Erros na BD

Desenho de Fernando Bento

Constrangedor, na verdade


      Ontem fui à 21.ª edição do Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora (FIBDA), que se realiza no Fórum Luís de Camões, na Brandoa. Na parte do concurso, havia, no máximo, seis trabalhos mesmo bons. O mais vergonhoso — e poucos trabalhos escaparam — eram os erros ortográficos e de pontuação. Pelo menos em relação a dois trabalhos no escalão A (dos 17 aos 30 anos), o júri decidiu destacar dois trabalhos, «que, apesar da sua qualidade, não foram premiados como penalização pelos erros ortográficos», mas eu mostraria ao júri as escassíssimas excepções em todos os escalões. «Estar preparado é metade da vitória», dizia Cervantes. Ora, preparado, neste caso, é ler, e saber ler, ou, se forem inteligentes, dar a rever os textos.
      Digno de realce nesta edição é o núcleo dedicado ao ilustrador e autor de banda desenhada Fernando Bento (1910―1996), cujo traço limpo, original, ainda hoje é moderno. Por fim, é também de salientar a reportagem fotográfica, a cargo, não de um mero fotógrafo, mas de um verdadeiro artista, Hugo Lima.

[Post 4003]

Como se fala na televisão

Disparate, está a ser filmado


      No Jornal Nacional da TVI 24 de ontem, José Carlos Castro falava com o comentador Manuel Maria Carrilho. O pivô disse ter lido a entrevista do presidente da República ao Expresso, e anunciou: «Reti algumas ideias.» No mesmo jornal, soube-se que os árbitros vão fazer greve nos dias 6 e 7 de Novembro, o que irá afectar a «realização do clássico FC Porto-Benfica». Seja lá isso o que for. Luís Guilherme, presidente da Associação Portuguesa de Árbitros de Futebol (APAF), deixou o recado: «Os jogos vão ter de ser arbitrados por outras pessoas quaisqueres.» Vai ser o caos, o País vai parar...
[Post 4002]

Sobre «estanco»

Franco sabia


      Não terei ouvido, em toda a vida, mais de meia dúzia de vezes alguém usar a palavra «estanco». E mesmo assim, analiso agora, à distância, em tom desinformadamente depreciativo. Embora me pareça que o étimo está na língua espanhola, não é disso que vou curar. Assentemos num facto: o conceito é o mesmo em ambas as línguas: loja onde se vendem artigos estancados. O problema, para o falante português, começa logo aqui, pois não sabe o que são produtos estancados. São produtos cuja venda não é livre. Passemos agora para Espanha. Aqui, os estancos fazem parte do dia-a-dia. Nele podia-se adquirir sellos, cerillas, sobres y tabaco, isto é, selos, fósforos, sobrescritos e tabaco. Depois da guerra civil, o general Franco começou a compensar as viúvas dos militares caídos (apenas do lado nacionalista, claro) com estancos e casas de jogos (loterías, em espanhol). Dependendo embora da localização, os estancos eram actividade não para sobreviver mas para enriquecer, sobretudo nos últimos trinta anos. Como são uma concessão do Estado, não se podem trespassar, pelo que é negócio hereditário. E não podem estar fechados durante muito tempo. Ainda ontem me contaram, alguém que o conhece, que o actual proprietário do estanco do Aeroporto Madrid-Barajas é um cientista de renome. Embora não precisasse do estanco, não renunciou a ele, pois não sabe se não vai precisar dele para os filhos, ainda pequenos. Assim, pôs à frente do negócio uma pessoa da família, assalariado. Ser proprietário de um estanco é uma garantia, dada a actual crise. Actual é uma maneira de dizer, é uma crise que vem dos anos 90 e todos querem que acabe em 2011, mas com muita sorte acabará lá para 2020. Em Espanha, nos anos 90 já se falava numa geração perdida, a geração JASP: jóvenes aunque sobradamente preparados. Sobradamente porque eram licenciados, tinham pós-graduações, só não tinham emprego. Agora fala-se na geração ni-ni: ni estudia ni trabaja.

