Como se fala na rádio

Ora essa


      Alexandre David no noticiário das 10 horas da Antena 1, no fecho de uma notícia: «Algo que os auditores de contas não concordam em absoluto.» E outra: «Hoje começa mais um peditório nacional da AMI. Perante a crise, seria de esperar que a resposta das pessoas fosse pouco dispendiosa, mas Ilda Costa, da Assistência Médica Internacional, já disse esta manhã à Antena 1 que nos últimos dois anos tem acontecido precisamente o contrário.»

[Post 3995]

«Dama» e «sir»?

Excelência


      Damas e... Damas e... A comunicação social está a noticiar que a pintora Paula Rego se dirigiu ontem ao Palácio de Buckingham para receber o título de dama oficial da Ordem do Império Britânico. Se se tratasse de um homem, nunca diriam que lhe tinha sido atribuído o título de «cavalheiro», pois não?

[Post 3994]

Sobre «freguês»

Diga, não tenha receio


      «Diamantino Amaral dos Santos (PSD), presidente daquela junta [freguesia de Coração de Jesus, concelho de Viseu], diz que o equipamento se enquadra na “modernização administrativa” que tem sido promovida “pelo actual Governo”. Porém, o PS de Viseu criticou este investimento, classificando-o de “absurdo, desnecessário e desrespeitoso pelos fregueses”» («Freguesia gasta 5000 euros para controlar dois funcionários», Nuno P. Chorão, Público, 17.10.2010, p. 27).
      Muito bem: freguês. Apesar de o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa registar que freguês é o «habitante de uma freguesia (em relação ao pároco)». Não é, ou não apenas: o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora acerta: «habitante de uma freguesia; paroquiano».

[Post 3993]

Selecção vocabular

Inapto


      «CIA admite falhas na recruta de um informante», é um título da página 17 da edição de hoje do Público. A primeira frase, porém, desmente logo a propriedade no uso do vocábulo «recruta»: «A CIA reconheceu ter dado passos em falso e simplificado a entrada de um informante que em Dezembro se fez explodir numa base no Afeganistão, matando sete agentes.» Recruta é a instrução militar básica dada a quem foi convocado para serviço militar ou para instituições semelhantes. O jornalista deveria ter escrito recrutamento, que é a escolha, a selecção de candidatos.

[Post 3992]

Léxico: «editoria»

Cresce e aparece


      «Em segundo lugar, a coordenação interna entre o trabalho para o sítio na Internet e para a edição em papel. Não faz sentido, neste caso, que a editoria do Público Online não soubesse que iria contar com uma peça própria da redacção sobre a reunião no Funchal. Ou que o jornalista no terreno não fosse confrontado com a escolha de um título que se adivinharia controverso» («Que esteve a dizer-nos Passos Coelho?», José Queirós, Público, 17.10.2010, p. 43).
      Nem o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora nem o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa registam o vocábulo. Só recorrendo ao Dicionário Houaiss é que o leitor que o desconheça ficará a saber que editoria é o «conjunto das secções de uma publicação que estão a cargo de um editor». O Flip 7 acha que quero escrever «editorai», e corrige-me. Cresce.

[Post 3991]

Revisão

Conhecer os conhecimentos


      «Deste estudo surgiram ideias para futuras linhas de trabalho que permitirão conhecer melhor os conhecimentos que os conteúdos e instruções dos manuais escolares permitem adquirir.» Mostrei a frase ao revisor antibrasileiro, dada a propensão quase patológica que revela para não deixar passar repetições. Saiu, com muitas desculpas e que podia ser pior a emenda, etc., isto: «Deste estudo surgiram ideias para futuras linhas de trabalho que permitirão adquirir melhor os conhecimentos que os conteúdos e instruções dos manuais escolares permitem adquirir.» Hã?! Nem sempre é possível fazer a poda que ele imagina. E agora?

[Post 3990]

Léxico: «hemangioma»

Desta vez não resvalaram


      «Apesar de nunca ter sido consultado por José Mestre, segundo explica, este tipo de problema  um angioma vascular  é detectado à nascença e raramente se desenvolve até este grau» («Cirurgiões nos EUA removeram tumor de mais de cinco quilos a “homem sem rosto”», Andrea Cunha Freitas, Público, 20.10.2010, p. 8).
      Em certa altura, há cerca de doze anos, quando passava diariamente pelo Rossio, evitava sempre olhar para onde ele estava, e uma vez tive mesmo um pesadelo em que o Homem sem Rosto me apareceu. Já então me perguntava se a ciência médica não podia fazer nada. O facto de ser testemunha de Jeová, soube-o agora, será uma explicação. No sítio da TVI 24 li agora que se trata de um «hemangioma cavernoso», o que parece ser o mesmo, embora, à partida, tivesse ficado de pé atrás, pois ainda ontem ouvi neste canal uma voz off, a propósito de tráfico humano, falar em «escravataria». O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa não regista o termo «hemangioma». Resolvam lá isso.

[Post 3989]

Léxico: «lofoscopista»

Imagem tirada daqui

Todos iguais


      «Sempre que saía em serviço, levava um lofoscopista e um fotógrafo» («Dos homicídios para o voluntariado», Sónia Simões, «DN Gente»/Diário de Notícias, 11.10.2010, p. 4).
       Têm sindicato que os defenda, o ASFIC, mas não estão nos dicionários. Nem a actividade que exercem, a lofoscopia, é conhecida dos dicionários. Agora vejamos outro exemplo na mesma edição deste jornal. Cá está: «A nossa tão lendária Passarola Voadora não deve ser conhecida em Albuquerque, a cidade americana que é uma espécie de paraíso para os balonistas, nem em Debrecen, a localidade húngara onde se disputou a 19.ª edição do Campeonato do Mundo de Balões de Ar Quente» («Balões do mundo permitem evocar a Passarola», Fernando Madaíl, «DN Gente»/Diário de Notícias, 11.10.2010, p. 19). Estes já estão em todos os dicionários, mesmo sem sindicato.

[Post 3988]

Arquivo do blogue