Como se escreve nos jornais

Abrir o bico


      Ainda as cinzas de José Saramago não arrefeceram, e já se lêem textos de um mau gosto inaudito, como este publicado ontem no Correio da Manhã: «Resta anunciar a data de inauguração do novo lugar de peregrinação. Espera-se que seja numa altura em que não haja desculpas para ausências pecaminosas. É preciso mostrar ao mundo que esta Pátria pobre, socialista, ridícula e patética é a maior na arte de fazer bicos. De pé ou de joelhos» («Festival de bicos», António Ribeiro Ferreira, Correio da Manhã, 28.06.2010, p. 56).
      Também eu, se é que isso interessa, não simpatizava muito com o escritor, mas escrever desta forma a respeito do monumento que a Câmara Municipal de Lisboa (e é de supor que não tenha sido coagida a isso) pretende erigir em frente da sede da Fundação José Saramago não me parece menos que indigno. Resta-me a, paradoxal, tendo em conta o que venho fazendo aqui desde há cinco anos, satisfação de nem 10 % dos muitos leitores do Correio da Manhã saberem que bicos, na acepção insinuada nas posições, «de pé ou de joelhos», significa o que significa.

[Post 3643]

Ortografia: «fait-divers»

Variedades


      «O candidato presidencial Fernando Nobre considerou ontem que a “colagem” da sua candidatura a Mário Soares é apenas um “fait diver” criado por quem não quer “discutir propostas sérias para o País”, recordando que não pediu qualquer apoio» («“Colagem a Mário Soares é fait diver”», Correio da Manhã, 28.06.2010, p. 36).
      Num tempo de inglesismos, os francesismos vão sendo quase completamente desconhecidos. Quase: resta, numa escrita oralizante, o que o ouvido reteve, por vezes pouco. O hífen foi-se, e só falta afeiçoar o fait: fé. Fé diver.

[Post 3642]

Tradução: «balanced meals»

Balanços


      «Em 2005, uma das grandes cruzadas empreendidas pelo célebre chef inglês Jamie Oliver foi justamente a reforma no sistema de alimentação praticado nas escolas britânicas. O objectivo propagado era precisamente o de substituir os alimentos industrializados e a comida fast food por refeições balanceadas, naturais e ricas em verdura e fibras» («A revolução de Jamie Oliver nas escolas da Inglaterra», Nysse Arruda, Diário de Notícias, 28.06.2010, p. 59).
      Nós não dizemos «refeições balanceadas», mas «equilibradas». O nome da jornalista, porém, deu-me a pista. O Dicionário Houaiss regista no verbete «balanceado»: «que tem elementos nutritivos bem equilibrados (diz-se da alimentação ou do alimento). Ex.: ração bAqui, leio que Nysse Arruda é uma «jornalista brasileira radicada em Lisboa». Das duas acepções de «radicado», é claro que foi usada a que significa «domiciliado», porque a que significa «enraizado, arraigado» não era adequada no contexto. É, adaptado, é certo, um anglicismo: balanced; well-balanced. Como em balanced diet, dieta equilibrada. É também um problema de revisão.

[Post 3641]

Acordo Ortográfico

Na redacção


      Em conversa, sempre frustrante, com outro revisor, violenta, absurda e ignorantemente contra o novo acordo ortográfico, falou-se do Correio da Manhã e da única coluna que este jornal publica segundo as novas regras ortográficas, a crónica, «Blog», de Francisco José Viegas. «O gajo é muito esperto, muito habilidoso: arranja maneira de nunca usar uma palavra que seja afectada pelas novas regras», afirmou o outro revisor. Tive de concordar que, tanto quanto eu via, mas não conheço bem esses textos, a afirmação não era excessiva, mas já quanto à habilidade tive de dizer que não me parecia tal: com um corrector ortográfico é muito fácil fazer a triagem. Agora estive a ler as últimas seis crónicas de FJV e posso afirmar que, neste conjunto de textos, apenas cinco vocábulos foram convertidos: projeto, otimismo, otimistas, hão de e perspetivas. Pequeno sacrifício, mesmo para quem fosse contra.

