«Acepção»/«acessão»

Parece mentira


      «Chega ao mundo com estatuto de parasita. As larvas permanecem fixas às guelras do salmão e da truta. Depois de várias metamorfoses acaba por se soltar do hospedeiro. Já é um mexilhão de rio do Norte na verdadeira acessão da palavra» («O mexilhão que travou uma barragem», Roberto Dores, Diário de Notícias, 18.07.2010, p. 56).
      Até há quem confunda (e gente que escreve), na oralidade e na escrita, «acepção» com «asserção», mas «acessão» nunca tinha visto. Qualquer dia, vamos ter mais uma variante a circular por aí, e com mais confusões: «aceção», que é a grafia segundo o Acordo Ortográfico de 1990.

[Post 3705]

Sobre «banhos»

Bons banhos


      Faz o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora muito bem em autonomizar o substantivo plural «banhos», ao contrário do Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, que o inclui no verbete «banho». Banhos, no plural, é o anúncio oficial de um casamento, também chamados proclamas, e não têm nada que ver com o étimo de «banho». Agora, vejo aqui em Cervantes que o conde mandou «echar bando por toda su armada que, so pena de la vida, volviese la niña cualquiera que la tuviese». Aquele echar bando é o mesmo que publicar um édito e o étimo de «bando» é justamente o mesmo dos nossos «banhos»: o francês ban, e este do frâncico ban.

[Post 3704]

Sobre «camarada»

Seu tongzhi duma figa!


      Em Pirescoxe, Jerónimo de Sousa (revelou-o o próprio ao jornal i) é tratado por camarada mesmo pelos não comunistas. (Condicionado pela topografia urbana da capital, o jornalista perguntou: «No seu bairro tratam-no por camarada?»)
      Vejamos agora como definem os dicionários o vocábulo camarada. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora diz, pondo tudo dentro do mesmo saco, que é o «tratamento entre militares e entre filiados de certos partidos políticos». Já o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa não funde na mesma acepção as duas definições (embora, quanto à que respeita aos militares, confunda tudo), e assegura que é a «denominação usada entre membros dos partidos de esquerda e dos sindicatos». Sim, mas que sindicatos?
      O vocábulo «camarada» (ou outro, em línguas diversas, para exprimir o mesmo, como tovarich em russo e tongzhi em chinês, por exemplo) no seu uso social como expressão de igualitarismo não se limitou à esquerda (pendente dessa dicotomia, esquerda/direita, nascida na França revolucionária), pois entre os fascistas alemães e os falangistas espanhóis era comum. Agora, até na China esta forma de tratamento está a cair em desuso. Naturalmente e à força: no fim de Maio, a autoridade municipal de transporte de Pequim divulgou uma circular em que proibia os motoristas dos autocarros de se dirigirem aos passageiros por camarada. Aos que parece, e isto é o mais importante, eram há muito os únicos a fazê-lo. Na última década, a palavra foi apropriada pela gíria dos jovens para designar, porque os dois caracteres são os mesmos, os homossexuais. Não é irónico?

[Post 3703]

Concordância

Só faltava esta


      No próximo ano, vai realizar-se um novo recenseamento da população. Vejam o que se lia no Correio da Manhã: «Censos pergunta orientação sexual». Aqui também me deve ter escapado alguma coisa. Mas é título, dei o desconto. Contudo, o jornalista, Bernardo Esteves, começa mal: «O Censos do próximo ano vai questionar pela primeira vez os portugueses sobre a sua orientação sexual, e a resposta é obrigatória.» E mais: «É obrigatório responder ao Censos, sendo a recusa punida com pagamento de coima entre 250 a 25 mil euros.» (E eu que pensava que a recusa seria punida com a coima, mas não...) Mas também Paulo Côrte-Real, da ILGA (Intervenção Lésbica, Gay, Bissexual e Transgénero), afirmou que «esta inovação do Censos poderá ser útil». Suspeito, porém, que o jornalista até a mim me poria a dizer estes disparates.
      Senhor jornalista, senhora revisora, então «censos» não é um plural? Ou pensam que se trata de vocábulo semelhante a «cosmos»? Parece-me simples: quando, em 1970, se realizaram, pela primeira vez e simultaneamente, os recenseamentos da população e da habitação, o vocábulo «censo» passou a ser usado no plural — «censos». Ora, a alteração exige mudanças na concordância, ou achavam que não? Valha-nos Deus...

