«Como nos prepararmos...»

Agora sem dragões


      «Como nos preparar para esses novos desafios?», perguntou o ensaísta. Poderia ter perguntado de outra maneira? Sim: «Como nos prepararmos para esses novos desafios?» Hoje, até prefiro, numa frase simples introduzida por como, usar o infinitivo pessoal. Andei a estudar a questão e o meu juízo de gramaticalidade de frases com esta estrutura alterou-se. Afinal, leio frases semelhantes em autores consagrados, e as gramáticas não o proíbem. Mais: é como me parece que as pessoas falam. Há três meses, um leitor escrevia-me: «A Páscoa está aí, e com ela as férias escolares e os filmes para crianças (M6). E um deles, em exibição em variadíssimas salas, tem por título Como Treinares o teu Dragão (How to train your dragon). Pobres crianças, nem em férias as dispensam de desaprender português!»
      Digam-me apenas se dizem e escrevem a frase a), «Como nos preparar para esses novos desafios?», ou b), «Como nos prepararmos para esses novos desafios?» Está aberto o fórum.

[Post 3697]

Ortografia: «macroorganização»

Assim é


      «É neste contexto», escreveu o ensaísta, «que surge a necessidade de uma administração educativa que tenha a capacidade de orientar, gerir e desenvolver centralmente esta macro-organização.» Pois é, mas com os antepositivos macro- e micro-, e ainda segundo as regras do Acordo Ortográfico de 1945, nunca se utiliza hífen. Logo, macroorganização.

[Post 3696]

«Escola Primária»

Pobres e primários


      Talvez se recordem de aqui ter predito recentemente, a propósito da melhor tradução da locução inglesa junior school, que algum dia voltaríamos a ter a designação «escola primária»/«ensino primário». Não esperava era que fosse tão cedo. O Conselho das Escolas, um órgão consultivo do Ministério da Educação, apresentou agora, entre outras propostas, a de se voltar a usar a designação Ensino Primário.
      Semelhante também é o quase desuso, éramos ricos, decorria a veloz e próspera década de 1990, a que foi votado o vocábulo «pobre». Havia pobres, sempre houve, mas repugnava aos políticos e à classe dominante referir-se-lhes nestes termos crus. Havia, então, os «mais desfavorecidos» e, já no limite do eufemismo, os «excluídos socialmente». Desde o ano passado, porém, voltámos a ter, para bem da ordem natural, os nossos queridos pobrezinhos. O PSD até já chamou a ministra do Trabalho e Solidariedade à Assembleia da República por causa do fim do apoio às refeições nos Ateliês de Tempos Livres, e o deputado Adão e Silva denunciou que estão a tirar o pão às crianças pobres.

[Post 3695]

Sobre «brasileiro»

Peruleros, brasileiros e galegos


      Até o Dicionário Houaiss regista a acepção pejorativa de «brasileiro» que significa «emigrado, geralmente rico, que retorna do Brasil a Portugal». Como também o faz o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa: «Português que residiu no Brasil e que regressou trazendo mais ou menos haveres.» Mas não, oh espanto!, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Se isto não é andar pouco acordado, não sei que seja. Também a língua castelhana tem algo semelhante: o perulero, que é a pessoa que regressou do Peru a Espanha, e especialmente a endinheirada.
      É também preciso consultarmos o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa para comprovar que «galego», além do natural ou habitante da Galiza, é, depreciativa e informalmente, o «indivíduo que faz trabalho pesado e intenso» e também, e talvez por isso, o «homem grosseiro, malcriado ou rude», acepções que o politicamente correcto (mas linguisticamente incorrecto) Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora omite. Aqui, porém, os dicionários de galego já não acompanham tanta desfaçatez, e «galego», além da língua gémea da nossa, é somente a «persoa natural ou habitante de Galicia». Nada de masoquismos.

[Post 3694]

Léxico: «mutala»

Vem de África

      «Anabela cresceu em Caála, na actual província do Huambo, mas era na zona sul de Angola, em Cuanhama, que montavam o acampamento “com as mínimas condições”. Os mínimos, ainda assim, incluíam um frigorífico. Pernoitavam numa mutala, um estrado de madeira feito em cima de uma árvore, em cujo ramo deitavam um colchão de espuma, para não fazer barulho, e à alvorada estavam prontos para a caçada» («A menina dos torneios de tiro», Sara Alves, Notícias Magazine, 11.07.2010, pp. 78-79).
      Não é vocábulo encontradiço. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora di-lo provindo do quimbundo e dá a seguinte definição: «plataforma montada nos ramos de uma árvore, para espera de animais selvagens». O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, que tantas falhas dos outros supre, não regista o vocábulo.
      O Novo Dicionário Banto do Brasil (Rio de Janeiro: Pallas Editora, 2003, p. 144), de Nei Lopes, que diz conter «mais de 250 propostas etimológicas acolhidas pelo Dicionário Houaiss», não regista o termo em verbete autónomo, mas em «mataro» diz: «Soldado (VF [Vogt & Fry]) Possivelmente, do quimbundo mutala, vigia». Contudo, a definição de «mutala» no Dicionário Houaiss é semelhante à do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora.
[Post 3693]

Verbo «reaver»

O impensável


      Isto globalmente, porque depois sempre encontramos casos de arrepiar. Como este: «O autarca de Oeiras, que ainda não foi notificado da decisão do TRL [Tribunal da Relação de Lisboa], foi absolvido do crime de abuso de poder e reaveu a posse de um terreno em Cabo Verde, que lhe tinha sido confiscado, assim como foi ordenada a devolução de bens apreendidos à ordem do processo, descontados que sejam os 197 266 euros de indemnização ao Estado que a Relação fixou, bastante menos do decidido em primeira instância, 463 mil euros» («Isaltino Morais não perde mandato», Carlos Rodrigues Lima, Diário de Notícias, 14.07.2010).
      Defectivo, irregular, o verbo reaver está para além de tudo o que é de esperar — e por isso se tem de decorar. É imperdoável que um jornalista dê tal erro.
      A terceira pessoa do singular do pretérito perfeito do verbo reaver é reouve (eu reouve, tu reouveste, ele reouve, nós reouvemos, vós reouvestes, eles reouveram).

[Post 3692]

«Extra», adjectivo variável

Aquém-fronteiras


      «Os horários normais continuam a representar mais de 90% da oferta, mas este ano o seu crescimento é modesto: cerca de 500 vagas extras» («Só 500 lugares extras nos diurnos», Pedro Sousa Tavares, Diário de Notícias, 13.07.2010, p. 2).
      Afinal, não é só em Espanha. O Diário de Notícias, inequivocamente o jornal português em que mais se reflecte (e mais, não tem «gabinete») sobre a matéria de que são feitos todos, a língua, prossegue esta prática.

[Post 3691]

Léxico: «amiguismo»

Ainda não viram


      «O também vice-presidente [d]a distrital do PSD/Porto afirmou ainda que “esta é uma imagem de marca da governação socialista que está em fim de ciclo e que dá origem a exemplos de amiguismo e compadrio político”» («Valter Lemos nega favorecimento», Diário de Notícias, 13.07.2010, p. 11).
      Se querem mesmo ler uma definição do vocábulo amiguismo — consultem um dicionário espanhol. O Diccionario de la Real Academia Española (DRAE) regista no respectivo verbete: «Tendencia y práctica de favorecer a los amigos en perjuicio del mejor derecho de terceras personas.» O Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa da Porto Editora regista o vocábulo, mas, sendo um vocabulário, não apresenta uma definição.

[Post 3690]

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