[Post 4001]

Recursos

Sob o signo pessoano


      Embora tivéssemos mais que ler com a biblioteca de Pacheco Pereira, é a biblioteca de Fernando Pessoa que a partir de agora vamos ter à nossa disposição. São cerca de 1140 obras, disponíveis em PDF e JPG e na íntegra. Numa consulta rápida, comprovei que não há nenhum dicionário da língua portuguesa, o mais valioso instrumento de trabalho aqui no Assim Mesmo, que, com este texto, chega aos 4000, a dois meses de fazer cinco anos.

[Post 4000]

Selecção vocabular

Telhado e tecto


      «É por isso que a Biblioteca de Delft tem um enorme tecto arrelvado e essa relva desce em declive até ao piso térreo, antes de voltar a erguer-se dramaticamente até ao edifício vizinho» («Reinventar a biblioteca», Robert Butler, Intelligent Life, Verão 2010, p. 29). Apesar de tecto também ser a cobertura de uma casa, o telhado, evitaria usá-lo nesta acepção, pois é esmagador o seu uso na acepção de parte superior e interna de qualquer casa. Quanto ao «dramaticamente», já aqui falámos.

[Post 3999]

Selecção vocabular

E malfeitoria


      «O que estava em causa era uma proposta de lei do Governo preparada no âmbito do programa Simplegis, um programa do Simplex para simplificação legislativa. Proposta que, no essencial, revoga de uma vez por todas o Código Administrativo de Salazar (tem ainda meia dúzia de normas em vigor) mas na qual o Executivo aproveitou, de caminho, para revogar 433 leis antigas, a maior parte dos quais de 1975. […] Um deputado do PS, Neto Brandão, acabou mesmo por reconhecer que “não há nenhuma benfeitoria” porque “não há nenhuma alteração substancial quando se revoga expressamente o que já está tacitamente revogado”» («Simplegis ‘recupera’ Américo Tomás», João Pedro Henriques, Diário de Notícias, 21.10.2010, p. 57).
      O uso do vocábulo «benfeitoria», ao contrário do que poderia pensar, não me levou a crer que o autor da declaração tinha formação jurídica, muito longe disso. Eu também aprendi que benfeitoria é a obra realizada numa coisa no intuito de valorizá-la e/ou dar-lhe melhor serventia. Simplificando, é o melhoramento (e a própria despesa) feito em propriedade. Benfeitoria é também sinónimo de benefício, mas nem esse facto me leva a crer que o termo foi usado com propriedade por este deputado socialista e advogado.

[Post 3998]

Léxico: «gestuário»

Conjunto de


      «“Foi uma indignidade absoluta”, acusa o antigo apresentador de televisão José Nuno Martins. “Ele descreveu de uma maneira leve e a seu bel-prazer o conceito. Considerou dever interrogar-se se relações públicas não constituirá uma expressão referida às ‘mulheres de vida pública’ e às ‘relações’ usuais em casas de passe”, disse ao DN o ex-provedor do Ouvinte da RDP. José Nuno Martins acusa o académico [Adriano Duarte Rodrigues] de “falta de dignidade, pelo tipo de linguagem, pelo gestuário, até corporal”» («Honra dos relações públicas causa braço-de-ferro na Internet», Ana Lúcia Sousa, Diário de Notícias, 21.10.2010, p. 55).
      Argumentário, gestuário, poemário... O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora e o Dicionário Houaiss não registam um só destes vocábulos. O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa regista somente o último.

[Post 3997]

Tradução: «climate proxies»

Ficamos a saber


      «Sem termómetros, tudo o que os cientistas têm à mão são indicadores climáticos indirectos (proxies, no jargão académico). Documentos históricos são um deles. Registos escritos, muitos feitos nos mosteiros, de colheitas, de observação do tempo, de catástrofes meteorológicas, de épocas de floração, ajudam a reconstituir o clima. O mesmo vale para imagens. É na própria natureza, porém, que estão as maiores fontes. Amostras de gelo das regiões polares guardam testemunhos milenares sobre a precipitação, sobre a fusão periódica da cobertura gelada, sobre a composição da atmosfera. De corais do Pacífico também se extraem dados climáticos» («Calor, secas, cheias. Bem-vindos à Idade Média», Ricardo Garcia, «P2»/Público, 21.10.2010, p. 4).

[Post 3996]

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