Sobre «resignação»

Não me resigno


      «“Quando um bispo chega aos 75 anos, segundo o direito canónico, deve pedir a resignação. A partir daí inicia-se um processo de substituição organizado pela Nunciatura Apostólica”, explica Manuel Morujão, porta-voz da Conferência Episcopal» («Oito bispos diocesanos vão apresentar a sua resignação», Público, 16.08.2010, p. 6).
      Bem, o certo é que a versão em português do Código de Direito Canónico não usa o termo «resignação», mas «renúncia». Recordo ao Sr. P. Manuel Morujão o Cânone 401 § 1: «O Bispo diocesano, que tiver completado setenta e cinco anos de idade, é solicitado a apresentar a renúncia do ofício ao Sumo Pontífice, que, ponderando todas as circunstâncias, tomará providências.» Se estivermos a falar em inglês, então sim, dizemos que o bispo «is requested to present his resignation». No caso, vale mais recordar a versão latina do código, o Codex iuris canonici, que diz que o bispo «rogatur ut renuntiationem». É um refrigério ler em latim, tanto mais que a versão portuguesa está mal pontuada.

[Post 3796]

Sobre «conceção»/«concepção»

Desortografias


      «Leio, por exemplo, na pág. 20 do último número do J/L, Jornal de Letras, Artes e Ideias, de 11 a 24.8.10, que “para a autora é essa uma das principais linhas da sua conceção de poema (…)”. A culpa da “conceção” não é evidentemente do autor do texto, mas da redacção do jornal. O J/L pertence ao grupo Impresa e este resolveu adoptar as pseudo regras dessa enormidade que dá pelo nome de Acordo Ortográfico» (‘Silly season’ e ‘silly country’», Vasco Graça Moura, Diário de Notícias, 18.08.2010, p. 50).
      E por falar de desortografia, muito se descuidou o colunista ao escrever «pseudo regras». Estilhaçaram-se os telhados de vidro. Continuemos: «Se isto já envolve o recurso ao mais aberrante dos instrumentos utilizáveis, no caso de “conceção” as coisas vão ainda mais longe e entram patentemente no domínio da “desortografia”. É que os dicionários brasileiros não registam “conceção”. Registam, normalissimamente, “concepção”. Não há qualquer dúvida. Consultei o Michaelis e o Aurélio. Nada. Ainda admiti que os volumes em suporte de papel estivessem desactualizados. Fui à Internet consultar as versões on line. Nada…» (idem, ibidem). Aqui, francamente, não percebo. Se na norma brasileira da língua portuguesa se articula o p de «concepção», como queria que o não grafassem? Peguemos num exemplo ao contrário. Acaso os dicionários brasileiros grafam o c de «facto»?
      Não sou defensor deste acordo ortográfico que entrou agora em vigor, mas sim da coerência e da sensatez. Já aqui falei do caso de «espetadores», vocábulo com que Vasco Graça Moura exemplifica, dizendo-o «alvoroçadamente cunhado pelo Expresso», o descalabro ortográfico, donde colijo que também é adepto de uma ortografia ao gosto e medida de cada um. Ora, tal é inadmissível.
      Para terminar, não percebo porque é que se há-de grafar a abreviatura de «Jornal de Letras, Artes e Ideias» com barra, J/L. Tão incorrecto como escrever C/M para «Correio da Manhã», D/N para «Diário de Notícias», J/N para «Jornal de Notícias», etc.

[Post 3795]

Léxico: «desforradeira»

Mais uma lacuna


      Qualquer bombeirito conhece a palavra «desforradeira», pois designa um instrumento de trabalho no combate aos incêndios. E o leitor também há-de ter uma ideia. Está a ver aquelas hastes compridas terminadas em forma de gancho achatado? São as desforradeiras, que servem para abrir espaços nos tectos de construções de madeira. E desforrar não é retirar o forro, o revestimento, o tecto? Então, está explicado, só não se explica a ausência deste vocábulo de todos os dicionários.

