Léxico: «intercurso»

Férias no País das Túlipas


      O cronista do Público Pedro Lomba andou a viajar pela Holanda este Verão. E quem fala da Holanda não pode deixar de referir, não as tulipas, mas o sexo. Não na Holanda mas no Times, o cronista aprendeu, pela boca de um adolescente holandês, que «o sexo anal dói no princípio mas se persistirmos pode ser bastante agradável». O cronista também aproveitou para usar vocábulos raros, como intercurso: «As holandesas marcam na agenda os dias da semana em que têm intercurso com os maridos» («Repressão sexual», Pedro Lomba, Público, 14.9.2010, p. 44). Parece anglicismo disfarçado, sexual intercourse, não é? Mas não. Se o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora o ignora, o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa e o Dicionário Houaiss registam-no: «comunicação, trato; relacionamento». E este último dicionário exemplifica: «intercurso sexual».

[Post 3884]

Ortografia: «antidopagem»

Inventem agora uma desculpa


      Aqui não há dilemas, só erro do jornalista: «Defendendo a tese de vítima neste processo baseado nos incidentes resultantes do célebre controlo antidoping, ocorrido no estágio da Covilhã, antes da partida para a África do Sul, Queiroz avançou com os relatórios da Autoridade Anti-Dopagem de Portugal (ADoP) e sublinhou o facto de o inquérito ter apenas sido ordenado a 2 de Julho, depois da derrota com a Espanha, na Cidade do Cabo, insinuando um ajuste de contas» («Queiroz quer ser indemnizado por “honra manchada”», Jorge Alves Barata, Diário de Notícias, 12.09.2010, p. 33).

[Post 3883]

Sobre «item»

Repito: há sempre pior


      Lembram-se decerto de aqui ter dado conta do meu ódio de estimação ao vocábulo «item». Pois esta semana tive de engolir um. Vejam agora neste excerto de um artigo do Diário de Notícias: «Os trabalhos iniciaram-se em 2007 e foram faseados, de modo a que a biblioteca só tivesse que encerrar neste último período. Recuperação de espaços, adaptação às novas tecnologias, catalogação e rearrumação dos itens, eliminação de estruturas decadentes, climatização e controlo da humidade em todas as alas, sistemas anti-incêndio e de segurança. Dentro de dois anos, a intervenção ficará completa com a abertura do Salão Sistino como segunda sala de consulta de estampas e litografias» («‘Chip’ impede roubo de livros no Vaticano», Manuela Paixão, Diário de Notícias, 12.09.2010, p. 26). E porque está grafado em itálico? Não uma, mas duas vezes: «A Biblioteca Britânica é a maior do mundo em quantidade de itens, tendo sido criada em 1973» («‘Chip’ impede roubo de livros no Vaticano», Manuela Paixão, Diário de Notícias, 12.09.2010, p. 27).

[Post 3882]

Como se escreve nos jornais

Nem assim


      Podia começar com isto, mas talvez seja demasiado: «Deputados queixaram-se por serem os últimos a saberem» («Passos assume ousadia mas recusa radicalismos», Cristina Rita/Luís F. Silva, Correio da Manhã, 15.09.2010, p. 26). Algo mais comezinho, como isto: «Os destroços do carro, que será um Renault Laguna, foram passados a pente-fino, ontem de manhã, pelos inspectores da Polícia Judiciária» («Morre queimado», João Mira Godinho, Correio da Manhã, 15.09.2010, p. 13). E isto: «Foi júri durante dois anos consecutivos do concurso Miss Bairrada, mas, este ano, José Castelo Branco foi convidado para ser o apresentador da grande final, que consagrou Carina Moura» («“É a rapariga mais linda”», V. N., Correio da Manhã, 15.09.2010, p. 47).
      Apanágio dos inteligentes é, não não errarem, que todos erramos, mas corrigirem os erros que lhes apontam.

[Post 3881]

Pronomes

Ninguém viu nem sabia


      Verbos e pronomes não é com eles: «Henrique Monteiro abandonará, a 1 de Janeiro de 2011, o cargo de director do semanário Expresso, posição que ocupou durante os últimos cinco anos. A sucedê-lo, estará Ricardo Costa, que ocupa desde Novembro de 2008 o cargo de director adjunto da mesma publicação» («Ricardo Costa será o novo director do ‘Expresso’», Alexandre Elias, Diário de Notícias, 12.09.2010, p. 46).

[Post 3880]

Erros infames

Há de tudo


      Foi tudo dito em murmúrios (e além disso, aproveito para me lamentar, ando há uma semana com zumbidos que duram horas. Hipertensão?), mas algo percebi, pois nos papéis não vislumbrei nada. Uma escritora, «com três ou quatro livros publicados!», tinha escrito algures que era «subescritora» de uma qualquer petição. Quem contou, porém, teve de o dizer três vezes, pois o interlocutor não compreendia. Não quiseram que eu ouvisse, apenas que entreouvisse.

[Post 3879]

Nome de doenças

Estas chagas


      Nada de corporativismos: de cinco em cinco anos, estou a encontrar um revisor que escreve «hífen» sem agá... O último foi no sábado. Ia sendo acometido de uma apoplexia. Bem, mas eu não queria falar disto, antes de um erro em que os jornalistas e os revisores do Correio da Manhã caem reiteradamente: «Uma doença subnotificada em Portugal, e sobre a qual a DGS quer ter informações sobre a sua prevalência, é a Doença de Chagas — transmitida através das baratas —, patologia que levou a Organização Mundial de Saúde (OMS) a lançar um alerta sobre a sua propagação» («D.G. Saúde vai vigiar doenças tropicais», Cristina Serra, Correio da Manhã, 13.09.2010, p. 18).
      O Dr. Carlos Ribeiro Justiniano das Chagas, bacteriologista brasileiro, merece ter ali o seu nome, naturalmente, mas «doença» não merece honras de maiúscula.

[Post 3878]

Estrangeirismos

Também é doença, também é grave


      Se não registam «petanca», alguns dicionários, como o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, registam o termo inglês «quiz», o que leva alguns jornalistas a usá-lo como se fosse português: «No seu estilo informal, o director da Monocle lançava um miniquiz sobre os BRIC: Onde compraria uma casa de férias?» («Brasil, país do futuro: agora é para valer!», Leonídio Paulo Ferreira, Diário de Notícias, 13.09.2010, p. 7).

[Post 3877]

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