Léxico: «sombreador»


É um neologismo


      Nova sede da EDP vai ser construída no aterro da Boavista: «Para além da evidente contrapartida estética, este jogo de perfis, vãos, vidros e sombreadores vai permitir ao edifício um elevado desempenho energético, que, associado à climatização inovadora e eficiente, vai reduzir o consumo de energia, comparativamente com um edifício standard semelhante» («A EDP não pára», Cláudia Melo, Diário de Notícias, 14.11.2010, p. 64).
      Mais uma lacuna nos dicionários: nenhum regista o vocábulo, necessário, porque serve para designar algo novo, sombreador. Que terá, pelo menos, duas acepções, pois, até agora, o que eu conhecia como sombreador é o que a imagem em cima mostra, e os sombreadores referidos no artigo do Diário de Notícias são lâminas, fixas ou móveis, de diferentes materiais, acopladas nos próprios edifícios.

[Post 4108]

Ortografia: «sá-carneirista»

Nem pensar


      «A minha passagem pelo PSD», afirmou Paulo Portas na entrevista que deu ao Diário de Notícias, «é o efeito de uma convicção carismática. Eu nunca fui social-democrata, mas era “sá carneirista”. A personalidade política que me fez viver para a política chamava-se Sá Carneiro» («“Não é possível mobilizar o País com este primeiro-ministro”», João Marcelino, Diário de Notícias, 14.11.2010, p. 5).
      Recentemente, um espanhol a viver há doze anos em Portugal disse-me que os Espanhóis não são, na sua maioria, monárquicos, mas juancarlistas. Mentalmente, vi a palavra assim escrita. E foi assim grafada que a vi numa pesquisa. E sacarneirista vejo aqui e ali, mas defendo, por mais clara, a grafia sá-carneirista. Tudo, em todo o caso, menos como o director do Diário de Notícias escreveu.

[Post 4107]

Léxico: «sique»

Imagem tirada daqui

É ao contrário


      «Os oficiais ingleses do exército indiano do vice-rei também pertenciam à classe média, embora os seus sipaios fossem recrutados nas casas militares do império: os rajputes, os siques, os muçulmanos do Punjabe» (Uma Introdução à Vida de Churchill, John Keegan. Tradução de Jorge Palinhos e revisão de Paulo Salgado Moreira. Lisboa: Tinta-da-China, 2007, p. 46).
      Esperamos mais estas adaptações na imprensa, mas é ao contrário: «Ontem em Amritsar, cidade indiana do estado do Punjabe e centro da religião Sikh, o dia foi de grande festa. Afinal de contas celebrou-se o 541º aniversário de Nanak Dev, o fundador e primeiro guru da religião Sikh. Nas imediações do famoso Templo Dourado, completamente iluminado para as cerimónias, o clima foi de celebração e oração, onde nem sequer faltou o fogo-de-artifício. Estima-se que actualmente existam cerca de 26 milhões de fiéis Sikh» («Fiéis da religião Sikh celebram aniversário do primeiro guru», Metro, 22.11.2010, p. 1).

[Post 4106]

Acordo Ortográfico

A mortalha da língua


      «Mais uma reforma? Deus nos acuda. Cada reforma ortográfica é uma convulsão no idioma. Admite-se de século a século. De oito em oito dias, é demais... Antes brincar com fogo ou com bombas atómicas. Não há reforma ortográfica tão subtil que possa satisfazer qualquer inteligência. Todas têm defeitos. São obras humanas, eivadas de paixão, tocadas de bairrismo, não podem servir todos os intelectos. A de 1911, para mim, é a menos defeituosa. As seguintes, querendo corrigi-la, pioraram-na, principalmente a da mãi. A de 1945... Portugal perde nela, ainda hoje, o seu carácter. Mas, Deus a conserve. Outra que venha será porventura a mortalha da língua portuguesa» (A Língua Portuguesa, João de Araújo Correia. Lisboa: Editorial Verbo [s/d, mas de 1959], p. 40).

[Post 4105]

Revisão

Não vale a pena?


      «A presidente-eleita do Brasil escreveu uma carta ao Papa em que afirma que deseja ter “uma relação fecunda” com a Igreja Católica. A missiva, escrita por Dilma mas analisada e revisada pelo chefe de gabinete de Lula, Gilberto Nascimento, é uma forma de mostra não ter ficado ressentida com Bento XVI, que antes da segunda volta pediu aos fiéis para não votarem em quem defendesse o aborto» («Aproximação a Bento XVI», Domingos G. Serrinha, Correio da Manhã, 20.11.2010, p. 33).
      Então agora já não revêem o que um correspondente escreve, ainda por cima um correspondente que não redige segundo as normas do português europeu?

[Post 4104]

Tradução

Mal traduzido


      «Nas declarações conjuntas com Cavaco Silva e José Sócrates, [Obama] voltou a irradiar simpatia, lembrando em Belém que Cavaco Silva é “comandante-em-chefe” das Forças Armadas e elogiando em S. Bento a liderança de José Sócrates no combate à recessão económica» («’Big Show’ Obama com Cavaco Silva e José Sócrates», Correio da Manhã, 20.11.2010, p. 9).
      «Comandante Supremo das Forças Armadas», lê-se na Constituição. Em português, porém, diz-se comandante-chefe.

[Post 4103]

«Cocktail Molotov»

Novo mês, nova regra


      «A polícia entrou em confronto com centenas de manifestantes que respondiam com pedradas e cocktails molotov» («Percorrer o mundo para fazer a guerra à NATO», Hugo Filipe Coelho, Diário de Notícias, 18.11.2010, p. 7).
      Até nem me parece mal que se escreva com minúscula, mas reparem que um mês antes haviam grafado com maiúscula: «Petardos, pneus, gás lacrimogéneo ou cocktails Molotov são alguns dos artefactos usados por grupos activistas nas cimeiras da NATO e Portugal não deverá ser excepção, estando a PSP a treinar para os enfrentar» («PSP prepara-se para confrontos com activistas anti-Nato», Diário de Notícias, 15.10.2010, p. 25).

[Post 4102]

Aspas

Reflictam

      «Entre agentes da CIA e da segurança pessoal que já se deslocaram para Portugal há várias semanas, as equipas de análise de informações que têm estado a trabalhar com as “secretas” portuguesas e os elementos das equipas de guarda-costas que vão estar mais próximos de Barack Obama, chega às duas centenas o número de pessoas envolvidas na protecção do Presidente norte-americano» («Obama traz quase 200 seguranças na visita a Portugal», Patrícia Viegas e Valentina Marcelino, Diário de Notícias, 18.11.2010, p. 2).
      Já aqui perguntei uma vez, mas, paciente, pergunto de novo: para quê as aspas em «secretas»? Trata-se de algum uso metalinguístico? E «presidente» merecerá inicial maiúscula?

[Post 4101]

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