Sobre o verbo «sacar»

How to Draw a Pistol


      Passam de duzentas as vezes que Cervantes usou o verbo sacar no D. Quixote. Não sei, nem isso agora importa, como os traduziu José Bento. Importa isto: em espanhol, sacar não significa exactamente o mesmo que em português. Num texto que estou agora a ler, que é tradução do inglês, vejo e horrorizo-me com o abuso e impropriedade do verbo sacar. Há sempre alguém a sacar uma máquina fotográfica da mochila, a sacar de um cofre que estava num armário, a sacar de um livro do interior daquele cofre, a sacar um casaco de uma caixa, a sacar um aviso de um quadro, a sacar do telemóvel guardado no porta-luvas... Para não ficar completamente desmoralizado, alguém saca, e eu faria o mesmo, e logo se veria contra quem, de uma pistola.

[Post 3845]

Fauna e flora, nomes comuns

Ratos e cardos


      Num sonho, apareceu a Carlos Magno um anjo que lhe disse para atirar um dardo. O dardo atingiu uma planta, um cardo. O anjo disse então ao imperador que os soldados, que estavam então a ser dizimados pela peste, que fossem tratados com aquela planta seriam curados. Esse cardo, muito comum nos Alpes, foi então chamado carlina, em homenagem a Carlos Magno. (Sim, sim, o Dicionário Houaiss, desta vez em todas as versões, não regista esta acepção, apenas a que diz respeito à construção de pontes.) Vulgarmente, também é conhecido por cardo-acaule. Em inglês, porque é, na verdade, de tradução que trata esta entrada, diz-se silver thistle, e o tradutor ficou-se por «cardo». A pergunta é: não é deliberadamente empobrecedor optar por não especificar? Optamos, conscientemente, por diminuir a riqueza, ao nosso alcance, do original? Já antes, um bank vole (Clethrionomys glareolus) tinha sido vertido simplesmente como «rato». Devemos contentar-nos com a família, omitindo a espécie e a subespécie? Será a literatura alérgica à exactidão, à precisão?

[Post 3844]

Neologismos

Esforço vão?


      Sobretudo em certo tipo de textos, mais técnicos, a necessidade de neologismos é constante. Será mesmo necessidade? Lembram-se do caso daquela orientadora que exigia que dois vocábulos, igualação e igualização, estivessem dicionarizados (não que fossem usados habitualmente, reparem), sob pena de não os admitir na dissertação? Lembrei-me dela agora que estou aqui a ler que, depois de feito, um questionário é «anonimizado». O que pressupõe um verbo que, na realidade, não existe: anonimizar. Existe, isso sim, anonimar, cujo particípio é anonimado. Contudo, a terminação –izar, com carácter causativo, está correcta. Umas linhas à frente, afirma-se que «o procedimento seguido permitia assegurar não apenas a confidencialidade das respostas mas também a anonimização dos questionários». Bem, na formação de substantivos derivados de verbos (anonimizar), o pospositivo é muito usado e também está correcto, mas de tudo se colige o uso ad hoc. Há formas, mesmo que perifrásticas, de dizer o mesmo sem recorrer a neologismos, que podem sempre causar estranheza e resistências.

[Post 3843]

«Bondade» e «fortaleza»

Qualidade do que é bom


      Só agora, ao ser confrontado com a tradução de «fortaleza del ungüento», é que me lembrei doutro substantivo que, usado fora de certo contexto, causa sempre perplexidade em certos falantes: «Ontem, uma dezena de pais e alunos telefonaram para a tutela e enviaram e-mails a pedir esclarecimentos e uma reunião com Isabel Alçada para falar da bondade da EM e do direito dos seus filhos à educação» («Ministério da Educação fecha Escola Móvel», Bárbara Wong, Público, 10.08.2010, p. 7). E, vendo bem, a definição do Dicionário Hoauiss não ajuda nada a convencer esses tais perplexos da propriedade do termo.

