Tradução: «windfall gains»

O vento o dá, o vento o leva


      Caro Luís Caetano: na edição n.º 4 da Ops!, Pedro Bingre, num texto intitulado «A bolha imobiliária: duas faces da mesma (falsa) moeda», traduz a locução inglesa windfall gains por «fortunas trazidas pelo vento», e justifica numa nota final: «Tradução livre da expressão windfall gains — ganhos económicos não resultantes de actividades económicas produtivas da parte do beneficiário. Habitualmente resultam de manipulações políticas dos mercados económicos, de modo a introduzirem uma “renda de escassez”, um acréscimo artificial entre o custo de produção e o preço de venda de um dado produto. Às tentativas de obter windfall gains a literatura económica anglo-saxónica dá o nome formal de rentseeking activities, e o nome informal de bribery.»
      Parece original, se não apenas for muito literal, mas já as Ordenações lhes chamavam cousas trazidas pelo vento. Já tenho visto a designação, mais acomodada aos nossos tempos, «ganhos passageiros».

[Post 3701]

«Perspectiva»/«prospectiva»

Um olhar neutro


      Podia perguntar-se porque é que os dicionários não registam o verbo prospectivar, que se usa, se registam perspectivar, sinónimo. Serão mesmo sinónimos? Então leiam este título, semelhante a muitos outros no uso simultâneo dos substantivos «prospectiva» e «perspectiva»: «A Universidade portuguesa: Perspectiva, situação e prospectiva» (da autoria de José Ferreira Gomes). Nestoutro, leia-se: «A propósito ainda de uma definição de termos: perspectiva e prospectiva significam a mesma coisa. Prospectiva implica em uma ação de olhar para frente, mas é de um olhar à distância não sobre o que se tem na memória, mas a de um olhar à distância sobre o que ainda não existe, o futuro. Prospectar significa então olhar de longe e, se se exagerar, pode significar até adivinhar o futuro, sinonimicamente falando.» Se a perspectiva é um olhar para o passado e a prospectiva um olhar para o futuro, como podem ser apresentados como sinónimos?

[Post 3700]

«Adquirido» por «dado adquirido»

Dormideira antiacadémica


      Aqui lê-se que «a autonomia dos estabelecimentos de ensino superior é um adquirido institucional», ali que não sei quê é um «adquirido científico», acolá que a «solidariedade é um adquirido psicossocial», no outro sítio que determinado comportamento configura uma «nova mentalidade que está ainda longe de ser um adquirido generalizado a todos os autarcas»...
      Em que parte do filme é que eu adormeci e se passou de «dado adquirido» para «adquirido»? Ou será que não querem dizer o mesmo? Que a origem é académica, disso não tenho dúvidas. E a evolução ainda não chegou aos dicionários. Afinal, até há dicionários que ainda não autonomizaram «adquirido» como adjectivo...

[Post 3699]

«A fortiori ratione»

É latim, senhores


      O mesmo incompreensível erro em três meses justifica perfeitamente uma intervenção: não se escreva *a forteriori, mas a fortiori. É o início da expressão do latim eclesiástico a fortiori ratione, que significa «por causa de uma razão mais forte», ou seja, «com muito mais razão». Fortiori é um adjectivo (fortis, e) no grau comparativo. A quem escreve *forteriori, só pergunto uma coisa: qual é então o adjectivo no grau normal? Já percebi: escrevem assim porque foi assim que viram. Recomendo então que escolham as fontes com mais critério.

[Post 3698]

«Como nos prepararmos...»

Agora sem dragões


      «Como nos preparar para esses novos desafios?», perguntou o ensaísta. Poderia ter perguntado de outra maneira? Sim: «Como nos prepararmos para esses novos desafios?» Hoje, até prefiro, numa frase simples introduzida por como, usar o infinitivo pessoal. Andei a estudar a questão e o meu juízo de gramaticalidade de frases com esta estrutura alterou-se. Afinal, leio frases semelhantes em autores consagrados, e as gramáticas não o proíbem. Mais: é como me parece que as pessoas falam. Há três meses, um leitor escrevia-me: «A Páscoa está aí, e com ela as férias escolares e os filmes para crianças (M6). E um deles, em exibição em variadíssimas salas, tem por título Como Treinares o teu Dragão (How to train your dragon). Pobres crianças, nem em férias as dispensam de desaprender português!»
      Digam-me apenas se dizem e escrevem a frase a), «Como nos preparar para esses novos desafios?», ou b), «Como nos prepararmos para esses novos desafios?» Está aberto o fórum.

[Post 3697]

Ortografia: «macroorganização»

Assim é


      «É neste contexto», escreveu o ensaísta, «que surge a necessidade de uma administração educativa que tenha a capacidade de orientar, gerir e desenvolver centralmente esta macro-organização.» Pois é, mas com os antepositivos macro- e micro-, e ainda segundo as regras do Acordo Ortográfico de 1945, nunca se utiliza hífen. Logo, macroorganização.

[Post 3696]

«Escola Primária»

Pobres e primários


      Talvez se recordem de aqui ter predito recentemente, a propósito da melhor tradução da locução inglesa junior school, que algum dia voltaríamos a ter a designação «escola primária»/«ensino primário». Não esperava era que fosse tão cedo. O Conselho das Escolas, um órgão consultivo do Ministério da Educação, apresentou agora, entre outras propostas, a de se voltar a usar a designação Ensino Primário.
      Semelhante também é o quase desuso, éramos ricos, decorria a veloz e próspera década de 1990, a que foi votado o vocábulo «pobre». Havia pobres, sempre houve, mas repugnava aos políticos e à classe dominante referir-se-lhes nestes termos crus. Havia, então, os «mais desfavorecidos» e, já no limite do eufemismo, os «excluídos socialmente». Desde o ano passado, porém, voltámos a ter, para bem da ordem natural, os nossos queridos pobrezinhos. O PSD até já chamou a ministra do Trabalho e Solidariedade à Assembleia da República por causa do fim do apoio às refeições nos Ateliês de Tempos Livres, e o deputado Adão e Silva denunciou que estão a tirar o pão às crianças pobres.

[Post 3695]

Sobre «brasileiro»

Peruleros, brasileiros e galegos


      Até o Dicionário Houaiss regista a acepção pejorativa de «brasileiro» que significa «emigrado, geralmente rico, que retorna do Brasil a Portugal». Como também o faz o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa: «Português que residiu no Brasil e que regressou trazendo mais ou menos haveres.» Mas não, oh espanto!, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Se isto não é andar pouco acordado, não sei que seja. Também a língua castelhana tem algo semelhante: o perulero, que é a pessoa que regressou do Peru a Espanha, e especialmente a endinheirada.
      É também preciso consultarmos o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa para comprovar que «galego», além do natural ou habitante da Galiza, é, depreciativa e informalmente, o «indivíduo que faz trabalho pesado e intenso» e também, e talvez por isso, o «homem grosseiro, malcriado ou rude», acepções que o politicamente correcto (mas linguisticamente incorrecto) Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora omite. Aqui, porém, os dicionários de galego já não acompanham tanta desfaçatez, e «galego», além da língua gémea da nossa, é somente a «persoa natural ou habitante de Galicia». Nada de masoquismos.

[Post 3694]

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