Léxico: «senhoriagem»

Não maçaria nada


      «O jornal The Wall Street Journal dedicou um artigo a notas. E dedicou-se logo às maiores, de 500 euros. De 2007 para cá, desde a pré-crise, as notas de euro em circulação cresceram 11%, mas as de 500 cresceram 26%... O artigo explica que o aumento de notas de 500 ajudou a fortalecer o sistema financeiro da Zona Euro (tem a ver com uma coisa que se chama seigniorage, privilégio que têm os bancos centrais, com a qual não vos maço) mas também preocupa as autoridades policiais» («O ruir de uma lenda antiga», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 1.08.2010, p. 68).
      Não maçaria nada — só nos maçou o estrangeirismo. Ora abra aí, caro Ferreira Fernandes, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora (2009) na página 1448. Pois é: eis senhoriagem: «1. Direito que se pagava em reconhecimento de um senhorio, como o que um monarca percebia pela cunhagem da moeda; 2. diferença entre o valor real e o nominal da moeda.» Não faltam, por essa Internet fora, exemplos de uso de «senhoragem», mas, com excepção do Dicionário Aulete Digital, os dicionários ignoram tal variante. De facto, se provém de «senhorio»... O Vocabulário da Língua Portuguesa de Rebelo Gonçalves regista somente (na página 928) «senhoriagem».

[Post 3753]

Sobre «churrullero»

Charlas etimológicas


      Quando pretendemos traduzir a palavra castelhana churrullero (e com ela qualifica Cervantes alguns poetas), não podemos lançar mão de outra que não «charlatão», como já li? Bem, até o DRAE faz corresponder os vocábulos, embora previna que se refere à acepção «o que fala muito e sem substância». Curiosamente, ambos foram, em determinada altura, italianismos por poucos compreendidos na língua castelhana. O DRAE também indica, não o oculto, que churrullero provém do italiano Cerriglio, que era o nome de uma estalagem em Nápoles. Passou para o castelhano como chorrillo, e daí churrullero ou chorrillero. No tempo de Cervantes, churrullero significava o soldado desertor que se dedicava à ladroagem e à má vida. Tudo visto e simplificando, churrullero é o soldado, e, por extensão, qualquer pessoa, que não cumpre com os seus compromissos. Charlatão também é, como comecei por afirmar, um italianismo: provém de ciarlatano, que ainda hoje existe (ao contrário do equivalente de churrullero). Na raiz da palavra estará ciarlare (agora, «parlare tanto, senza riflettere e di cose insignificanti»), «contar histórias». E na origem desta estará até o nome de Carlos Magno. Daqui virá a nossa charla, de bom sabor vetusto e clássico (usada, por exemplo, pelo P. Raul Machado para designar as suas palestras televisivas sobre a língua portuguesa, em 1957). Mas isso já é recuar muito. Como espero que não seja avançar muito propor, em vez de «charlatão», «relapso». Sugiram os leitores.

[Post 3752]

Léxico: «ultramaratonista»

Além de


      «Mas, por uma vez, recebem a visita de alguns dos melhores ultramaratonistas norte-americanos para um duelo memorável» («Nascemos para correr e a inacção está a matar-nos», Luís Francisco, P2/Público, 27.07.2010, p. 4).
      Os dicionários ainda não registam o termo ultramaratonista (nem ultramaratona), mas era conveniente que passassem a fazê-lo, pois entretanto vai sendo grafada, maioritariamente, de duas formas diferentes e erradas: *ultra maratonista e *ultra-maratonista.

[Post 3751]

Verbos pronominais

Parece que o ouviram


      «A procuradora Cândida Almeida decidiu pelo arquivamento dos autos relativos a corrupção activa e passiva, tráfico de influência, branqueamento de capitais e financiamento ilegal de partidos políticos» («MP arquiva crime de corrupção», Manuela Teixeira/Janete Frazão/Rui Pando Gomes, Correio da Manhã, 28.07.2010, p. 28).
      O revisor antibrasileiro iria rejubilar com esta construção — mas está errada, como ainda recentemente aqui dissemos. Correcto seria «decidiu-se pelo arquivamento».