[Post 3702]

Tradução: «windfall gains»

O vento o dá, o vento o leva


      Caro Luís Caetano: na edição n.º 4 da Ops!, Pedro Bingre, num texto intitulado «A bolha imobiliária: duas faces da mesma (falsa) moeda», traduz a locução inglesa windfall gains por «fortunas trazidas pelo vento», e justifica numa nota final: «Tradução livre da expressão windfall gains — ganhos económicos não resultantes de actividades económicas produtivas da parte do beneficiário. Habitualmente resultam de manipulações políticas dos mercados económicos, de modo a introduzirem uma “renda de escassez”, um acréscimo artificial entre o custo de produção e o preço de venda de um dado produto. Às tentativas de obter windfall gains a literatura económica anglo-saxónica dá o nome formal de rentseeking activities, e o nome informal de bribery.»
      Parece original, se não apenas for muito literal, mas já as Ordenações lhes chamavam cousas trazidas pelo vento. Já tenho visto a designação, mais acomodada aos nossos tempos, «ganhos passageiros».

[Post 3701]

«Perspectiva»/«prospectiva»

Um olhar neutro


      Podia perguntar-se porque é que os dicionários não registam o verbo prospectivar, que se usa, se registam perspectivar, sinónimo. Serão mesmo sinónimos? Então leiam este título, semelhante a muitos outros no uso simultâneo dos substantivos «prospectiva» e «perspectiva»: «A Universidade portuguesa: Perspectiva, situação e prospectiva» (da autoria de José Ferreira Gomes). Nestoutro, leia-se: «A propósito ainda de uma definição de termos: perspectiva e prospectiva significam a mesma coisa. Prospectiva implica em uma ação de olhar para frente, mas é de um olhar à distância não sobre o que se tem na memória, mas a de um olhar à distância sobre o que ainda não existe, o futuro. Prospectar significa então olhar de longe e, se se exagerar, pode significar até adivinhar o futuro, sinonimicamente falando.» Se a perspectiva é um olhar para o passado e a prospectiva um olhar para o futuro, como podem ser apresentados como sinónimos?

[Post 3700]

«Adquirido» por «dado adquirido»

Dormideira antiacadémica


      Aqui lê-se que «a autonomia dos estabelecimentos de ensino superior é um adquirido institucional», ali que não sei quê é um «adquirido científico», acolá que a «solidariedade é um adquirido psicossocial», no outro sítio que determinado comportamento configura uma «nova mentalidade que está ainda longe de ser um adquirido generalizado a todos os autarcas»...
      Em que parte do filme é que eu adormeci e se passou de «dado adquirido» para «adquirido»? Ou será que não querem dizer o mesmo? Que a origem é académica, disso não tenho dúvidas. E a evolução ainda não chegou aos dicionários. Afinal, até há dicionários que ainda não autonomizaram «adquirido» como adjectivo...

[Post 3699]

«A fortiori ratione»

É latim, senhores


      O mesmo incompreensível erro em três meses justifica perfeitamente uma intervenção: não se escreva *a forteriori, mas a fortiori. É o início da expressão do latim eclesiástico a fortiori ratione, que significa «por causa de uma razão mais forte», ou seja, «com muito mais razão». Fortiori é um adjectivo (fortis, e) no grau comparativo. A quem escreve *forteriori, só pergunto uma coisa: qual é então o adjectivo no grau normal? Já percebi: escrevem assim porque foi assim que viram. Recomendo então que escolham as fontes com mais critério.

[Post 3698]

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