Brasileirismo: «vidrado»

Escrita envidraçada


      «Sobre o perfil do turista russo vidrado neste tipo de cruzeiros, [Tatyana] Petrova garantiu que se trata de “um cliente exigente, viajado, de cultura média/alta e com poder de compra”» («Já há russos nos navios-hotel da Douro Azul», Rui Neves, Jornal de Negócios, 4.08.2010, p. 9).
      Alguns dicionários registam este brasileirismo, de uso informal. Só o conhecia da oralidade, mas, à semelhança do verbo «virar» na acepção de «tornar-se», parece estar a ganhar terreno. Uso informal por uso informal, preferia usar «doido por; maluco por». Com os olhos vidrados fico eu ao ver a falta de vocabulário dos jornalistas de hoje em dia.

[Post 3764]

Hífen

Ideias pouco firmes

      Poucos aspectos na escrita são menos estáveis e arbitrários como o uso da maiúscula. Veja-se este caso. «Todos os meios operacionais disponíveis foram mobilizados e, no hospital militar de Penteli, na área metropolitana de Atenas, os doentes foram transferidos por precaução, tendo as autoridades anunciado que vários navios da guarda-costeira estavam prontos a participar em operações de evacuação» («Mar de chamas ameaça Atenas», Paulo Madeira, Correio da Manhã, 24.08.2009, p. 28). «Chegam hoje a Lisboa os nove luso-espanhóis, três adultos e seis crianças, que foram resgatados na tarde de anteontem pela guarda costeira turca, depois de o iate em que viajavam ter pegado fogo e afundado, no mar Mediterrâneo» («Portugueses salvos de iate em chamas», Helder Almeida, Correio da Manhã, 30.07.2010, p. 18). «A tripulação de um helicóptero da Guarda Costeira britânica chamada a investigar um barco à deriva junto à costa de Gales deparou com uma cena, no mínimo, inusitada: 10 homens todos nus, de garrafas de álcool na mão e em evidente estado de embriaguez, a tentar pescar qualquer coisa» («Barco à deriva com homens nus», Correio da Manhã, 4.08.2010, p. 32).
      É certo e sabido: se se trata da britânica ou da norte-americana, os jornalistas (e isto passa-se também noutros jornais) acham que lhes quadra inequivocamente a maiúscula; se se trata de outros países, já pensam que não merece mais que a minúscula. Ideias pouco firmes, falta de critério, é o que é. E temos aqui, já viram, outra inconsistência: ora «guarda-costeira» ora «guarda costeira». Ora, já aqui vimos que se deve reservar a palavra composta para designar o elemento que integra essas forças: guarda-fiscal, guarda-florestal, guarda-marinha, guarda-nocturno, guarda-republicano, guarda-vermelho, etc.

[Post 3763]

Pronúncia

O caso da Portugal Telecom


      Contou-me ontem o revisor antibrasileiro que há uns anos ouviu alguém na rádio insurgir-se contra quem pronuncia a palavra «telecom» como «telécome». Até aqui, nada de novo. O argumento, contudo, soa a algo novo. Como o presidente da Portugal Telecom, na altura Luís Todo Bom, era um dos que pronunciavam assim a palavra, o comentador (fosse lá quem fosse) ainda se indignava mais e dizia que, a ser assim, o nome do presidente se devia pronunciar «Todo Bóme». Demasiado simplório? Talvez não. Em 1997, escreveu José Neves Henriques sobre a mesma questão no Ciberdúvidas: «Não se diz “telécome”, do mesmo modo que ninguém diz “bómbóme”, de bombom, pronunciando o m [/bombõ/] final. Do mesmo modo procederemos perante Telecom. A última sílaba pronuncia-se como a preposição com. Embora provenha do truncamento (ou partição) de Telecomunicações/ção, é, para todos os efeitos de pronúncia, uma palavra normal e independente como qualquer outra.»

[Post 3762]

Particípios passados de verbos abundantes

Uma língua em erosão


      «Três cavalos atravessaram ontem a cidade de Faro. Os animais ter-se-ão solto de um acampamento instalado no terreno para onde está projetada [sic] a Cidade Universitária de Faro e percorreram a capital algarvia» («Cavalos à solta lançaram caos na cidade», Diário de Notícias, 4.08.2010, p. 21).
      Os verbos abundantes, já aqui o lembrei meia dúzia de vezes, nas formas do particípio passado apresentam uma forma reduzida ou irregular (absorto, solto, disperso) a par da forma regular que termina em -ado ou -ido (absorvido, soltado, dispersado). A regra geral, que sofre diariamente machadadas por quem mais consciência devia ter, indica que a forma regular se utiliza na constituição de tempos compostos da voz activa juntamente com os auxiliares ter ou haver. A forma irregular ou reduzida ocorre acompanhada do verbo auxiliar ser ou estar e é usada na formação da voz passiva. Será difícil reter esta informação?