[Post 3750]

Alcunhas

O problema de sempre


      «As suspeitas são dirigidas a um homem de alcunha ‘Teorias’, de 47 anos, que anteontem esteve perto de ser linchado por alguns populares na praia da Fonte da Telha, Almada» («“Obrigava-os a masturbá-lo”», João Tavares, Correio da Manhã, 30.07.2010, p. 11).
      «Os encarnados obtiveram o passe do médio, conhecido no Brasil com a alcunha de ‘queniano’, no defeso da época passada, por 7,5 milhões de euros, mas venderam 50 por cento a um grupo de empresários, entre os quais o anglo-iraniano, [sic] Kia Joorobchian» («Ramires. Chelsea dá 20 milhões», António Pereira, Correio da Manhã, 22.07.2010, p. 34).
      Se o nome substitui o nome, se por vezes até se junta, legalmente, ao nome, como é que se pode escrever com minúscula inicial? Mais uma prova da falta de atenção e reflexão de editores, jornalistas e revisores.

[Post 3749]

Pronúncia: «ícone»

Emblema e âncora e ícone


      Na inauguração do faraónico Museu de Arte e Arqueologia do Vale do Côa, disse ontem José Sócrates: «O Museu do Côa vai ser uma âncora, naturalmente, e um emblema e um ícone para Foz Côa e para o Douro.» E como pronunciou o vocábulo «ícone»? Mal, como Paula Moura Pinheiro aqui. «I-cone»? Mas porquê?
      Mesmo quando se fala para o País, é às elites que os políticos se dirigem. Quem, da população de Foz Côa, saberá exactamente o que é aquela «âncora»? Talvez alguém faça, e bem, a analogia com o conceito, vindo directamente do inglês anchor store, de «loja-âncora», que, todavia, ainda não chegou aos dicionários.

[Post 3748]

Actualização no mesmo dia

      O sempre atento Paulo Araujo lembra-me, e bem, que esta lacuna é apenas dos dicionários publicados em Portugal, pois pelo menos três dicionários editados no Brasil registam o vocábulo loja-âncora:

No Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa:

Loja-âncora Substantivo feminino. 1. Prom. Vend. Estabelecimento de grande porte e bem conhecido, ger. uma loja de departamento, que serve como base comercial de um shopping center. [Tb. se diz apenas âncora. Pl.: lojas-âncoras e lojas-âncora.]

No Grande Dicionário Sacconi da Língua Portuguesa:

Loja-âncora s.f. (a) Loja importante e de grande porte de um shopping center, para o qual serve de base comercial, por atrair consumidores; carro-chefe de um centro comercial: a Livraria Cultura, loja-âncora do Shopping Villa-Lobos, transformou-se em ponto de encontro privilegiado de adultos e crianças da zona oeste da capital paulista. Pl.: lojas-âncoras ou lojas-âncora.

No Dicionário Aulete Digital:

Loja-âncora sf. 1. Loja de grande porte e bem conhecida que funciona como suporte comercial de um shopping center [Tb. se diz apenas âncora.] [Pl.: lojas-âncoras e lojas-âncora].

Acordo ortográfico

Infidelíssimas citações


      Lembram-se de aqui ter referido uma citação da obra de Nabokov O Original de Laura, traduzida recentemente para português? Lembrar-se-ão então que o que estava em causa eram as novas regras ortográficas relativas aos pontos cardeais. A frase, recordo, era esta: «Os toldos laranja dos verões do sul.» Põe-se, contudo, outra questão. Nesta fase transitória, será legítimo fazer-se uma citação «actualizando» (mas incorrectamente, como demonstrei) a ortografia? Na página 76 do referido livro (O Original de Laura, Vladimir Nabokov. Tradução de Telma Costa e revisão de Miguel Martins Rodrigues. Lisboa: Editorial Teorema, 2010), o que se lê é isto: «Os toldos laranja dos Verões do Sul.» Não nos dão as aspas a segurança de que se cita fielmente? Veio o Acordo Ortográfico de 1990, ou a sua aplicação, o que não é o mesmo, acabar também com esta certeza? Nas publicações periódicas não há ninguém a pensar nestas questões?

[Post 3747]

Solecismos dos políticos

Falam os políticos


      Pedro Passos Coelho na Antena 1, ontem, sobre o desfecho do caso Freeport: «Apenas digo, nesta altura, que é deplorável que em Portugal se demorem tantos anos a conduzir investigações sobre matérias desta natureza.»
      Manuela Cunha, primeira subscritora de um requerimento a pedir a classificação da linha e dirigente do Partido Ecologista «Os Verdes», sobre a construção da barragem do Foz Tua: «Se a lei neste país for cumprida, não poderão haver obras na área da linha do Tua até ser tomada uma decisão relativa à classificação ou não da linha. […] E, a partir desse momento, não podem haver obras.»

[Post 3746]

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