Acordo Ortográfico

Desesperançado estou


      De novo os pontos cardeais, e de novo as regras do Acordo Ortográfico de 1990. Sempre houve, essa é que é essa, trapalhadas nesta matéria — mesmo em livros e publicações periódicas com revisão. Comecemos com um erro face ao Acordo Ortográfico de 1990 e de 1945: «É esse o desafio que colocamos: de Norte a Sul, incluindo ilhas, eis 10 pistas para deixar para trás as multidões, ir pelos caminhos que só encontra quem já conhece — e aproveitar a viagem!» («Portugal a descobrir», João Paulo Batalha, Única, 3.07.2010, p. 60). Não interessa agora, pois sempre foi incorrecto. Agora quanto ao que mudou. «“Nasci no dia 18 de outubro de 1925, em Chemnitz”, conta-nos, hoje, no seu apartamento nesta cidade do Leste da Alemanha» («A história do prisioneiro n.º 105.027», João Paulo Batalha, Única, 3.07.2010, p. 54). «A sul existia uma cintura de tundra e as únicas regiões permanentemente habitadas eram a Península Ibérica, a península italiana, os Balcãs, a bacia do rio Danúbio e o Sudoeste da França» («O superarqueólogo», Virgílio Azevedo, Única, 3.07.2010, p. 48).
      Como é que o Gabinete de Copydesk do Expresso deixa passar estes erros? Qual é a dificuldade de interpretação da Base XIX, 2.º, g), do Acordo Ortográfico? Ou será mais um triste caso de uso das regras à la carte, como já aqui vimos? Podem os leitores, ao menos, esperar que estes homens de gabinete (e o termo parece-me bem inadequado para uma secção ou departamento de jornal) voltem a analisar a questão?

[Post 3685]

«Quiçá», de novo

Admirável, sim


      Já foi há alguns anos, mas talvez se lembrem de aqui ter confessado que não gosto nem um pouco da palavra «quiçá». Nada mudou, mas, agora que estou a reler o D. Quixote de la Mancha na tradução de José Bento, vejo, com espanto e admiração, que este notável tradutor, em 80 ocorrências que há do vocábulo quizá no original, apenas verteu uma — uma! — por «quiçá». Outro fora, e mais de 80 encontraríamos.

[Post 3684]

«Extra» em espanhol

Além-fronteiras


      No final de Maio, a Fundéu (Fundación del Español Urgente) veio recomendar, contra um uso que se generalizou e o que alguns dicionários registam, que se «generalice el plural extras en construcciones como horas extras. Dada la tendencia a dejar invariable la palabra extra cuando funciona como adjetivo de un nombre en plural, la Fundéu BBVA, que trabaja asesorada por la Real Academia Española, recomienda que se haga el plural natural extras, tal como se hace con cualquier otro adjetivo, es decir, que se respete la concordancia de número entre el sustantivo y el adjetivo. Así, la Fundéu BBVA aclara que son aconsejables las formas horas extras, pagas extras, condiciones extras, recortes extras, etc.»

[Post 3683]

«Dar/tirar residência»

Assim me parece


      Afinal, também a tradução de José Bento, por muitos considerada a melhor do clássico espanhol, opta pela locução «prestar contas» em vez de «dar residência»: «— Senhor governador, de muito boa vontade deixaremos ir vossa mercê, embora nos custe perdê-lo, que o seu engenho e o seu procedimento cristão obrigam a desejá-lo; mas já sabe que todo o governador tem obrigação de, antes de ausentar-se do lugar onde governou, prestar contas do seu governo: dê-as vossa mercê dos dez dias que governou, e vá para a paz de Deus» (O Engenhoso D. Quixote de la Mancha, Miguel de Cervantes. Tradução e notas de José Bento e revisão de Helder Guégués. Lisboa: Relógio D’Água, 2005, p. 816). E isto apesar de, na nota inicial, o tradutor ter escrito: «Pretendi servir o livro traduzido, cingindo-me muito à sua letra, que cifra o seu espírito, o que não foi fácil nem isento de dúvidas e receios». De facto, parece-me um caminho muito perigoso, mas, se alcançado, como nesta tradução o foi, e de uma forma superiormente competente, com muito melhores resultados.

