«Suite»/«suíte»

Há muitos anos


      «Foram três dias difíceis, de grande sacrifício pessoal. O repórter Ricardo Dias Felner entrou no motel D’lirius Azuis, entre Rio de Mouro e Sintra, às 13h. Saiu às 18h, depois de uma longa e detalhada bateria de testes à suíte principal» («O teste aos motéis», Miguel Pinheiro, Sábado, n.º 326, 29.07.2010, p. 6).
      Como o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista o vocábulo «suíte», seja o quarto de hotel, seja o termo do léxico musical, sem acento agudo, temos mais de metade da população a escrever dessa forma. Faz-me lembrar o que acontece em certo jornal: dois revisores grafam sempre a palavra «míster» com acento, outros dois grafam sempre sem acento, e o quinto grafa ora de uma ora de outra forma em função de com quem está acompanhado. Um critério de conveniência... Ah, sim, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista o vocábulo aportuguesado, com acento: «míster».

[Post 3820]

«Correr as cortinas»

Imagem tirada daqui

Ao correr da pena


      Quando corremos um ferrolho ou uma cortina, como ficam a cortina ou o ferrolho — abertos ou fechados? Simples? Não para um jornalista: «À esquerda fica o quarto, amplo, o tecto estrelado, uma música a sair baixinho das colunas embutidas. Quando se correm as cortinas e levantam os estores (normalmente fechados), o efeito intimista perde-se» («Dois dias em motéis com muito sacrifício», Ricardo Dias Felner, Sábado, n.º 326, 29.07.2010, p. 84).
      Ainda recentemente vi este mesmo erro, mas não disse aqui nada. Ou seja, corri uma cortina sobre o assunto. Décima acepção do verbete «correr» no Dicionário Houaiss: «Empurrar ou puxar (algo), fazendo deslizar. Ex.: para que o sol não entrasse, correu as cortinas.» Convenho: a definição está mal redigida, pois somente pela leitura do exemplo se fica a perceber que esse movimento se faz no sentido de fechar as cortinas. É o que eu costumo dizer: os dicionários têm muito por onde melhorar. Tal como os falantes.

[Post 3819]

Ortografia: «neonatologia»

Vai melhorando


      «A Maternidade Daniel de Matos, em Coimbra, reabriu ontem a unidade de neonatologia a novos internamentos, disse Fernando Regateiro, presidente do conselho de administração dos Hospitais da Universidade de Coimbra (HUC)» («Maternidade de Coimbra retoma internamentos na Neonatologia», D. M., Diário de Notícias, 25.08.2010, p. 12).
      Pelo menos nesta, ou, melhor dizendo, pelo menos na página da Internet, não escrevem esse absurdo que é «neonatalogia», como vimos aqui. Ainda há esperança.

[Post 3818]

Léxico: «radiotelefone»

Esmerem-se


      «“Puro, Chile, é o teu céu azulado...” cantaram os 33 mineiros presos há 20 dias a quase 700 metros de profundidade. O hino chileno soou no radiotelefone quando souberam que os companheiros sobreviveram ao acidente de 5 de Agosto e que os seus familiares estão acampados à superfície» («Mineiros ignoram que resgate vai durar meses», Susana Salvador, Diário de Notícias, 25.08.2010, p. 22).
      O Dicionário Houaiss não regista, santo Deus!, o vocábulo «radiotelefone». (Caro Paulo Araujo, dê uma palavrinha a Mauro Salles.) Vejamos o que dizem outros dicionários. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora define-o assim: «Aparelho receptor na transmissão da palavra pela radiotelefonia.» Percebe-se? Não me parece. E quanto ao Dicionário Priberam da Língua Portuguesa? O verbete diz isto: «Telefone colocado num veículo e que funciona utilizando ondas radioeléctricas.» Se estiver no fundo de uma mina, já não é um radiotelefone? Passemos a fronteira. A definição do DRAE é esta: «Radioteléfono. m. Teléfono sin hilos, en el que la comunicación se establece por ondas electromagnéticas.»

