Termos da heráldica

Os animais da heráldica


Contra-emergente adj. Diz-se dos animais unidos costas com costas, saindo as cabeças e mãos fora do escudo.
Dragonete m. Símbolo heráldico que figura uma cabeça de dragão com a boca aberta.
Grifo m. Figura fantástica, representada de rampante e de perfil, com a parte anterior de águia e a posterior de leão e as asas abertas com as pontas voltadas para o chefe.
Grilhetado adj. Diz-se da ave de rapina quando leva cascavéis nos pés.
Guarnecido adj. Diz-se que o açor, o falcão, etc., estão guarnecidos de tal esmalte quando têm pioz, cascavéis, caparão e alcandora desse esmalte.
Guivra m. Serpente fantástica que se representa na acção de engolir uma criança de que se vêem os braços e a cabeça.
Lampassado adj. Designação do animal (leão, leopardo e outros quadrúpedes heráldicos) representado no escudo com a língua de fora, ou da língua de um animal assim representado.
Linguado adj. Em heráldica, diz-se do animal que apresenta a língua de esmalte diferente.
Meia-águia f. Metade de águia bicéfala.
Melusina f. Sereia, com cauda de serpente a banhar-se e a pentear-se em uma lagoa.
Membrado adj. Diz-se das aves representadas nos escudos com pernas de qualquer esmalte.
Pascente adj. Diz-se dos animais representados a pastar.
Passante adj. Diz-se do animal que figura no escudo na atitude de andar; é a postura habitual do leopardo.
Preando adj. Particípio de prear empregado em relação à ave de rapina que traz caça nas garras e assim é representada o escudo.
Rampante adj. Diz-se do quadrúpede, sobretudo do leão, firmado nas patas traseiras, tendo as dianteiras levantadas.
Unhado adj. Diz-se do boi, do touro ou da vaca que tem as patas de outro esmalte.

[Post 3908]

[Léxico em construção: 16 entradas]

Sobre «inteligente»

Em terra de cegos


      «O director de corrida é quem manda no espectáculo tauromáquico. É o representante do Estado através do IGAC, Inspecção-Geral das Actividades Culturais. Em Portugal, são 18 e rodam pelas mais diversas praças de touro do país. São profissionais da tourada na reforma: bandarilheiros, na sua maioria, matadores e forcados. O director de corrida é também conhecido como “o inteligente”. Diz a história secular que os “inteligentes” eram os toureiros fora de actividade mais evoluídos, numa sociedade analfabeta. Mas o nome técnico é director de corrida» («Na corrida de touros», Elisabete Pato, Notícias Sábado, 245, 18.09.2010, p. 35). Quase todos os dicionários registam a acepção.
[Post 3907]

Sobre «embocadura»

Lacuna?


      «E não se pense que os cuidados são apenas com o instrumento. Dois dias antes de uma corrida de touros, José Henriques [cornetim tauromáquico] não come azeitonas porque tira a embocadura (calo nos lábios devido à pressão do bocal de ferro do instrumento). O calo amolece com o óleo das azeitonas» («Na corrida de touros», Elisabete Pato, Notícias Sábado, 245, 18.09.2010, p. 35).
      Os dicionários, contudo, não registam esta acepção — não fará parte do idiolecto deste profissional?

[Post 3906]

Léxico: «pressóstato»

Só os melhores


      Neste caso, nem o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa nem o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora registam este vocábulo: «A máquina não tem termóstato mas pressóstato, e por isso não mede a temperatura, antes a pressão da água dentro da caldeira» («Os mestres do café», Leonor Moreira, Notícias Sábado, 245, 18.09.2010, p. 48). Regista-o, era de esperar, o Dicionário Houaiss, remetendo para manóstato: «mecanismo de tipo manométrico, invertido e com fluido em seu interior, utilizado para manter constante a pressão dentro de um recinto; pressóstato».

[Post 3905]

Actualização em 25.09.2010


      Creio que é de toda a conveniência não deixar nos bastidores um comentário que ajuda a destrinçar por entre a confusão:
      «Eis uma típica calinada demonstrativa da iliteracia científica de muitos dos nossos jornalistas.
      «Um termóstato não tem como função medir a temperatura. Essa é a função de um termómetro. Um termóstato tem como função manter a temperatura constante.
      Da mesma forma, um pressóstato não mede a pressão. Essa a é função de um barómetro. O pressóstato, como é fácil perceber pela maneira como a palavra é formada, tem como função manter a pressão constante.»

