Léxico: «mirmecólogo»

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      É a nova moda: ter formigas em casa como «animais de estimação». É pedagógico, dizem eles. Uma vantagem é dar trabalho (nem que sejam apenas as entrevistas aos jornais) aos mirmecólogos e trazer o vocábulo à luz do dia. De caminho, pode ser que também contribua para que os dicionários registem o termo. «Eduardo Sequeira, mirmecólogo (especialista em formigas), esclarece que “existem vários processos de construção para formigueiros, alguns mais fáceis do que outros”, sendo que um dos factores essenciais a ter em conta “é a sua adequação à espécie pretendida”» («Quinta caseira para as formigas», Elsa Pereira, Jornal de Notícias, 7.09.2010, p. 28).

[Post 3853]

Como se escreve nos jornais

Indocíveis


      No Correio da Manhã, continuam a ignorar que uma criança de 3 anos não é um bebé. Culpa dos jornalistas, dos editores e dos revisores: «Os feridos mais graves foram transportados para o Hospital de Mérida, incluindo uma mulher que viajava com dois netos, um bebé de três anos, que estava ontem a ser operado, e o seu irmão, de sete» («Acidente junto às obras do TGV», Paulo Madeira, Correio da Manhã, 7.09.2010, p. 34).
      As palavras não são só palavras, são conceitos. É lamentável que continuem a laborar num erro tão básico e risível. Vejam se retêm desta vez: bebé é a criança recém-nascida ou de poucos meses.

[Post 3852]

Como se escreve nos jornais

Como a pescada


      Avalie o leitor por si próprio com que critério e tino escrevem alguns jornalistas. Começo por transcrever o último parágrafo de uma notícia sobre um homicídio: «A autora dos disparos foi detida pela GNR, mais tarde entregue à PJ, e ontem ouvida no Tribunal de Moncorvo. À hora do fecho desta edição, a audiência ainda não tinha terminado.» Pois é, a audiência ainda não tinha terminado, mas a jornalista nos primeiros parágrafos já tinha uma certeza: «A mulher matou Luís Moreira com dois tiros desferidos à queima-roupa, usou uma pistola de calibre 3,35 milímetros, adaptada e considerada ilegal. O crime ocorreu no café, depois de a vítima ter esfaqueado o filho da arguida, com 36 anos, na sequência de uma discussão que começou por causa de cinco euros encontrados no chão» («Mulher mata homem com dois tiros num café», Glória Lopes, Jornal de Notícias, 7.09.2010, p. 11).
      O «presumível», com que éramos bombardeados a toda a hora e em todos os meios, já é menos correntio, mas o salto pode ter sido excessivo, descompassado: é-se logo arguido, mesmo antes de a autoridade competente o ter declarado. Juízo, precisa-se.

[Post 3851]

Onde/aonde/donde

Erros de mujique


      Ferreira Fernandes que me desculpe, mas quando li a sua crónica de ontem lembrei-me de um livro escandalosamente mal revisto de que aqui falei: O Mapa Secreto (Livro 3 de As Crónicas de Spiderwick, de Tony DiTerlizzi e Holly Black, tradução de Isabel Gomes e revisão de Isabel Nunes. Editorial Presença, Lisboa, 3.ª ed., 2008). Dois exemplos do que pretendo abordar: «— Para aonde vamos? — perguntou Jared» (p. 67). «Para aonde vamos agora? — perguntou Jared. Estavam a subir novamente para o cimo da primeira colina, o que era bom sinal, mas estavam a caminhar num ângulo tal que Jared achava que não podiam estar minimamente perto do ponto de encontro indicado no mapa» (p. 68). E agora Ferreira Fernandes: «Jorge Luis Borges, em Evaristo Carriego, faz Moshe e Daniel encontrarem-se no meio da estepe russa: “A onde vais, Daniel?”, diz um. “A Sebastopol”, responde o outro. “Mentes, Daniel. Dizes que vais a Sebastopol para que eu pense que vais a Nijni-Novogorod, quando tu vais mesmo para Sebastopol» («O bolero ‘Quizás, Quizás, Quizás’...», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 6.07.2010, p. 52). Erro ou gralha? O jornalista costuma ser mais cuidadoso.

