Selecção vocabular

Vai passar


      «O teste à integridade do poço de petróleo no golfo do México estava ontem a aproximar-se do fim, mas nem a BP nem as autoridades norte-americanas pareciam dispostas a cantar vitória. “Estamos a sentir-nos mais confortáveis, mas o teste ainda não acabou”, disse o vice-presidente da petrolífera, Kent Wells. A pressão no interior estava a aumentar, mas não a atingir os valores esperados, devendo os peritos esticar para lá das 48 horas a duração do teste» («Poço não apresenta fugas mas teste deve continuar», Susana Salvador, Diário de Notícias, 18.07.2010, p. 32).
      O grande modismo (e má tradução do inglês), já aqui o afirmei diversas vezes, do nosso tempo. Como quase todos, porém, irá passar. E por mim nunca passa.

[Post 3709]

Ortografia: «Kaiser»

Obedeça ao estilo


      «Conta Pedro Falcão que um dia o rei foi visitar oficialmente o kaiser Guilherme II, senhor do império alemão» («Rapsódia em C», Nuno Pacheco, P2/Público, 19.07.2010, p. 3). E assim três vezes: kaiser, kaiser, kaiser. (E nisto é parecido com o mostrengo, que voou três vezes a chiar.)
      Se era para escrever como se não escreve em alemão, então o jornalista poderia ter optado pelo aportuguesamento — cáiser. Em alemão, o título e designação do imperador do Sacro Império Germânico (962–1806), da Áustria (1804–1918) e especialmente da Alemanha (1871–1918), para usar a definição do Dicionário Houaiss, é Kaiser. Sobretudo, o jornalista deveria ter seguido o que recomenda o próprio Livro de Estilo do jornal em que escreve: «Em alemão, os substantivos escrevem-se com maiúscula inicial e não fazem o plural acrescentando s.» Até a consulta do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora resolvia, no que concerne à ortografia, a questão. (Já a definição é, neste dicionário, menos informativa: «imperador da Alemanha Guilherme II, desde a sua coroação, em 1888, até 1918 (fim da Primeira Grande Guerra)».)

[Post 3708]

Léxico: «psi»

Em vez de linhas para encher


      «A BP fechou a última válvula da tampa de contenção na quinta-feira, interrompendo pela primeira vez em quase três meses a fuga de petróleo. A leitura de pressão, 41 horas depois, era de 6745 psi, abaixo dos 7500 psi que os cientistas diziam garantir que não havia qualquer fuga no poço. A pressão continuava a subir lentamente, ao ritmo de 2 psi por hora, quando o esperado seria entre 2 e 10 psi» («Poço não apresenta fugas mas teste deve continuar», Susana Salvador, Diário de Notícias, 18.07.2010, p. 32).
      Já não pedia mais, mas a jornalista tinha obrigação de explicar o significado daquela unidade — psi. Que é usada para medir a pressão, não há dúvida, percebe-se do próprio texto. Psi vem do inglês pounds per square inch, que em português é libra por polegada quadrada (lb/pol²). (Para outras grandezas físicas e suas unidades, ver aqui.)

[Post 3707]

Léxico: «lêntico»

Não vão encontrar aí


      «É que este mexilhão nunca foi encontrado em regimes lênticos (sistemas de água parados), sendo que uma das explicações passa pela alteração de habitats que as barragens e açudes provocam, afastando os salmonídeos, já que impedem a sua normal circulação nos rios. E sem hospedeiro para as larvas a espécie não tem futuro» («O mexilhão que travou uma barragem», Roberto Dores, Diário de Notícias, 18.07.2010, p. 56).
      Para não ir mais longe, nem o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa nem o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora o regista, ao contrário do Dicionário Houaiss: «diz-se de ambiente de águas paradas ou de pouca movimentação como lagos e charcos» e «que vive em tal ambiente (diz-se de organismo)».

