Sobre «afectar»

São dúvidas, senhores


      «Os países que afectam uma despesa relativa mais reduzida e que obtêm um retorno educativo mais modesto, casos do Brasil, México e Chile, são os que revelam um maior atraso.»
      Duas observações: os Brasileiros, tanto quanto observo, não usam (e, consequentemente, os dicionários brasileiros não registam) esta acepção de afectar: «destinar a; atribuir a (recursos, verbas)». Mas já os meus qualificados leitores brasileiros me dirão, com outro grau de certeza, se é como suspeito. Na frase acima, temos outro problema: não será um salto muito grande passar de afectar verbas, dinheiro, meios, recursos para afectar despesas?

[Post 3713]

Exónimos e endónimos

Si eis placeret


      «Ao tratar dos nomes de cidades, línguas, grupos humanos, etc.», escreve o linguista e escritor espanhol José Antonio Millán (e eu traduzo), «convém distinguir entre a forma como se chamam a si mesmos e a forma como lhes chamam outros. Os habitantes da cidade de Londres chamam-na London, enquanto os que vivem na Alemanha se referem a ela como Deutschland. Chamamos ao primeiro termo destes exemplos exónimo, do grego ἔξω, éxō, “fora” e ὄνομα, ónoma, “nome”, e ao segundo, endónimo, de ἔνδον, éndon, “dentro”. As diferenças entre uns e outros são uma lição de História.»
      Para quem, em algumas editoras, há alguns anos decidiu que devemos optar pelos endónimos é que a lição será mais completa e exemplar. Em português, é raríssimo encontrar os termos referidos. Encontramo-los aqui, no glossário do portal do Sistema Nacional de Informação Geográfica (SNIG).

[Post 3712]

Redacção

Língua de cão


      «A questão da delimitação entre a limitação e determinação do conteúdo da propriedade pelo legislador e o conceito de expropriação será abordada adiante.» Esta consonância (e assonância) é muito desagradável, e mais ainda quando o texto não é poético, mas jurídico. Nem sempre, porém, conseguimos escapar a esta circunstância. Não é o caso da frase citada, que, além disso, também inclui o que será sempre de evitar: o uso de vocábulos contidos noutros, como em «delimitação» e «limitação». Proponho: «A limitação e determinação do conteúdo da propriedade pelo legislador e o conceito de expropriação será matéria abordada adiante.» Proponham.

[Post 3711]

Subordinada adverbial

Vírgula, em princípio


      Não é o único caso, mas vejam como uma oração subordinada adverbial, apesar de anteposta à principal, não se separa nunca, dada a estrutura que apresenta, por vírgula da subordinante: «Quando começa o jogo é que se vê quem é o favorito.»
      Bem teriam feito Celso Cunha e Lindley Cintra na Nova Gramática do Português Contemporâneo (Lisboa: Edições João Sá da Costa, pág. 645) se tivessem apresentado uma frase com a mesma estrutura para demonstrar que só em princípio se separam com vírgula. Claro que a tendência, decerto que moldada pela ignorância, é nenhuma oração subordinada adverbial, anteposta ou posposta, ser separada por vírgula, e isto mesmo em livros revistos.

[Post 3710]

Selecção vocabular

Vai passar


      «O teste à integridade do poço de petróleo no golfo do México estava ontem a aproximar-se do fim, mas nem a BP nem as autoridades norte-americanas pareciam dispostas a cantar vitória. “Estamos a sentir-nos mais confortáveis, mas o teste ainda não acabou”, disse o vice-presidente da petrolífera, Kent Wells. A pressão no interior estava a aumentar, mas não a atingir os valores esperados, devendo os peritos esticar para lá das 48 horas a duração do teste» («Poço não apresenta fugas mas teste deve continuar», Susana Salvador, Diário de Notícias, 18.07.2010, p. 32).
      O grande modismo (e má tradução do inglês), já aqui o afirmei diversas vezes, do nosso tempo. Como quase todos, porém, irá passar. E por mim nunca passa.

[Post 3709]

Ortografia: «Kaiser»

Obedeça ao estilo


      «Conta Pedro Falcão que um dia o rei foi visitar oficialmente o kaiser Guilherme II, senhor do império alemão» («Rapsódia em C», Nuno Pacheco, P2/Público, 19.07.2010, p. 3). E assim três vezes: kaiser, kaiser, kaiser. (E nisto é parecido com o mostrengo, que voou três vezes a chiar.)
      Se era para escrever como se não escreve em alemão, então o jornalista poderia ter optado pelo aportuguesamento — cáiser. Em alemão, o título e designação do imperador do Sacro Império Germânico (962–1806), da Áustria (1804–1918) e especialmente da Alemanha (1871–1918), para usar a definição do Dicionário Houaiss, é Kaiser. Sobretudo, o jornalista deveria ter seguido o que recomenda o próprio Livro de Estilo do jornal em que escreve: «Em alemão, os substantivos escrevem-se com maiúscula inicial e não fazem o plural acrescentando s.» Até a consulta do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora resolvia, no que concerne à ortografia, a questão. (Já a definição é, neste dicionário, menos informativa: «imperador da Alemanha Guilherme II, desde a sua coroação, em 1888, até 1918 (fim da Primeira Grande Guerra)».)

[Post 3708]

Léxico: «psi»

Em vez de linhas para encher


      «A BP fechou a última válvula da tampa de contenção na quinta-feira, interrompendo pela primeira vez em quase três meses a fuga de petróleo. A leitura de pressão, 41 horas depois, era de 6745 psi, abaixo dos 7500 psi que os cientistas diziam garantir que não havia qualquer fuga no poço. A pressão continuava a subir lentamente, ao ritmo de 2 psi por hora, quando o esperado seria entre 2 e 10 psi» («Poço não apresenta fugas mas teste deve continuar», Susana Salvador, Diário de Notícias, 18.07.2010, p. 32).
      Já não pedia mais, mas a jornalista tinha obrigação de explicar o significado daquela unidade — psi. Que é usada para medir a pressão, não há dúvida, percebe-se do próprio texto. Psi vem do inglês pounds per square inch, que em português é libra por polegada quadrada (lb/pol²). (Para outras grandezas físicas e suas unidades, ver aqui.)

[Post 3707]

Léxico: «lêntico»

Não vão encontrar aí


      «É que este mexilhão nunca foi encontrado em regimes lênticos (sistemas de água parados), sendo que uma das explicações passa pela alteração de habitats que as barragens e açudes provocam, afastando os salmonídeos, já que impedem a sua normal circulação nos rios. E sem hospedeiro para as larvas a espécie não tem futuro» («O mexilhão que travou uma barragem», Roberto Dores, Diário de Notícias, 18.07.2010, p. 56).
      Para não ir mais longe, nem o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa nem o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora o regista, ao contrário do Dicionário Houaiss: «diz-se de ambiente de águas paradas ou de pouca movimentação como lagos e charcos» e «que vive em tal ambiente (diz-se de organismo)».

[Post 3706]

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