona. Boazona! Peitão XXL. Bumbum aliciante!» Ainda não sabem a diferença entre «discrição» e «descrição»?

[Post 4123]

Revisão

Cão com pulgas


      «Uma praga de Escaravelho da Palmeira está a ameaçar mais de três mil árvores, públicas e privadas, no concelho de Cascais» («Praga ameaça palmeiras», E. N., Correio da Manhã, 23.11.2010, p. 21).
      E. N. também escreve «o meu Cão tem Pulgas»? Assim, até preferia que tivessem escrito em latim: Rhynchophorus ferrugineus. Revisão, mais uma infausta vez. Ou a falta dela.

[Post 4122]

Nomenclatura científica

Absoluto desleixo


      «Maria foi de imediato transferida de helicóptero para o Hospital Pediátrico de Coimbra, tendo sido detectada a intoxicação de Amanita PHalloides, um cogumelo muito venenoso, semelhante a uma espécie típica na região conhecida como ‘roca’» («Criança intoxicada por comer cogumelos», Eugénia Pires, Correio da Manhã, 23.11.2010, p. 18).
      É lamentável que a maioria dos jornais tenha deixado de usar itálico, mas aqui temos outros erros, e um deles é relativo à nomenclatura científica, e, tanto quanto vejo, ninguém entre nós falou tanto desta questão como eu. Devia ser Amanita phalloides. E porquê as aspas em «roca»?

[Post 4121]

«Colocar-se em fuga»

Duas vezes cegos


      Ou três: jornalistas, editores e revisores? «Após o crime, o condutor colocou-se em fuga, tendo anteontem sido detido pela Polícia Judiciária de Vila Real» («Jovem leva tiro a atravessar rua», Ana Isabel Fonseca/Tânia Laranjo, Correio da Manhã, 23.11.2010, p. 16).
      Quanto aos jornalistas, creio que nada há a fazer. Quanto aos revisores, é uma vergonha que não façam nada. Afinal são pagos para corrigirem ou para respeitarem os erros crassos dos jornalistas? Não lhes quadra nada o que está para lá do prefixo re-, por isso recegos em vez de revisores.

[Post 4120]

Regência do verbo «acreditar»

Visto dessa maneira...


      «As autoridades acreditam em que os jovens foram assassinados pela mesma pessoa, mas não têm qualquer indício sobre os motivos de tão bárbaro crime» («Mistério envolve morte de jovens», Paulo Madeira, Correio da Manhã, 23.11.2010, p. 38).
      Transitivo indirecto, o verbo acreditar? Bem, talvez, mas hipercorrecção não é só exagero — é erro.

[Post 4119]

Actualização no mesmo dia

      O jornalista Alexandre Panda anda a ler os artigos do colega Paulo Madeira (ou será ao contrário?), e isso só lhe faz mal: «O Ministério Público de Felgueiras acredita em que ambos agiram em cumplicidade para que a ex-autarca recebesse as despesas que só lhe podiam ser reembolsadas depois da decisão judicial ter transitado» («Câmara pagou 83 mil euros a advogado», Alexandre Panda, Correio da Manhã, 23.11.2010, p. 34).



Como se escreve nos jornais

Imagem tirada daqui

Dêem-nos um tiro


      «O grupo criminoso Comando Vermelho efectuou segunda-feira, pela segunda noite consecutiva, várias acções violentas no Rio de Janeiro. Na manhã de ontem, a polícia carioca constatou que cinco carros foram incendiados e a cabina de uma esquadra policial tinha sido alvejada com nada menos de 50 tiros» («Criminosos espalham o terror nas noites do Rio», Sérgio Barreto Motta, Diário de Notícias, 24.11.2010, p. 29).
      «Cabina de uma esquadra policial». Quantos leitores portugueses sabem de que se trata? O culpado não é, obviamente, o jornalista, mas sim a redacção do jornal. Sim, é o que a imagem em cima mostra. Uma espécie de quiosque. Haverá modelos diferentes, e creio que não são apenas para a Polícia Militar, e têm tantos confortos, que os agentes da polícia desejarão estar lá dentro todo o dia: blindadas, com ar condicionado, casa de banho química, forno microondas, frigobar, seteiras para armas, extintor de incêndios, sistema de comunicação com rádio, interfone... Enfim, nem desdenharia ser um valente polícia ali dentro.

[Post 4118]

Ortografia: «Camboja»

Ajuizemos


      «Hoje é dia de luto no Camboja, um país em choque com a tragédia que marcou o final da Festa da Água. As causas do acidente ainda não estão explicadas, tendo sido aberta uma investigação. Aparentemente tudo terá começado com o rumor de que a ponte não era estável. A partir daí foi o caos, com as pessoas a serem pisadas ou a atirarem-se à água. O número de mortos pode aumentar. Ontem, as autoridades efectuavam buscas no rio Bassac» («Luto após tragédia no Camboja», Diário de Notícias, 24.11.2010, p. 31).
      Insensivelmente, ou talvez não, deixou de se usar na imprensa a grafia Cambodja — para estranheza até de juízes (a frase é interrogativa indirecta, não leva ponto de interrogação, Meritíssimo Senhor Juiz), que lamentam que o topónimo se afaste assim do inglês. Era caso para perguntar o que é que o cu tem que ver com as calças, mas eu não sou malcriado.

[Post 4117]

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