[Post 3794]

Como se escreve nos jornais

Opiniões


      No início do blogue, afirmei que nunca iria ocupar-me de gralhas, o que mantenho. Com milhares de erros e questões linguísticas problemáticas, não me parece que tenha jamais de descer tanto. O intróito serve para prevenir que, embora alguém repute como gralha o que a seguir transcrevo, não o considero tal.
      «Vera Jardim, um militante histórico e um dos melhores ministros da Justiça que o País esteve, passa por ter uma “provecta idade” e, por isso, fazer opções “estranhas”» («O velho e o novo PS», Eduardo Dâmaso, Correio da Manhã, 17.08.2010, p. 2). Reparem que é o editorial, assinado pelo director adjunto.
      Já conhecíamos o verbo *tar da oralidade, mas num texto jornalístico não é menos que imperdoável. Os «meios aéreos» (que não defendi, e muito menos a estulta quantificação que lemos e ouvimos todos os dias), comparados com isto, não são nada que mereça perdermos a cabeça. Confundir teve (pretérito perfeito do indicativo do verbo ter) com esteve (pretérito perfeito do indicativo do verbo estar) é que me parece gravíssimo. E pergunto-me, naturalmente, se também neste jornal os revisores são prevenidos para não bulirem muito com os textos das chefias e colunistas. Nada de explícito, formal, apenas um aviso sussurrado por um colega mais velho — e sem espinha dorsal.

[Post 3793]

Topónimos

Semianalfabetos


      «A zona mais atingida pela intempérie foi o noroeste do Paquistão, habitual palco de combates entre forças do exército e a guerrilha talibã. Mas também as regiões de Punjab e Sind, no Sul, foram muito afectadas» («Um quarto do Paquistão foi atingido pelas cheias», Pedro Correia, Diário de Notícias, 16.08.2010, p. 23). «A Organização das Nações Unidas (ONU) alertou ontem para o risco de seis milhões de pessoas no Paquistão poderem vir a ser contaminadas com doenças potencialmente fatais na sequência das cheias que deixaram completamente submersas as planícies do rio Indo na populosa província do Punjab e nas regiões vizinhas de Sindh e Baluchistão — que ontem estavam ameaçadas por mais chuvas e inundações» («Seis milhões em risco de contrair doenças contagiosas no Paquistão», Rita Siza, Público, 17.08.2010, p. 11).
      No caso, a diferença não é muito grande: Sind ou Sindh. Contudo, em boa parte da má imprensa pôde ler-se, ao longo da semana, «rio Indus» — bem conhecido dos leitores anglo-saxónicos.

[Post 3792]

«Meios aéreos»

Imagem tirada daqui

Mais lambras


      «Em plena época de incêndios», escreve-me um leitor, «gostaria de o ver tratar no seu blogue de uma questão que me levanta as mais sérias dúvidas: a dos famigerados “meios aéreos”. Todos os dias se lê e ouve dizer coisas do tipo: “O incêndio foi combatido por x bombeiros e y meios aéreos” e isto causa-me erisipela. Será só a mim?»
      Não é, pelo menos se essa inflamação for causada pela quantificação dos «meios aéreos». A locução não terá, tenho quase a certeza, nascido da cabeça dos Portugueses: foi importada de França, não já pelo paquete do Havre, mas por moyens aériens. Claro que antes dos aéreos tínhamos somente os moyens de combat, locução referente à guerra. Com o advento da aviação, esses meios passaram a ser também aéreos e não meramente terrestres e navais. A determinada altura, os termos passaram a ser usados, pela similitude, para o combate aos incêndios — e não chamamos aos bombeiros «soldados da paz»? Por um princípio de economia, passámos a referir-nos elipticamente aos «meios aéreos».

[Post 3791]

Nomes pátrios, étnicos ou gentílicos

Mais uma sapatada


      Que nome têm os naturais e os residentes em Caxemira? Não são muitos os dicionários a registá-lo, mas os que o fazem dizem que são os Caxemirenses. Alguma imprensa portuguesa, porém, prefere copiar a forma inglesa: «O homem falhou o alvo e o líder caxemire [Omar Abdullah] prosseguiu o seu discurso após uma breve pausa» («Líder da Caxemira alvo de sapato», P. V, Diário de Notícias, 16.08.2010, p. 23).

[Post 3790]

«Estar a ser presente a tribunal»

Do Cáucaso


      Ser presente a tribunal, esse rebarbativo dizer do jargão jurídico, já é suficientemente mau, mas os jornalistas têm artes de o piorar. Ora vejam: «O alegado violador de 30 anos estava ontem a ser presente a primeiro interrogatório judicial, no Tribunal Judicial da Amadora, para saber a medida de coacção a que ficará submetido» («Violador em série foragido foi detido pela PJ», Rute Coelho, Diário de Notícias, 14.08.2010, p. 20). E quanto às vítimas, pode dizer-se alguma coisa? Só com um anglicismo: «Das três vítimas registadas pela PJ só uma é de etnia africana, as outras são caucasianas» (idem, ibidem).

[Post 3789]

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