[Post 3761]

Títulos nos jornais

Particípios e infinitivos


      Num título da edição de ontem do Correio da Manhã, lia-se: «Despesa oculta com pareceres». Mas é claro que devia ser «ocultada», e não faltava espaço para a forma correcta do particípio passado duplo. Lê-se a notícia e o que se fica a saber é que o Estado oculta, esconde as despesas com pareceres que encomenda (mais um truque). E reparem no título da notícia que refiro no texto anterior: «Corpos das vítimas do ‘rei Ghob’ em risco de nunca ser encontrados». O autor do título, muitas vezes um editor, esqueceu-se de proceder às necessárias alterações da frase do corpo do artigo, esse sim correcto: «Os corpos das alegadas três vítimas de Francisco Leitão poderão nunca ser encontrados caso tenham sido esquartejados e colocados em contentores de lixo.»

[Post 3760]

Como se escreve nos jornais

De bom a mau


      Eu tinha defendido aqui que «devia ser Unidade de Contraterrorismo ou Unidade contra o Terrorismo, porventura melhor português. E ainda melhor: Unidade de Combate ao Terrorismo». Devia ser, mas não é. Os jornalistas, porém, parecem não saber (ou, se lhes parece e fazem questão, «parece não saberem»): «Os corpos das alegadas três vítimas de Francisco Leitão poderão nunca ser encontrados caso tenham sido esquartejados e colocados em contentores de lixo. Este é um cenário que os investigadores da Unidade Nacional contra o Terrorismo, da Polícia Judiciária (PJ), equacionaram» («Corpos das vítimas do ‘rei Ghob’ em risco de nunca ser encontrados», Luís Fontes, Diário de Notícias, 4.08.2010, p. 18). Quando, nos tempos áureos do Diário de Notícias, cada texto era visto por cinco pessoas — autor, editor, dois revisores (um lia em voz alta, o outro seguia o texto) e um passador —, seria menos provável este erro passar em claro.

[Post 3759]

Usa das maiúsculas

Decidam-se


      «Para além [sic] disso, os britânicos e franceses lembravam-se dos seus 2 400 000 soldados mortos e dos 5 200 000 feridos na Primeira Guerra Mundial» (A Segunda Guerra Mundial, Gerhard Schreiber. Tradução de Luís Covas e revisão de Eda Lyra e Texto Editores. Alfragide: Texto Editores, 2010, p. 15). «Numa palavra, o Führer encenou uma confusão para tentar ainda dividir a aliança entre Britânicos, Franceses e Polacos» (idem, ibidem, p. 28). «Para poupar “sangue”, os alemães tinham feito pressão no sentido de uma rápida intervenção dos soviéticos» (idem, ibidem, p. 33). «Globalmente, Britânicos e Americanos, que apostavam na protecção através da navegação em comboio e no bloqueio marítimo, venceram a batalha naval sobretudo graças ao aperfeiçoamento de inovações tecnológicas como o radar e o sonar, ao domínio dos ares, à sua possante indústria de construção naval, bem como à eficaz decifração das comunicações via rádio inimigas» (idem, ibidem, p. 47).
      E assim até ao fim da obra, mas acho que os leitores já perceberam: não têm, tradutor e revisora (e mais esta, que, numa repartição da culpa, tem 75 %), uma ideia muito definida sobre a questão, pelo que foram ensaiando alternativas, e o leitor que se amole.

[Post 3758]

Sobre «Estado-membro»

Um dia explicam-nos


      «A seguir à Holanda, o próximo Estado membro da NATO a retirar-se de território afegão poderá ser o Canadá. O seu Governo anunciou a saída para 2011, mas ainda não precisou a data. Os EUA já fizeram saber que iniciarão a retirada dentro de um ano» («Holanda inaugura retirada da NATO do Afeganistão», Patrícia Viegas, Diário de Notícias, 2.08.2010, p. 21).
      Parece que há uma teoria, partilhada secretamente por vários jornalistas e revisores, de que, se se tratar de um Estado que faz parte da União Europeia, se escreve «Estado-membro»; se se tratar de uma organização diferente, como a NATO (e a sigla OTAN foi quase completamente esquecida), já é «Estado membro». Completa, absoluta e irredimivelmente ridículo.

[Post 3757]

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