Tradução: «paper»

Aos papéis


      Uma personagem, professor universitário, tinha uma determinada teoria, que não posso identificar, e «once wrote a paper». Para o tradutor, este paper é uma dissertação. Ora, esta é apenas uma das correspondências possíveis, mas decerto que não a adequada no contexto. Terá escrito um ensaio, talvez uma monografia.

[Post 3804]

Tradução

E não bate bem da cabeça


      Lembram-se da rapariguinha de ontem? Sim, aquela que coxeia. Tem mais problemas — pelo menos na tradução. «Ela sacudiu a cabeça em negação», leio de duas em duas páginas. São, então, problemas de cabeça. Também se lembrarão do anacronismo na última obra de Moita Flores, espero, e da fase de negação. Pois aqui não é nada disso, porque o original diz isto: «She shook his head.» Isto também é divertido. E trágico, pois.

[Post 3803]

Acordo Ortográfico

Mais desortografias


      Os meus leitores não dormem: às 4.42, avisavam-me de que no sítio do Expresso estava — num título! — esta preciosidade: «Maré negra: México e Washington vão avaliar juntos o impato ambiental». O Gabinete de Copydesk do Expresso tem a máquina de tirar consoantes desafinada. Entretanto, o sítio foi «atualizado» às 6.22 e os olhos de lince míope do revisor não viram nada. Com bojardas destas, mais do que de um Gabinete de Copydesk, estão a precisar de um Gabinete de Crise. É como diz o meu leitor: divirta-se, que isto é só o começo. É o que estou a fazer.

[Post 3802]

«To order»

Bela encomenda


      O jornalista Jorge Fiel está de férias nos Estados Unidos, motivo mais do que suficiente para confundir um pouco as línguas: «Nos States, o simples acto de encomendar um vulgar cheeseburger fora das cadeias globais pode ser o passaporte para uma aventura em que caímos na contingência de optar entre o cheddar, jack, swiss, blue ou american cheese» («Os militantes dos Assuntos Pendentes», Jorge Fiel, Diário de Notícias, 19.08.2010, p. 7). Antes, já se tinha baralhado nas línguas: «Ao terceiro dia, não resisti à tentação de aplicar um chuto de colesterol directo na veia e, de castigo, fui submetido a um interrogatório pelo Cliff, que não se ficou quando lhe encomendei ovos com bacon
      Logo que chegar a Lisboa, recomeça a pedir em vez de encomendar. Pelo menos é o meu desejo, mas já sei que há tradutores que fazem isto a vida inteira, decerto por não terem tempo de ler depois de revistos os livros que traduzem.

[Post 3801]

Regência verbal

Caem e recaem


      «Se a paixão recai por modalidades náuticas, como vela ou canoagem, então existe um investimento que pode incluir material e inscrição num clube para a prática destes desportos» («Praticar desporto no meio da natureza», Catarina Vasques Rito, Diário de Notícias, 19.08.2010, p. 44).
      Não sei em que país vivem estes jornalistas que trocam ou não apanham no ar as regências verbais e nominais. Diz-se recair em ou recair sobre.

[Post 3800]

Verbo

Arrojos estivais


      «Uma baleia-anã, em avançado estado de decomposição, arrojou ontem à tarde na praia de Faro. De acordo com o biólogo marinho Élio Vicente, o animal morreu há pelo menos seis dias e não será possível saber o que aconteceu» («Baleia-anã morta há seis dias deu à costa na praia de Faro», Miguel Ferreira, Diário de Notícias, 19.08.2010, p. 13).
       Que baleia-anã intransitiva é esta? Há-de ter sido mais o mar que arrojou a baleia à costa. É pena o mesmo mar não ter arrojado gramáticas para a praia em dia que o jornalista lá estivesse.

[Post 3799]

Léxico: «condition»

Claudica


      A rapariga «developed a particular way of walking to accommodate her condition». Andava com o auxílio de uma muleta. A história está no princípio, pelo que não sei porque está assim. O tradutor assegura que ela «desenvolvera uma forma particular de andar para acomodar a sua condição». Ainda recentemente aqui falámos deste «condition» e de como deve traduzir-se. E aquele «accommodate»... Hum... Vamos ajustar isto. Que acham os meus leitores?

[Post 3798]

Léxico: «chocalheiro»

Um trabalho sério


      «Aos 75 anos, António Ferreira da Costa é o último dos chocalheiros dos Açores. As folhas de chapa de latão custam-lhe 25 euros no mercado e dão para fazer 15 chocalhos, que vende a 20 euros (vacas) e a dez (cabras). Cada chocalho demora duas horas a fazer» («Último chocalheiro vive em Angra do Heroísmo», Correio da Manhã, 17.08.2010, p. 21).
      Bem, talvez já não valha a pena os dicionários da língua portuguesa registarem a acepção. Este atraso é atávico. Fiquem apenas com os intriguistas, os mexeriqueiros.

[Post 3797]

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