Léxico: «mutala»

Vem de África

      «Anabela cresceu em Caála, na actual província do Huambo, mas era na zona sul de Angola, em Cuanhama, que montavam o acampamento “com as mínimas condições”. Os mínimos, ainda assim, incluíam um frigorífico. Pernoitavam numa mutala, um estrado de madeira feito em cima de uma árvore, em cujo ramo deitavam um colchão de espuma, para não fazer barulho, e à alvorada estavam prontos para a caçada» («A menina dos torneios de tiro», Sara Alves, Notícias Magazine, 11.07.2010, pp. 78-79).
      Não é vocábulo encontradiço. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora di-lo provindo do quimbundo e dá a seguinte definição: «plataforma montada nos ramos de uma árvore, para espera de animais selvagens». O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, que tantas falhas dos outros supre, não regista o vocábulo.
      O Novo Dicionário Banto do Brasil (Rio de Janeiro: Pallas Editora, 2003, p. 144), de Nei Lopes, que diz conter «mais de 250 propostas etimológicas acolhidas pelo Dicionário Houaiss», não regista o termo em verbete autónomo, mas em «mataro» diz: «Soldado (VF [Vogt & Fry]) Possivelmente, do quimbundo mutala, vigia». Contudo, a definição de «mutala» no Dicionário Houaiss é semelhante à do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora.
[Post 3693]

Verbo «reaver»

O impensável


      Isto globalmente, porque depois sempre encontramos casos de arrepiar. Como este: «O autarca de Oeiras, que ainda não foi notificado da decisão do TRL [Tribunal da Relação de Lisboa], foi absolvido do crime de abuso de poder e reaveu a posse de um terreno em Cabo Verde, que lhe tinha sido confiscado, assim como foi ordenada a devolução de bens apreendidos à ordem do processo, descontados que sejam os 197 266 euros de indemnização ao Estado que a Relação fixou, bastante menos do decidido em primeira instância, 463 mil euros» («Isaltino Morais não perde mandato», Carlos Rodrigues Lima, Diário de Notícias, 14.07.2010).
      Defectivo, irregular, o verbo reaver está para além de tudo o que é de esperar — e por isso se tem de decorar. É imperdoável que um jornalista dê tal erro.
      A terceira pessoa do singular do pretérito perfeito do verbo reaver é reouve (eu reouve, tu reouveste, ele reouve, nós reouvemos, vós reouvestes, eles reouveram).

[Post 3692]

«Extra», adjectivo variável

Aquém-fronteiras


      «Os horários normais continuam a representar mais de 90% da oferta, mas este ano o seu crescimento é modesto: cerca de 500 vagas extras» («Só 500 lugares extras nos diurnos», Pedro Sousa Tavares, Diário de Notícias, 13.07.2010, p. 2).
      Afinal, não é só em Espanha. O Diário de Notícias, inequivocamente o jornal português em que mais se reflecte (e mais, não tem «gabinete») sobre a matéria de que são feitos todos, a língua, prossegue esta prática.

[Post 3691]

Léxico: «amiguismo»

Ainda não viram


      «O também vice-presidente [d]a distrital do PSD/Porto afirmou ainda que “esta é uma imagem de marca da governação socialista que está em fim de ciclo e que dá origem a exemplos de amiguismo e compadrio político”» («Valter Lemos nega favorecimento», Diário de Notícias, 13.07.2010, p. 11).
      Se querem mesmo ler uma definição do vocábulo amiguismo — consultem um dicionário espanhol. O Diccionario de la Real Academia Española (DRAE) regista no respectivo verbete: «Tendencia y práctica de favorecer a los amigos en perjuicio del mejor derecho de terceras personas.» O Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa da Porto Editora regista o vocábulo, mas, sendo um vocabulário, não apresenta uma definição.

[Post 3690]

Léxico: «esportela»

Ora esta


      Agora imaginem que era preciso traduzir «muchachos de la esportilla». Estamos no porto de Sevilha, o grande empório comercial do Sul da Europa no dealbar do século XVII. O Dicionário Houaiss não regista esportela nem mesmo esporta. Que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista. Esportela é uma pequena esporta, ou seja, uma espécie (e este está registado como regionalismo) de sacola ou seira de esparto ou junco. (Mas o Dicionário Houaiss já regista espórtula, outro diminutivo latino para o mesmíssimo cestinho. Na Roma antiga, era a cesta usada para distribuir entre o povo alimentos ou dinheiro por ordem do imperador ou de algum nobre. Começou por ser isso, que agora, por extensão de sentido, é esmola, gorjeta, gratificação, donativo em dinheiro ou género.) Os esportilleros eram uns rapazes maus, de ínfima categoria social, que nas praças e portos transportavam com os seus cestos, as suas esportelas, o que lhes mandassem. Uma espécie de recadeiros.

[Post 3689]

Sobre «enteado»

Curioso


      Para exprimirmos, só com um vocábulo, a ideia de alguém que é filho de união anterior de um dos cônjuges, em relação ao padrasto ou à madrasta, temos apenas uma palavra: enteado. A língua espanhola, em contrapartida, dispõe de três: entenado, alnado e hijastro. As duas primeiras têm o mesmo étimo de «enteado»: a expressão latina ante nātus, ou seja, «nascido antes». A mais curiosa é a última, hijastro. Deriva do vocábulo latino filiaster. Assim, bem podia fazer parte do léxico da língua portuguesa, pois «padrasto» provém de patrāster.

[Post 3688]

Léxico: «corma»

Palavras que nos faltam


      Na língua portuguesa não sei, mas em espanhol a lista dos vocábulos com origem árabe estende-se, provavelmente, a mais de quatro mil. Um deles é corma (do árabe qurmah, e este do grego κόρμος, «peça de madeira; tronco de árvore»). E que significa? Era uma espécie de prisão composta de dois pedaços de madeira, que se adaptavam ao pé do homem ou de um animal para impedir que andasse livremente. Cervantes usa-o nas suas obras.
      Temos, isso sim, vocábulos em que o termo grego entra como elemento de formação: camptocormia (deformidade que consiste na flexão do tronco para a frente) e nanocormia (anomalia de desenvolvimento caracterizada por pequenez anormal do tronco humano).

[Post 3687]

Estrangeirismos

Sem emenda


      Na Antena 1, acabo de ouvir o ministro das Finanças, Teixeira dos Santos, falar em «testes de resistência do sistema bancário». Nos jornais, escreve-se desta forma negligente: «Os “stress tests” que estão a ser feitos aos bancos portugueses indicam que o sistema bancário de Portugal é sólido, robusto e não tem problemas de capital, disse ontem o secretário de Estado do Tesouro em entrevista à agência Reuters. Carlos Costa Pina revelou que, até agora, as instituições mostram bons rácios de solvabilidade» («“Stress tests” indicam sistema sem problemas», Metro, 13.07.2010, p. 6).

[Post 3686]

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