Pontuação

Olá, gramática


      «O que trouxe para terreiro uma categoria de nacionalidade desconhecida — até agora não havia senão franceses, franceses (incluindo o filho de imigrante húngaro que chega a Presidente). Já Chávez absteve-se dos seus longos monólogos televisionados (no programa semanal Aló Presidente), mas encontrou uma fórmula melhor para chamar atenção. Depois de dias desaparecido, telefonou para a televisão pública VTV dizendo que lhe dá “tristeza e dor passar quatro, cinco e seis horas revendo planos de guerra.”» («Sarkozy e Chávez vão para a guerra», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 2.08.2010, p. 52).
      Está bem, o corpo, mais maciço que marcial, de Hugo Chávez oculta a vírgula, mas ela é necessária, como em português, para isolar o vocativo: «Aló, Presidente». Se escribe coma para separar un vocativo del resto de la oración, prescrevem todas as gramáticas de espanhol.

[Post 3756]

«Ascendência»/«descendência»

Lamentável erro


      Hans Castorp está na sala de refeições das sete mesas quando alguém bate estrepitosamente, ao entrar, com a porta envidraçada da esquerda. Hans fica quase apopléctico. Fica a saber que foi uma tal Madame Chauchat que assim acabara de entrar. Quer saber se é francesa. «“Nein, sie ist Russin”, sagte die Engelhart. “Vielleicht ist der Mann Franzose oder französischer Abkunft, das weiß ich nicht sicher.”» A tradutora portuguesa verteu assim: «— Não, russa — respondeu a menina Engelhart. — Talvez o marido seja francês ou de descendência francesa, não tenho a certeza» (A Montanha Mágica, Thomas Mann. Tradução de Gilda Lopes Encarnação e revisão de Clara Boléo. Lisboa: Dom Quixote, 2009, 2.ª ed., p. 94).
      É incompreensível como um erro deste calibre — que já aqui vimos diversas vezes, sobretudo em traduções do inglês — escape a duas pessoas, e não quaisquer duas pessoas, mas uma tradutora e uma revisora.

[Post 3755]


Tradução: «mostrenco»

Frades e mouros


      Não podemos esperar que todos os vocábulos se encontrem num dicionário, e menos ainda se esse dicionário é bilingue. Ainda assim, não deixei de estranhar que no Dicionário Espanhol-Português, da Porto Editora, a última edição e única que interessa, não registe uma acepção (e acepção, não entrada) de «mostrenco». Assim, se quisermos saber o que são bienes mostrencos, teremos de recorrer a outra fonte. O DRAE define-os assim: «Der. bienes inmuebles vacantes o sin dueño conocido que por ley pertenecen al Estado.» Mostrenco é corruptela de mestenco, adjectivo caído em desuso que designava o que não tem dono ou amo conhecido. Mestenco, por sua vez, provém de mesta (e este de mixta, particípio passado do verbo latino miscēre, «misturar»), que era o nome que se dava ao agregado ou reunião dos donos de gado que cuidavam da sua criação e pasto e vendiam para o comum abastecimento. Só que também aquele «mesta» não foi contemplado no Dicionário Espanhol-Português, da Porto Editora. Em muitas localidades, aqueles bienes mostrencos passavam para a propriedade dos conventos trinitários e mercedários, que os convertiam em dinheiro usado depois na redenção de cristãos em poder dos mouros.

[Post 3754]

Léxico: «senhoriagem»

Não maçaria nada


      «O jornal The Wall Street Journal dedicou um artigo a notas. E dedicou-se logo às maiores, de 500 euros. De 2007 para cá, desde a pré-crise, as notas de euro em circulação cresceram 11%, mas as de 500 cresceram 26%... O artigo explica que o aumento de notas de 500 ajudou a fortalecer o sistema financeiro da Zona Euro (tem a ver com uma coisa que se chama seigniorage, privilégio que têm os bancos centrais, com a qual não vos maço) mas também preocupa as autoridades policiais» («O ruir de uma lenda antiga», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 1.08.2010, p. 68).
      Não maçaria nada — só nos maçou o estrangeirismo. Ora abra aí, caro Ferreira Fernandes, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora (2009) na página 1448. Pois é: eis senhoriagem: «1. Direito que se pagava em reconhecimento de um senhorio, como o que um monarca percebia pela cunhagem da moeda; 2. diferença entre o valor real e o nominal da moeda.» Não faltam, por essa Internet fora, exemplos de uso de «senhoragem», mas, com excepção do Dicionário Aulete Digital, os dicionários ignoram tal variante. De facto, se provém de «senhorio»... O Vocabulário da Língua Portuguesa de Rebelo Gonçalves regista somente (na página 928) «senhoriagem».

