Léxico: «esportela»

Ora esta


      Agora imaginem que era preciso traduzir «muchachos de la esportilla». Estamos no porto de Sevilha, o grande empório comercial do Sul da Europa no dealbar do século XVII. O Dicionário Houaiss não regista esportela nem mesmo esporta. Que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista. Esportela é uma pequena esporta, ou seja, uma espécie (e este está registado como regionalismo) de sacola ou seira de esparto ou junco. (Mas o Dicionário Houaiss já regista espórtula, outro diminutivo latino para o mesmíssimo cestinho. Na Roma antiga, era a cesta usada para distribuir entre o povo alimentos ou dinheiro por ordem do imperador ou de algum nobre. Começou por ser isso, que agora, por extensão de sentido, é esmola, gorjeta, gratificação, donativo em dinheiro ou género.) Os esportilleros eram uns rapazes maus, de ínfima categoria social, que nas praças e portos transportavam com os seus cestos, as suas esportelas, o que lhes mandassem. Uma espécie de recadeiros.

[Post 3689]

Sobre «enteado»

Curioso


      Para exprimirmos, só com um vocábulo, a ideia de alguém que é filho de união anterior de um dos cônjuges, em relação ao padrasto ou à madrasta, temos apenas uma palavra: enteado. A língua espanhola, em contrapartida, dispõe de três: entenado, alnado e hijastro. As duas primeiras têm o mesmo étimo de «enteado»: a expressão latina ante nātus, ou seja, «nascido antes». A mais curiosa é a última, hijastro. Deriva do vocábulo latino filiaster. Assim, bem podia fazer parte do léxico da língua portuguesa, pois «padrasto» provém de patrāster.

[Post 3688]

Léxico: «corma»

Palavras que nos faltam


      Na língua portuguesa não sei, mas em espanhol a lista dos vocábulos com origem árabe estende-se, provavelmente, a mais de quatro mil. Um deles é corma (do árabe qurmah, e este do grego κόρμος, «peça de madeira; tronco de árvore»). E que significa? Era uma espécie de prisão composta de dois pedaços de madeira, que se adaptavam ao pé do homem ou de um animal para impedir que andasse livremente. Cervantes usa-o nas suas obras.
      Temos, isso sim, vocábulos em que o termo grego entra como elemento de formação: camptocormia (deformidade que consiste na flexão do tronco para a frente) e nanocormia (anomalia de desenvolvimento caracterizada por pequenez anormal do tronco humano).

[Post 3687]

Estrangeirismos

Sem emenda


      Na Antena 1, acabo de ouvir o ministro das Finanças, Teixeira dos Santos, falar em «testes de resistência do sistema bancário». Nos jornais, escreve-se desta forma negligente: «Os “stress tests” que estão a ser feitos aos bancos portugueses indicam que o sistema bancário de Portugal é sólido, robusto e não tem problemas de capital, disse ontem o secretário de Estado do Tesouro em entrevista à agência Reuters. Carlos Costa Pina revelou que, até agora, as instituições mostram bons rácios de solvabilidade» («“Stress tests” indicam sistema sem problemas», Metro, 13.07.2010, p. 6).

[Post 3686]

Acordo Ortográfico

Desesperançado estou


      De novo os pontos cardeais, e de novo as regras do Acordo Ortográfico de 1990. Sempre houve, essa é que é essa, trapalhadas nesta matéria — mesmo em livros e publicações periódicas com revisão. Comecemos com um erro face ao Acordo Ortográfico de 1990 e de 1945: «É esse o desafio que colocamos: de Norte a Sul, incluindo ilhas, eis 10 pistas para deixar para trás as multidões, ir pelos caminhos que só encontra quem já conhece — e aproveitar a viagem!» («Portugal a descobrir», João Paulo Batalha, Única, 3.07.2010, p. 60). Não interessa agora, pois sempre foi incorrecto. Agora quanto ao que mudou. «“Nasci no dia 18 de outubro de 1925, em Chemnitz”, conta-nos, hoje, no seu apartamento nesta cidade do Leste da Alemanha» («A história do prisioneiro n.º 105.027», João Paulo Batalha, Única, 3.07.2010, p. 54). «A sul existia uma cintura de tundra e as únicas regiões permanentemente habitadas eram a Península Ibérica, a península italiana, os Balcãs, a bacia do rio Danúbio e o Sudoeste da França» («O superarqueólogo», Virgílio Azevedo, Única, 3.07.2010, p. 48).
      Como é que o Gabinete de Copydesk do Expresso deixa passar estes erros? Qual é a dificuldade de interpretação da Base XIX, 2.º, g), do Acordo Ortográfico? Ou será mais um triste caso de uso das regras à la carte, como já aqui vimos? Podem os leitores, ao menos, esperar que estes homens de gabinete (e o termo parece-me bem inadequado para uma secção ou departamento de jornal) voltem a analisar a questão?

[Post 3685]

«Quiçá», de novo

Admirável, sim


      Já foi há alguns anos, mas talvez se lembrem de aqui ter confessado que não gosto nem um pouco da palavra «quiçá». Nada mudou, mas, agora que estou a reler o D. Quixote de la Mancha na tradução de José Bento, vejo, com espanto e admiração, que este notável tradutor, em 80 ocorrências que há do vocábulo quizá no original, apenas verteu uma — uma! — por «quiçá». Outro fora, e mais de 80 encontraríamos.

[Post 3684]

«Extra» em espanhol

Além-fronteiras


      No final de Maio, a Fundéu (Fundación del Español Urgente) veio recomendar, contra um uso que se generalizou e o que alguns dicionários registam, que se «generalice el plural extras en construcciones como horas extras. Dada la tendencia a dejar invariable la palabra extra cuando funciona como adjetivo de un nombre en plural, la Fundéu BBVA, que trabaja asesorada por la Real Academia Española, recomienda que se haga el plural natural extras, tal como se hace con cualquier otro adjetivo, es decir, que se respete la concordancia de número entre el sustantivo y el adjetivo. Así, la Fundéu BBVA aclara que son aconsejables las formas horas extras, pagas extras, condiciones extras, recortes extras, etc.»

[Post 3683]

«Dar/tirar residência»

Assim me parece


      Afinal, também a tradução de José Bento, por muitos considerada a melhor do clássico espanhol, opta pela locução «prestar contas» em vez de «dar residência»: «— Senhor governador, de muito boa vontade deixaremos ir vossa mercê, embora nos custe perdê-lo, que o seu engenho e o seu procedimento cristão obrigam a desejá-lo; mas já sabe que todo o governador tem obrigação de, antes de ausentar-se do lugar onde governou, prestar contas do seu governo: dê-as vossa mercê dos dez dias que governou, e vá para a paz de Deus» (O Engenhoso D. Quixote de la Mancha, Miguel de Cervantes. Tradução e notas de José Bento e revisão de Helder Guégués. Lisboa: Relógio D’Água, 2005, p. 816). E isto apesar de, na nota inicial, o tradutor ter escrito: «Pretendi servir o livro traduzido, cingindo-me muito à sua letra, que cifra o seu espírito, o que não foi fácil nem isento de dúvidas e receios». De facto, parece-me um caminho muito perigoso, mas, se alcançado, como nesta tradução o foi, e de uma forma superiormente competente, com muito melhores resultados.

[Post 3682]

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