[Post 3817]

Ortografia: «homem-forte»

E pode não ser forte


      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora só regista homem-bom, homem-galinha e homem-rã. Ora, homens-bons já não há; homens-galinhas só no Brasil; os homens-rãs metamorfosearam-se em mergulhadores. O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa regista homem-bom, Homem-Deus, homem-orquestra, homem-rã e homem-sanduíche. De vez em quando, porém, vai-se insinuando, por enquanto ainda apenas nos jornais, outro homem composto: «Uma corrida contra o tempo para salvar vidas, num ambiente aterrador, exigiu serenidade ao homem-forte das operações de socorro do distrito» («“As equipas que intervêm têm de ter alguma frieza nestas situações”», Joana Capucho, Diário de Notícias, 25.08.2010, p. 5). E justifica-se o hífen neste caso? Não configura um sentido diferente da simples adjunção dos vocábulos «homem» e «forte»? Como entre «braço-direito» e «braço direito». Está aí a resposta.

[Post 3816]

A regência de «preferir»

Desprestigiante


      «Hesitante, prefere antes falar em romeno do que em francês» («Ciganos repatriados mantêm sonhos francês», Isabelle Wesselingh, Diário de Notícias, 20.08.2010, p. 25).
      Que trapalhada, na verdade! O verbo preferir, e já aqui abordei diversas vezes a questão, rege a preposição a e não a construção do que, e o advérbio antes é pedido por outra construção. Este é, contudo, um erro já com fortes raízes. Outro exemplo da mesma edição deste jornal: «Legítima pretensão, mas Franco não tinha grande apreço pelo ramo da família de Carlos Hugo, preferindo antes a linhagem de D. Juan de Borbón» («Espanha perde o príncipe que disputou o trono com o Rei», Diário de Notícias, 20.08.2010, p. 49). Em relação ao primeiro excerto, porém, a questão é ainda outra. Isabelle Wesselingh é uma jornalista francesa, da agência France-Presse (AFP), e não escreveu o artigo em português. Alguém o traduziu, e traduziu com erros daquele jaez. A acompanhar a autoria, devia aparecer sempre o nome de quem fez a tradução.

[Post 3815]

Ortografia: «mal-amanhado»

Sem revisor, não será fácil


      «Ao que se diz, Passos Coelho mora em Massamá. O facto pertence à mesma família de uma fotografia de José Sócrates, adolescente e com fato mal amanhado» («Peúgas, fatos e moradas», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 23.08.2010, p. 52).
      Mal antes de vogal e h, caro Ferreira Fernandes, pede sempre hífen: mal-amanhado como mal-amado. E mal-afeiçoado como mal-afortunado. Mal-agradecido como mal-ajambrado... Pecadilho facilmente desculpável em quem tão bom português nos dá diariamente, mas não deixa de ser um atentado à ortografia. Esperamos agora a devida e cristã resipiscência.

[Post 3814]

Léxico: «desbridar»

Aqui não há cavalos


      O mais provável, quando lemos a palavra «desbridar», se descontextualizada, é pensarmos em brida, a correia que se liga ao freio ou bridão dos cavalos. Esta é outra acepção, de uso científico, e, o que não é o mais habitual, dicionarizada: «Nestas situações, o procedimento é sempre o mesmo — mas pode variar entre horas e dias. “Primeiro é preciso desbridar, ou seja, tirar os tecidos mortos, e depois começar a reconstruir o possível”, explica o especialista [João Anacleto] à SÁBADO» («Doutor, dei um tiro no pé», Vera Moura, Sábado, n.º 329, 19.08.2010, p. 80). Também em inglês existe o verbo debride (e o substantivo debridement, «desbridamento»), que deriva, como o português, do verbo francês débrider, com o mesmo significado.

[Post 3813]

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