Léxico: «palhaça»

Outra lacuna


      «Ver as palhaças é um bom motivo para uma visita a esta terra [Santana, Madeira]. Palhaças são as casas cobertas de colmo, de duas águas, sobre estruturas de madeira» («A ilha renascida», Francisco Mangas, «Verão»/Diário de Notícias, 23.07.2010, p. 7).
      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, nem uma palavra. O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, por sua vez, não omite o verbete: «Palhaça, s. f. Ant. Dizia-se das habitações feitas de palha.» Dizia-se e diz-se, pelo que se vê.

[Post 3717]

Léxico: «de levante»

Erros levantinos


      «A PSP de Leiria e a ASAE apreenderam roupa, CD, DVD, óculos e perfumes contrafeitos no mercado do Levante. Três feirantes foram detidos» («Leiria. Material contrafeito», Correio da Manhã, 22.07.2010, p. 12).
      O revisor antibrasileiro estava ao meu lado, pelo que lhe perguntei, como quem não quer a coisa, o que entendia da notícia e, especialmente, quanto ao local. Que tudo tinha acontecido, afirmou, no mercado de Levante, provavelmente alguma localidade, uma aldeia, de Leiria. Vê, senhor jornalista? Vê, senhora revisora? Dois erros em duas palavrinhas. Não é do, mas de; não é Levante, mas levante. A locução é de levante. Alguns dicionários registam-na, mas sem a referirem de forma explícita aos mercados. Habitualmente, nos regulamentos municipais, os mercados são classificados em permanentes ou de levante conforme disponham ou não de instalações próprias e fixas e se destinem essencial e predominantemente à venda a retalho de produtos alimentares. Dezenas de localidades têm, ainda hoje, mercados de levante. De levante porque são provisórios, se levantam. Com maiúscula inicial, Levante, é coisa bem diversa: é o conjunto dos países do Mediterrâneo Oriental (Turquia, Síria e Egipto) e Ásia Menor, como o define o Dicionário Houaiss.
      O revisor antibrasileiro não deixou de afirmar, e eu acredito, que, se tivesse sido ele a rever a notícia, não deixaria de pesquisar, pois desconhecia a locução. É a atitude certa.

[Post 3716]

«Aparentamento de listas»?

Parentes desavindos


      Que o desculpassem se era um termo jurídico, disse anteontem à noite, na Sic Notícias, Henrique Monteiro, director do semanário Expresso, mas que ele não entendia o que é «aparentamento dos partidos». E estava flanqueado por dois constitucionalistas, Bacelar Gouveia e Reis Novais. Mas estes fingiram não ter ouvido, apesar de Henrique Monteiro ter repetido a dúvida e ter assegurado que estava a falar a sério. Confesso que também não sei, mas se se citar fielmente o que parece ser a proposta do PSD, alguma luz se faz. O que se lê e ouve em todos os lados é que, no que respeita à eleição dos deputados, o PSD quer admitir «o aparentamento de listas para efeito de combinação de votos nos círculos locais». Ainda assim, não me atrevo a formular qualquer explicação. É claro que não é termo jurídico. Há-de ter sido inspiração do momento de algum porta-voz daquele partido. Se não foi, como tantas vezes é, resultado de incompreensão dos jornalistas.

[Post 3715]

Léxico: «submersível»