[Post 3842]

Tradução: «estrado»

Igual mas diferente


      No D. Quixote aparece cinco vezes o vocábulo espanhol «estrado». Se a acepção que logo me (nos?) ocorre é, recorrendo ao Dicionário Hoauiss, «estrutura plana, em geral de madeira, que se assemelha a um palanque baixo, construída acima do nível do chão, para que, ao formar um piso mais elevado, ponha em destaque pessoa ou coisa», a verdade é que ficaremos bem longe do significado do original, que é, e agora recorro ao DRAE, «conjunto de muebles que servía para adornar el lugar o pieza en que las señoras recibían las visitas, y se componía de alfombra o tapete, almohadas y taburetes o sillas». O mais próximo, mas diferente, ainda assim, é uma acepção antiga do vocábulo português, também registada pelo Dicionário Hoauiss: «pequeno e baixo palanque onde as senhoras executam certos serviços domésticos». Para traduzir é necessário, não há dúvida, muito tino. Só à conta dos falsos amigos, temos por aí equívocos estampados em milhares de livros. Posso estar enganado, mas a única forma de resolver satisfatoriamente a questão é dar a explicação em nota de rodapé.

[Post 3841]

Pequenas Antilhas

Ainda não

      «Barbados chegou a estar na posse da Coroa portuguesa, passando para domínio britânico em 1625. Esta ilha das Antilhas Menores, hoje com 275 mil habitantes, tornou-se independente do Reino Unido em 1966, mantendo, no entanto, a Rainha Isabel II como Chefe do Estado» («Casal Blair procura mansão mas Caraíbas», Lumena Raposo, Diário de Notícias, 30.08.2010, p. 23).
      Eu prefiro dizer e escrever Pequenas Antilhas, como a Caribe prefiro Caraíbas. Só quando formos, finalmente, reintegrados na Coroa espanhola é que passarei a usar as outras formas. E a dizer mal do rei.

[Post 3840]

Tradução

Hornworm uma ova!


      «A descoberta surgiu pela análise de comportamento das plantas de tabaco na presença da lagarta Manduca sexta (o hornworm do tabaco), cuja saliva activava a produção do químico de alerta e subsequentemente atraía insectos, como o Geocoris, que se alimentam das larvas e dos seus ovos» («Planta do tabaco liberta químico que atrai predadores de lagartas», Diário de Notícias, 30.08.2010, p. 25).
      Os jornalistas são culpados da muita ignorância que nos assola. Que interesse pode ter o leitor médio português em saber que Manduca sexta se chama em inglês hornworm? E em português, como é? É lagarta-de-chifre, e a subespécie Manduca sexta paphus é conhecida no Brasil por mandarová-do-fumo.

[Post 3839]

Tradução de nomes próprios

Sim, não, talvez


      A tradução dos nomes próprios é matéria que tem gerado alguma controvérsia. Na tradução de obras clássicas, essa era e é a regra. Claro que é sempre mais fácil haver tradução, em especial de apelidos, se estes tiverem conteúdo semântico. No D. Quixote... Bem, a começar pelo protagonista, houve tradução, ou, melhor, adaptação fonética, que as cordas vocais dos nossos compatriotas estão pouco afeitas a articular tal som, que só por arremedo, e antes não saísse... Quijote. Bem, há uma personagem de nome Juan Haldudo. Na tradução de José Bento, é-nos apresentada como João Aldrabão. Um tal Pedro Recio ficou Pedro Récio; Diego de Miranda, Diogo de Miranda; Lorenzo, Lourenço; don Juan de Austria, D. João de Áustria; Juan de Úbeda passou a João de Úbeda; Lope Tocho ficou crismado como Lopo Tosco, e Juan Tocho, João Tosco; Teresa Cascajo foi-nos apresentada como Teresa Cascalho. Diego de Valladolid é Diogo de Valhadolide; Juan de Andrea de Oria ficou João de André de Oria. Sancho Panza ficou para nós Sancho Pança, e sua mulher, Juana Pança, é Joana Pança, claro. Contudo, lapso do tradutor e meu, o nome de solteira da cara-metade de Sancho ficou... Juana Gutiérrez. Mas também Juan Pérez de Viedma não sofreu alteração, como a não sofreu Alonso López. Há estudos académicos sobre esta questão, pelo que não se esgota assim, nem pouco mais ou menos, o que se poderia dizer.

[Post 3838]

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