[Post 3753]

Sobre «churrullero»

Charlas etimológicas


      Quando pretendemos traduzir a palavra castelhana churrullero (e com ela qualifica Cervantes alguns poetas), não podemos lançar mão de outra que não «charlatão», como já li? Bem, até o DRAE faz corresponder os vocábulos, embora previna que se refere à acepção «o que fala muito e sem substância». Curiosamente, ambos foram, em determinada altura, italianismos por poucos compreendidos na língua castelhana. O DRAE também indica, não o oculto, que churrullero provém do italiano Cerriglio, que era o nome de uma estalagem em Nápoles. Passou para o castelhano como chorrillo, e daí churrullero ou chorrillero. No tempo de Cervantes, churrullero significava o soldado desertor que se dedicava à ladroagem e à má vida. Tudo visto e simplificando, churrullero é o soldado, e, por extensão, qualquer pessoa, que não cumpre com os seus compromissos. Charlatão também é, como comecei por afirmar, um italianismo: provém de ciarlatano, que ainda hoje existe (ao contrário do equivalente de churrullero). Na raiz da palavra estará ciarlare (agora, «parlare tanto, senza riflettere e di cose insignificanti»), «contar histórias». E na origem desta estará até o nome de Carlos Magno. Daqui virá a nossa charla, de bom sabor vetusto e clássico (usada, por exemplo, pelo P. Raul Machado para designar as suas palestras televisivas sobre a língua portuguesa, em 1957). Mas isso já é recuar muito. Como espero que não seja avançar muito propor, em vez de «charlatão», «relapso». Sugiram os leitores.

[Post 3752]

Léxico: «ultramaratonista»

Além de


      «Mas, por uma vez, recebem a visita de alguns dos melhores ultramaratonistas norte-americanos para um duelo memorável» («Nascemos para correr e a inacção está a matar-nos», Luís Francisco, P2/Público, 27.07.2010, p. 4).
      Os dicionários ainda não registam o termo ultramaratonista (nem ultramaratona), mas era conveniente que passassem a fazê-lo, pois entretanto vai sendo grafada, maioritariamente, de duas formas diferentes e erradas: *ultra maratonista e *ultra-maratonista.

[Post 3751]

Verbos pronominais

Parece que o ouviram


      «A procuradora Cândida Almeida decidiu pelo arquivamento dos autos relativos a corrupção activa e passiva, tráfico de influência, branqueamento de capitais e financiamento ilegal de partidos políticos» («MP arquiva crime de corrupção», Manuela Teixeira/Janete Frazão/Rui Pando Gomes, Correio da Manhã, 28.07.2010, p. 28).
      O revisor antibrasileiro iria rejubilar com esta construção — mas está errada, como ainda recentemente aqui dissemos. Correcto seria «decidiu-se pelo arquivamento».

[Post 3750]

Alcunhas

O problema de sempre


      «As suspeitas são dirigidas a um homem de alcunha ‘Teorias’, de 47 anos, que anteontem esteve perto de ser linchado por alguns populares na praia da Fonte da Telha, Almada» («“Obrigava-os a masturbá-lo”», João Tavares, Correio da Manhã, 30.07.2010, p. 11).
      «Os encarnados obtiveram o passe do médio, conhecido no Brasil com a alcunha de ‘queniano’, no defeso da época passada, por 7,5 milhões de euros, mas venderam 50 por cento a um grupo de empresários, entre os quais o anglo-iraniano, [sic] Kia Joorobchian» («Ramires. Chelsea dá 20 milhões», António Pereira, Correio da Manhã, 22.07.2010, p. 34).
      Se o nome substitui o nome, se por vezes até se junta, legalmente, ao nome, como é que se pode escrever com minúscula inicial? Mais uma prova da falta de atenção e reflexão de editores, jornalistas e revisores.

[Post 3749]

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