Avance a Marinha


      «A Procuradoria Geral da República (PGR) anunciou ontem a abertura de um inquérito para apurar se a relação pessoal entre a procuradora-adjunta, Carla Dias, e José Felizardo, que foi perito no processo dos submarinos e é presidente da INTELI, prejudicou a investigação à compra dos submersíveis ao German Submarine Consortium (GSC)» («PGR investiga relações pessoais», António Sérgio Azenha, Correio da Manhã, 21.07.2010, p. 52).
      «Adjunto», já aqui o vimos, nunca se liga por hífen a outros elementos de locuções. (O hífen deve ter caído da primeira linha, de «Procuradoria-Geral».) Mas não é disso que quero agora falar. Nem daquela inconcebível pontuação depois de «procuradora adjunta». Antes sobre o vocábulo submersível. Talvez não passe de escusado galicismo, mas vejamos o que registam os dicionários.
       Se o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora o faz equivaler a «submarino» (tal como o Dicionário Houaiss, que acrescenta que é pouco usado), já o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa define assim «submersível»: «Espécie de torpedeiro que, em caso de necessidade, pode navegar submerso.» Em francês, por exemplo, sous-marin e submergible remetem para conceitos diferentes — e, pelo que posso ver, também em português. Logo, optar por um ou por outro vocábulo não é nunca uma questão estilística.

[Post 3714]

Sobre «afectar»

São dúvidas, senhores


      «Os países que afectam uma despesa relativa mais reduzida e que obtêm um retorno educativo mais modesto, casos do Brasil, México e Chile, são os que revelam um maior atraso.»
      Duas observações: os Brasileiros, tanto quanto observo, não usam (e, consequentemente, os dicionários brasileiros não registam) esta acepção de afectar: «destinar a; atribuir a (recursos, verbas)». Mas já os meus qualificados leitores brasileiros me dirão, com outro grau de certeza, se é como suspeito. Na frase acima, temos outro problema: não será um salto muito grande passar de afectar verbas, dinheiro, meios, recursos para afectar despesas?

[Post 3713]

Exónimos e endónimos

Si eis placeret


      «Ao tratar dos nomes de cidades, línguas, grupos humanos, etc.», escreve o linguista e escritor espanhol José Antonio Millán (e eu traduzo), «convém distinguir entre a forma como se chamam a si mesmos e a forma como lhes chamam outros. Os habitantes da cidade de Londres chamam-na London, enquanto os que vivem na Alemanha se referem a ela como Deutschland. Chamamos ao primeiro termo destes exemplos exónimo, do grego ἔξω, éxō, “fora” e ὄνομα, ónoma, “nome”, e ao segundo, endónimo, de ἔνδον, éndon, “dentro”. As diferenças entre uns e outros são uma lição de História.»
      Para quem, em algumas editoras, há alguns anos decidiu que devemos optar pelos endónimos é que a lição será mais completa e exemplar. Em português, é raríssimo encontrar os termos referidos. Encontramo-los aqui, no glossário do portal do Sistema Nacional de Informação Geográfica (SNIG).

[Post 3712]

Redacção

Língua de cão


      «A questão da delimitação entre a limitação e determinação do conteúdo da propriedade pelo legislador e o conceito de expropriação será abordada adiante.» Esta consonância (e assonância) é muito desagradável, e mais ainda quando o texto não é poético, mas jurídico. Nem sempre, porém, conseguimos escapar a esta circunstância. Não é o caso da frase citada, que, além disso, também inclui o que será sempre de evitar: o uso de vocábulos contidos noutros, como em «delimitação» e «limitação». Proponho: «A limitação e determinação do conteúdo da propriedade pelo legislador e o conceito de expropriação será matéria abordada adiante.» Proponham.

[Post 3711]

Subordinada adverbial

Vírgula, em princípio


      Não é o único caso, mas vejam como uma oração subordinada adverbial, apesar de anteposta à principal, não se separa nunca, dada a estrutura que apresenta, por vírgula da subordinante: «Quando começa o jogo é que se vê quem é o favorito.»
      Bem teriam feito Celso Cunha e Lindley Cintra na Nova Gramática do Português Contemporâneo (Lisboa: Edições João Sá da Costa, pág. 645) se tivessem apresentado uma frase com a mesma estrutura para demonstrar que só em princípio se separam com vírgula. Claro que a tendência, decerto que moldada pela ignorância, é nenhuma oração subordinada adverbial, anteposta ou posposta, ser separada por vírgula, e isto mesmo em livros revistos.

[Post 3710]

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