Neologismo: «barista»

Imagem tirada daqui

Mestres do café


      Se se trata de neologismo, é muito mais provável estar registado no Dicionário Priberam da Língua Portuguesa do que no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. É o caso: «Ser barista é uma especialidade nova em Portugal, o que até é estranho num país que gosta e bebe tanto café [sic]. Eles conhecem todos os mistérios do grão de café e fazem malabarismos com uma simples bica» («Os mestres do café», Leonor Moreira, Notícias Sábado, 245, 18.09.2010, p. 46). Barista é então o «empregado de bar que serve ao balcão as bebidas que prepara» ou o «especialista na preparação de cafés e de bebidas à base de café». (Mas o FLIP 7 não reconhece o vocábulo, sugerindo-me, complacente e solícito, barrista, basista, arista, balista e barrita.)

[Post 3904]

Ensino

Fo..., ca...., co...


      «As escolas que recomendaram a compra de um dicionário com palavrões aos alunos do 1.º ciclo admitem ter-se tratado de um “lapso” na indicação da cor da capa da obra da Porto Editora. Escolheram a capa azul, com a designação de Dicionário de Língua Portuguesa, mas deveriam antes ter sugerido o Dicionário Básico de Língua Portuguesa cor de laranja, que a editora garante ter elaborado “especificamente” para o 1.° e 2.º ciclos do básico. Apesar disso, as crianças dos seis aos dez anos vão continuar a usá-lo» («Dicionário com palavrões foi “lapso”», Roberto Dores, Diário de Notícias, 23.09.2010, p. 14).
      Não sabia que os dicionários eram recomendados por cores. Faz lembrar os idosos, a quem se recomenda que tomem o comprimido azul de manhã, o vermelho à tarde e o amarelo à noite. Não por acaso os comprimidos não têm todos a mesma cor. Isto é que é menorizar os alunos. Que tristeza. Bem, e que palavrões são aqueles? O habitual: «Em causa está a consulta por crianças de palavras como “fo...” (acto sexual), “ca...” (órgão sexual masculino) ou “co...” (órgão sexual feminino). Este dicionário é recomendado pela editora apenas a partir do 3.º ciclo.»
      Ainda hoje uma professora me disse que pedira a uma aluna para ler o verbete de um vocábulo no dicionário e a aluna, depois de ter lido algumas palavras, parou. Porquê? Na definição estava uma palavra «que não era para a idade dela». E que palavra era essa? «Sexual».

[Post 3903]

Selecção vocabular

Não se percebe


      «Mais de metade das espécies de plantas até hoje conhecidas foram retiradas do “dicionário da vida” após um aprofundado estudo levado a cabo por uma equipa de cientistas do Reino Unido e dos EUA durante os últimos três anos. Ao longo dos séculos, recolhas e identificações que os botânicos de todo o mundo julgavam ser de novas espécies, eram, afinal, meras duplicações de espécies já conhecidas. As repetições são tantas que o tomate comum, por exemplo, tem 790 nomes diferentes, existindo 600 apelidos distintos para o de carvalho e suas variedades» («Era um milhão de espécies e agora são só 400 mil», Helder Robalo, Diário de Notícias, 21.09.2010, p. 28).
      Não é fenómeno inteiramente novo, este uso inadequado do vocábulo «apelido». No artigo citado, trata-se de um nome de família ou sobrenome? Não. Trata-se de um cognome? Não. Trata-se de uma alcunha? Não. Trata-se do nome especial? Não.

[Post 3902]

Regência: «desinteressar-se»

Mais devagar


      Acabo de ler que alguém, chegado a Coimbra, «depressa se desinteressou pelo Direito». Isto de tomar a regência de um verbo pela de seu antónimo é um erro muito mais comum do que, à primeira vista, se possa crer. E mais comum na escrita que na oralidade. Interessamo-nos por uma coisa e desinteressamo-nos dela. A tendência (tendência, não regra geral) dos verbos iniciados pelo prefixo de negação des- é reger a preposição de. Outra vez: «depressa se desinteressou do Direito».

[Post 3901]

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