[Post 3850]

Léxico: «micropaís»

British Overseas Territory


      Em inglês percebem logo... É a terceira vez que aqui falo de Gibraltar. Desta vez, um jornalista assegurava que «a proposta de alteração no apuramento para o Europeu, curiosamente, partiu do representante de Gibraltar, nação que, naturalmente, pouco ou nada tem a ganhar com a alteração, face à escassa representatividade do basquetebol daquele minúsculo país». Eu não deixei que tais disparates vissem a luz do dia, e não compreendo como é que, actualmente, ainda há quem esteja, e um jornalista!, a tal ponto desinformado. Gibraltar não é uma nação nem um país, nem mesmo um micropaís: é um território britânico ultramarino.
      A propósito: quase todos os dicionários registam microestado mas nenhum regista micropaís. Vamos lá colmatar estas lacunas, meus senhores.

[Post 3849]

Sobre «ranger»

Ranger os dentes


      «Com a base situada no antigo Convento de Santa Cruz, em Lamego, o Centro de Tropas de Operações Especiais (CTOE) comemora hoje 50 anos de disciplina e rigor sem nunca mudar o lema dos Rangers: ‘Vontade e valor’» («Disciplina e rigor definem Rangers», Ricardo Coelho, Correio da Manhã, 6.09.2010, p. 13).
      Neste caso, o jornalista não tem a culpa de nada. No final da década de 1950, Salazar e as chefias militares viram que era necessário organizar forças militares para operações de tipo não convencional, ou seja, contraguerrilha, nos «territórios ultramarinos». Assim, em 1962, o Estado-Maior do Exército enviou o capitão Rodolfo Bacelar Begonha a frequentar um curso nos EUA. Quando regressou a Portugal, este capitão recebeu a missão de organizar um curso semelhante no Centro de Instrução de Operações Especiais (CIOE), actual Centro de Tropas de Operações Especiais (CTOE). Tão semelhante, na verdade, que nem o nome foi diferente: curso de «Instrutores e Monitores de Operações Especiais (tipo ranger)».
      O vocábulo, sabemos, é um americanismo, designa o soldado especializado em ataques de surpresa, membro de um comando. Porquê «ranger»? Porque é «a soldier specially trained in close-range fighting and in raiding tactics». Já aqui vimos como se deve evitar, nas traduções, o americanismo «marine». Infelizmente, nem todos os tradutores reflectem nestas questões.

[Post 3848]

Tradução: «runner»

É igual


      Os runners dos trenós são quê: patins ou esquis? O Dicionário Houaiss assegura que estes pequenos carros sem rodas são providos de esquis. Outros, contudo, afirmam que se trata de patins. Tudo é o mesmo. Patim, esqui e trenó são todas elas palavras que nos vieram do francês: patin, ski e traîneau. Vejam a definição do TLFI: «Véhicule bas sans roues, muni de patins recourbés à l’avant et utilisé comme moyen de transport sur la neige et la glace.» A parte da frente dos patins é curvada e estes podem ser feitos de madeira, alumínio ou plástico, com bases amovíveis, e são habitualmente encerados para deslizarem melhor.

[Post 3847]

Léxico: «bat box»


Anatomia morcegal. Tirada daqui

Morcegos estrangeiros


      Andava a passear de bicicleta com a minha filha na ciclovia do Bairro da Quinta do Bom Nome, ao lusco-fusco, e nisto, vi um morcego a esvoaçar vertiginosamente. E depois outro. E depois outro. Três morcegos minúsculos. De que precisava eu ali? Um jornalista saberia: uma bat box! «A identificação das espécies existentes é feita através de uma “bat box” (em português, caixa de morcegos), que detecta ultra-sons emitidos pelos animais, permitindo assim aos especialistas perceber de que se [sic] espécie se trata» («Visita nocturna a gruta de morcegos em Alte», Jornal de Notícias, 30.08.2010, p. 38). A minha filha queria apanhar um. Era bom, era. Também eu, sobretudo para ver o patágio (do latim científico patagium, «franja»), a membrana que liga os membros anteriores e posteriores. Voltando às bat boxes: pelo que vejo, também é o nome que se dá aos abrigos artificiais que se proporciona a estes mamíferos voadores. E quanto à etimologia do vocábulo «morcego»? No radical identificamos logo o latim mūs,mūris, «rato», sob a forma popular «mor», mais «cego». E não dizemos cego como um morcego? Alguns jornalistas portugueses dirão as blind as a bat...

[Post 3846]

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