[Post 3682]

Acordo Ortográfico

Pontos cardeais


      «Para os leitores devotos de Nabokov, O Original de Laura oferece os seus próprios êxtases. Surge-nos como um prolongamento, uma aparição final de um velho amigo que pensávamos ter partido para sempre. Avança aos solavancos, é um monte de cacos, mas são cacos de Nabokov e de mais ninguém: a “malévola compaixão” que os presentes na festa dedicam a uma Flora embriagada; os “cremes alheios” que Flora encontra na casa de banho de alguém (recordando a solene poça de urina alheia” depositada pelo Sr. Taxovich noutra casa de banho, em Lolita); a divertida meia rima de belie e belly [engano e barriga]; a inclusão talvez desajeitada de um pedófilo chamado Hubert H. Hubert; e uma frase perdida, evocativa, na margem do cabeçalho de uma ficha, sem qualquer contexto: “Os toldos laranja dos verões do sul.”» («O epílogo de Vladimir Nabokov», Lev Grossman, Visão n.º 904, p. 115).
      Já vi, mas não li, O Original de Laura. Não sei se já é grafado segundo as novas regras ortográficas. Se o não for, o erro é só de quem traduziu o artigo de Lev Grossman. Erro que é a prova, se é que era necessária, de que uma mera «máquina de tirar consoantes» não é suficiente para nos pôr a escrever segundo as regras do Acordo Ortográfico de 1990. Na citação, o ponto cardeal designa uma região e — vejam se aprendem de uma vez — foi empregado absolutamente. Logo, grafa-se com maiúscula. «Nos pontos cardeais ou equivalentes, quando empregados absolutamente: Nordeste, por nordeste do Brasil, Norte, por norte de Portugal, Meio-Dia, pelo sul da França ou de outros países, Ocidente, por ocidente europeu, Oriente, por oriente asiático» (Base XIX, «Das minúsculas e maiúsculas», 2.º, g)).

[Post 3681]

Sobre «gabela»

O sal da língua


      «A tributação com base em impostos indirectos que atingiam produtos básicos de consumo como o sal (gabelle), e que em França eram atribuídos a um concessionário (fermier-générale), constituiu o sinónimo histórico dos excessos e injustiças da Administração tributária.»
      Também nós temos o vocábulo gabela, mas que eu apenas conhecia (ou apenas me lembrava) na sua acepção de «feixe de espigas ceifadas», «molho de palha ou feno» (e, neste caso, mais usado na variante «gavela»). Gabela é, no contexto da frase citada, o imposto sobre o sal e, por extensão de sentido, qualquer imposto. E, se o Dicionário Houaiss assegura que a origem é controversa, os dicionários de língua francesa não hesitam em fazer derivar gabelle do provençal gabela, e este do árabe qabāla, «imposto». Ou seja, a acepção principal passou a extensão de sentido.
      (A propósito, se quiserem descarregar um Glossário da Revolução Francesa, ei-lo aqui.)

[Post 3680]

«Supertaxa» e «sobretaxa»

E então?


      «A sustentabilidade teórica das taxas progressivas não conduziu, contudo, à sua aplicação imediata. No Reino Unido, apenas no orçamento Lloyd George (1910/1911) as taxas progressivas, sob a forma de uma supertaxa e depois de uma sobretaxa, foram introduzidas, acabando com as taxas proporcionais até então vigentes.»
      Em termos linguísticos, os prefixos super- e sobre- equivalem-se, este deriva daquele. Do que pude apurar, Lloyd George introduziu a supertax no orçamento de 1909. Em 1929 (já o político galês tinha sido obrigado a demitir-se sete anos antes, na sequência do escândalo que foi ter-se descoberto que vendera títulos honoríficos aos benfeitores do seu Partido Liberal), esta supertax foi renomeada surtax. Os dicionários, naturalmente, não registam «supertaxa», precisamente pela mesma razão por que não registam, por exemplo, «superbom». Registam, sim, porque se autonomizou enquanto conceito, sobretaxa, a taxa adicional ou suplementar sobre algo já tributado. No texto que cito, será correcto falar-se de «supertaxa» e «sobretaxa»? Não dará a entender que são conceitos diferentes?

[Post 3679]

Léxico: «anverso»

Diferente mas errado


      «Contudo, o grau de complexidade da justiça na distribuição dos encargos tributários obriga-nos a proceder a uma separação, que sabemos ser discutível, entre o verso e o inverso da mesma moeda.» Nunca tinha lido tal: «verso e inverso da mesma moeda». Habitualmente, escreve-se «verso e reverso» ― mas (também) incorrectamente. Vejamos: verso é o lado oposto ao principal, e reverso também, são sinónimos. E inverso também é o lado oposto ao principal. Assim, tanto «verso e reverso» como em «verso e inverso», onde está a face principal? Não tem, querem ver. Ao verso opõe-se o anverso.

[Post 3678]

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