[Post 3706]

«Acepção»/«acessão»

Parece mentira


      «Chega ao mundo com estatuto de parasita. As larvas permanecem fixas às guelras do salmão e da truta. Depois de várias metamorfoses acaba por se soltar do hospedeiro. Já é um mexilhão de rio do Norte na verdadeira acessão da palavra» («O mexilhão que travou uma barragem», Roberto Dores, Diário de Notícias, 18.07.2010, p. 56).
      Até há quem confunda (e gente que escreve), na oralidade e na escrita, «acepção» com «asserção», mas «acessão» nunca tinha visto. Qualquer dia, vamos ter mais uma variante a circular por aí, e com mais confusões: «aceção», que é a grafia segundo o Acordo Ortográfico de 1990.

[Post 3705]

Sobre «banhos»

Bons banhos


      Faz o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora muito bem em autonomizar o substantivo plural «banhos», ao contrário do Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, que o inclui no verbete «banho». Banhos, no plural, é o anúncio oficial de um casamento, também chamados proclamas, e não têm nada que ver com o étimo de «banho». Agora, vejo aqui em Cervantes que o conde mandou «echar bando por toda su armada que, so pena de la vida, volviese la niña cualquiera que la tuviese». Aquele echar bando é o mesmo que publicar um édito e o étimo de «bando» é justamente o mesmo dos nossos «banhos»: o francês ban, e este do frâncico ban.

[Post 3704]

Sobre «camarada»

Seu tongzhi duma figa!


      Em Pirescoxe, Jerónimo de Sousa (revelou-o o próprio ao jornal i) é tratado por camarada mesmo pelos não comunistas. (Condicionado pela topografia urbana da capital, o jornalista perguntou: «No seu bairro tratam-no por camarada?»)
      Vejamos agora como definem os dicionários o vocábulo camarada. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora diz, pondo tudo dentro do mesmo saco, que é o «tratamento entre militares e entre filiados de certos partidos políticos». Já o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa não funde na mesma acepção as duas definições (embora, quanto à que respeita aos militares, confunda tudo), e assegura que é a «denominação usada entre membros dos partidos de esquerda e dos sindicatos». Sim, mas que sindicatos?
      O vocábulo «camarada» (ou outro, em línguas diversas, para exprimir o mesmo, como tovarich em russo e tongzhi em chinês, por exemplo) no seu uso social como expressão de igualitarismo não se limitou à esquerda (pendente dessa dicotomia, esquerda/direita, nascida na França revolucionária), pois entre os fascistas alemães e os falangistas espanhóis era comum. Agora, até na China esta forma de tratamento está a cair em desuso. Naturalmente e à força: no fim de Maio, a autoridade municipal de transporte de Pequim divulgou uma circular em que proibia os motoristas dos autocarros de se dirigirem aos passageiros por camarada. Aos que parece, e isto é o mais importante, eram há muito os únicos a fazê-lo. Na última década, a palavra foi apropriada pela gíria dos jovens para designar, porque os dois caracteres são os mesmos, os homossexuais. Não é irónico?

[Post 3703]

Concordância

Só faltava esta


      No próximo ano, vai realizar-se um novo recenseamento da população. Vejam o que se lia no Correio da Manhã: «Censos pergunta orientação sexual». Aqui também me deve ter escapado alguma coisa. Mas é título, dei o desconto. Contudo, o jornalista, Bernardo Esteves, começa mal: «O Censos do próximo ano vai questionar pela primeira vez os portugueses sobre a sua orientação sexual, e a resposta é obrigatória.» E mais: «É obrigatório responder ao Censos, sendo a recusa punida com pagamento de coima entre 250 a 25 mil euros.» (E eu que pensava que a recusa seria punida com a coima, mas não...) Mas também Paulo Côrte-Real, da ILGA (Intervenção Lésbica, Gay, Bissexual e Transgénero), afirmou que «esta inovação do Censos poderá ser útil». Suspeito, porém, que o jornalista até a mim me poria a dizer estes disparates.
      Senhor jornalista, senhora revisora, então «censos» não é um plural? Ou pensam que se trata de vocábulo semelhante a «cosmos»? Parece-me simples: quando, em 1970, se realizaram, pela primeira vez e simultaneamente, os recenseamentos da população e da habitação, o vocábulo «censo» passou a ser usado no plural — «censos». Ora, a alteração exige mudanças na concordância, ou achavam que não? Valha-nos Deus...

[Post 3702]

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