Pronúncia: «fungi»

Não diga assim


      Rita Matos, no programa Este Tempo, da Antena 1, falou hoje sobre cogumelos. E usou a palavra «fungi» (plural do latino fungus), o reino (como se chegou à conclusão de que são tão diferentes das plantas como dos animais, criou-se um reino próprio — reino Fungi) a que pertencem os cogumelos. Primeiro, disse-a com pronúncia restaurada, com o g a soar como gutural. Depois, a desmentir o conhecimento que parecia ter revelado, tentou corrigir, pronunciando quase como se fosse uma palavra inglesa. Antes, tinha começado por lançar o que parecia um remoque ao bad english de Sócrates no discurso na Universidade de Columbia. Só que, como Rui Tavares disse em relação a Pacheco Pereira, em mau português. (Obrigado a Montexto pela referência.)

[Post 3971]

Pronúncia: «fénix»

Imagem tirada daqui

O ianque


      Nos últimos dias, ouvi na rádio, a propósito do resgate dos mineiros chilenos, a palavra «fénix» pronunciada das duas formas que já conhecemos — a normativa e a deturpada pela ignorância. Ontem, na Sic Notícias, no programa especial para acompanhamento em directo do salvamento, Mário Crespo, acompanhado de três convidados, José Manuel Moura, perito da Autoridade Nacional de Protecção Civil, Telmo Mourinho Baptista, bastonário da Ordem dos Psicólogos, e Fernando Barriga, professor catedrático de Geologia na Universidade de Lisboa, pronunciou o vocábulo como se fosse o inglês «phoenix». My word!

[Post 3970]

Acordo Ortográfico

Efectivamente


      Nunca sabemos muito bem (e quem lá trabalha também não) se os cronistas do Público estão a seguir as novas regras ortográficas se não. Quer dizer, os que o fazem. A crónica de Rui Tavares deu um sinal: «Durante o Verão, Pedro Passos Coelho começou a parecer-se com o tipo que ganhou o Euromilhões mas não teve tempo para levantar o prémio» («Outonal», Rui Tavares, Público, 13.10.2010, p. 36). «Pronto», pensei, «já desistiu.» Não, não: mais lá para o meio saiu um «diretas», um «diretamente», «efetivamente». Não seria mais sensato apreender bem as novas regras e só depois aplicá-las?

[Post 3969]

Ignorância

E está esgotado


      A Editorial do Ministério da Educação (sim, existe) publicou um livrinho, A Bandeira e o Hino — Símbolos de Portugal, da autoria de Ana Maria Marques e Isabel Alçada, e a publicidade assegura que «é um instrumento de trabalho educativo que permite ficar a conhecer os símbolos de Portugal». Conhecer, sim, mas mal: o músico e editor José Sacramento viu que essa partitura está errada, pelo que se deu ao trabalho de a copiar e fazer um ficheiro áudio do que lá está escrito. É o novo hino. Uma coisa é certa: é muito menos belicoso. Até nos remete para as paisagens oxigenadas do Nepal.

[Post 3968]

«Vice», palavra plena

Tarefa terminada


      Não insisto mais, parece que já aprenderam: «A procuradora-geral adjunta Isabel São Marcos aceitou substituir Pinto Monteiro durante a sua ausência por motivos de doença, atendendo à inexistência de um vice-procurador para dirigir a procuradoria. Mas não deverá ser o nome daquela magistrada que Pinto Monteiro vai apresentar ao Conselho Superior do Ministério Público (CSMP) para ocupar definitivamente o lugar de vice» («Substituta de Pinto Monteiro não deverá ser nova vice», Paula Torres de Carvalho, Público, 13.10.2010, p. 12).

[Post 3967]

Recursos

Para que saibam


      Não queria pompear os meus vastíssimos conhecimentos do que se faz em relação ao estudo e divulgação da língua portuguesa — mas tem de ser, para vosso bem. Ainda aqui não falei do Consultório Linguístico da Antena 1, com a participação de Aníbal Pedra, da Sociedade da Língua Portuguesa, que vale a pena ouvir.

[Post 3966]

Lacunas

O que faz cachimbos


      Na última página do Jornal de Notícias de ontem podia ler-se uma reportagem sobre o único (mas não acredito que seja o único) artesão português, João Reis, a fazer cachimbos. Teve de ir para a Dinamarca aprender com o mestre Kai Nielsen e depois estabelecer-se lá, pois em Portugal não havia equipamento. Chega a produzir 120 cachimbos por ano, que vende a um preço entre 550 e 3000 euros. Tem encomendas para seis meses. Ora bem, como se chama uma pessoa que faz cachimbos? Ahn... Não tem nome. É um artesão. Ao passo que os fumadores são cachimbadores, cachimbistas ou cachimbeiros (mesmo que os dicionários, deficientes, registem tão-somente a primeira). O mundo é injusto.

[Post 3965]

«Cota/quota»

Isto também não é normal


      Quota e cota. Não são vocábulos completamente intermutáveis. Se há quem (nanja eu) prefira pagar as «cotas» do condomínio, seria bom que ninguém quisesse usar «quota» para se referir à diferença de nível entre qualquer ponto e aquele que se toma para referência. Seria, mas com os jornalistas, que até põem o presidente da República a «dissolver» o Governo, tudo é possível: «As pontes foram construídas a uma quota inferior à que se encontra na “Ponte Praça” e os moliceiros e mercantéis que são utilizadores [sic] por privados nos passeios turísticos da ria circulam com as proas serradas como forma de poderem navegar naquele canal urbano» («Pontes de canal vão ser mais altas», Jesus Zing, Jornal de Notícias, 12.10.2010, p. 27). O Dicionário Houaiss, porém, fá-los sinónimos nestas acepções. A tradição, senhores, a tradição manda o contrário. E digo-te mais, Houaiss: não sabes o que é um mercantel.

[Post 3964]

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