Como se escreve nos jornais

Ai, que susto

     «Chris Meade, do if:Book London, uma organização britânica que explora as potencialidades criativas dos novos média e está ligada ao Institute for The Future of the Book de Nova Iorque, esteve em Lisboa na semana passada e não o vê assim. “Estamos a ser muito duros. O que significa realmente ser dono de um livro impresso, o que é esse sentimento de pertença? Ele não dura para sempre; perdêmo-lo, oferecêmo-lo, deixamos que caia no banho e não o podemos ler mais. Num dos nossos projectos, colocámos uma piada: o Google desliga uma ficha e toda a nossa cultura desaparece. Talvez o grande perigo seja esse: o da perda do digital”, disse» («Ser ou não ser dono de um e-book», Isabel Coutinho, «Ípsilon»/Público, 29.10.2010, p. 42).
      Pois é, Chris Meade tê-lo-á dito, mas não o escreveu com aqueles erros. É, acaso, algum acento diferencial?

[Post 4027]

Ortografia: «paleossismologia»

Difícil?


      «A paleosismologia é um ramo da geologia que estuda os terramotos antes do primeiros registos históricos, abordando directamente a falha que originou um determinado terramoto, podendo calcular as magnitudes de fenómenos que se produziram há milhares de anos e que se voltarão a reproduzir no futuro» («Noroeste de Portugal entre os mais sísmicos», Diário de Notícias, 28.10.2010, p. 33).
      Não uma mas duas vezes no mesmo breve artigo. Será difícil perceber que o vocábulo se escreve correctamente com dois sspaleossismologia?

[Post 4026]

Sobre «jornada»

Porque será?


      «Hoje haverá novas manifestações contra o diploma um pouco por toda a França — é a sétima jornada nacional de contestação em dois meses no país» («Parlamento dá luz verde à polémica lei de Sarkozy», Pedro Correia, Diário de Notícias, 28.10.2010, p. 36).
      É impressão minha ou o vocábulo «jornada» apenas se usa neste âmbito e no futebolístico? Parece ter vindo do provençal. Em espanhol, é sinónimo perfeito de dia — e em português também, só que é raríssimo vê-lo usado nesta acepção. No caso, é, como o define o Dicionário Houaiss, o «dia assinalado por algum acontecimento ou circunstância notável».

[Post 4025]

Ortografia: «ascensão»

Dormição


   «Em 1954, quase uma década após o final da guerra, Fujita, já na altura um nome em ascenção no design norte-americano, foi contratado pela Columbia, como substituto precisamente de Alex Steinweiss» («O criador do logotipo para a saga ‘O Padrinho’», Alexandre Elias, Diário de Notícias, 28.10.2010, p. 53).
      Ascensão, caro Alexandre Elias. O s, neste vocábulo, é etimológico. Há um certo número de factos que precisamos de saber de cor. Este erro já passou por aqui. (Em Maio, celebra-se a Ascensão do Senhor. Em Agosto, as Igrejas orientais celebram a Dormição de Maria, a que corresponde, nas Igrejas latinas, a Solenidade da Assunção de Maria.)

[Post 4024]

Selecção vocabular

Imagem tirada daqui

Coisa das arábias?


      O Diário de Notícias («Elegância oriental na corte inglesa em visita de Estado», Márcia Gurgel, p. 65) diz que Sheikha Mozah Bint Nasser Al-Missned, a terceira mulher do emir do Qatar, foi «condecorada Dama do Império Britânico». Não devia, pergunto, dizer-se «nomeada Dama do Império Britânico»? Ou mesmo «agraciada com o título, etc.»?

[Post 4023]

Ortografia: «franciú»

Não sei se será


      Vi citado em vários sítios o texto de Manuel Maria Carrilho publicado ontem no Diário de Notícias, em que refere que o peso da língua no PIB é de 17 % no caso português. É desse artigo este excerto: «Exemplo que devia ser seguido por todos os responsáveis políticos da CPLP nas suas acções internacionais públicas, cortando com o gesto de submissão política que é andar pelo mundo a falar “portunhol”, “françiú” ou “bad english”, assim acabando por estropiar anos de esforçado trabalho pela afirmação internacional da língua portuguesa» («A missa lusófona», Manuel Maria Carrilho, Diário de Notícias, 28.10.2010, p. 67). Talvez seja gralha, sim, mas nesse caso ninguém deu conta dela. Para um português, saber que antes de i e e não se pode usar cê-cedilha está tão interiorizado como, por exemplo, num espanhol saber que nenhuma palavra da língua de Cervantes tem dois ss.

[Post 4022]

Tradução: «principal»

Nobres e principais


      «Holgó de hacerlo así el asistente, y, de allí a ocho días, acompañado de los más principales de la ciudad, se halló en ellas» — Cervantes. «E todos os principais dos lugares o saíam a receber com grandes festas e honras, concorrendo todos os povos a ver a nova vitória» — Fr. Gaspar da Cruz. Os principais são as pessoas importantes ou influentes de determinada localidade ou país. Principales é quase sempre traduzido por «nobres», mas, como se vê, escusadamente. Faço notar que Cervantes e Fr. Gaspar da Cruz são autores coevos. (O Flip 7 sugere que escreva «é autor coevo», isto porque o segmento depois do ponto de abreviatura em Fr. é lido como uma frase completa...)

[Post 4021]

Léxico: «tribunício»

Nova


      «Este especialista [Carlos Jalali] em sistemas políticos e professor da Universidade de Aveiro explica que “o Presidente da República tem poderes constitucionais vários, entre eles poderes tribunícios”. Ora, segundo o mesmo investigador, “os poderes não podem mudar, mas ele é livre de usar os poderes tribunícios, de fazer intervenções, colocar temas na agenda, influenciar os agentes políticos”» («Politólogos não sabem o que é “magistratura activa”», São José Almeida, Público, 28.10.2010, p. 16).
      Tribunício: referente a tribunado ou a tribuna. É termo que desconhecia.

[Post 4020]

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