[Post 3640]

Sobre «ensalmo»

Com que se pretende


      Veja-se a definição de «ensalmo» nuns quantos dicionários. Os habituais. Para o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, ensalmos são «orações e benzeduras com que se pretende curar uma doença». Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, são «rezas e benzeduras para curar males ou fazer malefícios». Estão a ver a diferença? «Com que se pretende curar uma doença», diz um; «para curar uma doença», diz o outro. É claro que foi um céptico, ou alguém muito novo, a redigir o verbete do Dicionário Priberam da Língua Portuguesa. Já experimentei os efeitos — inexplicáveis, talvez, mas benéficos — de um ensalmo («Jesus, santo nome de Jesus./Credo em cruz./P’ra tudo o apliquei,/Sapo, sapão, cobra, cobralhão,/Bicho de toda a nação.») dito por uma tia de meu pai quando apanhei uma insolação de caixão à cova. Efeitos quase imediatos — sem que a ciência tivesse tempo de se opor.
      A definição mais explicativa é, mais uma vez, a do Dicionário Houaiss. Começa-se por saber que ensalmo é a «reza extraída do Livro dos Salmos e usada para curar». Por derivação, é «a prática de cura por meio de reza(s), feitiço(s) e benzedura(s)».
      O Diccionario de la Real Academia Española (DRAE) também alinha pela hodierna atitude cientificista, e define ensalmo como «modo supersticioso de curar con oraciones y aplicación empírica de varias medicinas». Oxalá o redactor do verbete nunca apanhe uma insolação.

[Post 3639]

Léxico: «palmado»

Semelhante apenas


      Lembram-se da «communauté de castors»? «De facto», disse-me então o editor, «a imagem provida pela expressão “comunidade de autoconstrutores” é mais forte e passível de desencadear mais curiosidade e discussão do que a provavelmente já conhecida “comunidade de castores”. A metáfora não ficaria mal de todo, mas pessoalmente acho mais fascinante remeter o leitor para uma cena de um grupo de índios da Meia Praia do que um facto da vida natural que, mais tarde ou mais cedo, irão ver num programa do National Geographic.»
      Na edição de ontem do Diário de Notícias, foi publicado o artigo «Os grandes construtores de barragens» (p. 68), da jornalista Mariana Correia de Barros. O início do texto é sobre a descoberta, o que eu já tinha lido noutros dois jornais há semanas, de uma represa gigantesca, com 850 metros, numa reserva do Canadá. Represa/dique/barragem (ocorrem os três vocábulos no texto) construída por castores. «Além das barragens, constroem as suas próprias tocas, “autênticas cabanas” e canais que usam para transportar os materiais mais pesados”. “Com os dentes, conseguem derrubar árvores, não só para comerem as raízes, como também para se usar os troncos na construção”» (As citações são de Nuno Leitão, engenheiro florestal.) Mas «as megaconstruções» (a palavra tinha de ser usada) «só são possíveis em países como o Canadá, onde o castor é símbolo nacional». Em Portugal, está extinto desde a Idade Média.
      A infografia, primorosa como sempre, revela dados interessantes sobre o castor. Contudo, sobre os membros, lê-se: «Os castores têm as patas traseiras palmeadas e os dedos unidos por uma membrana.» Mas palmeado, tanto quanto vejo, é o «que se acompanha com palmas». Uma dança, por exemplo. No campo da anatomia zoológica, da porção distal larga e lobada, lembrando a palma da mão aberta e com os dedos estendidos, diz-se que é palmada. Gralha, dir-se-á, mas não, apesar de também se ler que «o castor procede a concertos e amplia a toca continuamente». Não, não: para mim, a jornalista terá tido acesso a informações em língua inglês, na qual «patas palmadas» se diz «webbeb feet». Ao pesquisar, terá encontrado a tradução espanhola: «patas palmeadas». E está certo: nesta língua, palmeado é o que tem a forma de palma; e, mais especificamente, em zoologia diz-se dos dedos de alguns animais, ligados entre si por uma membrana. El castor. Mamífero roedor, de cuerpo grueso, que llega a tener 65 cm de largo, cubierto de pelo castaño muy fino, con patas cortas, pies con cinco dedos palmeados, y cola aplastada, oval y escamosa.

[Post 3638]

Léxico: «sobreparto»

Falas bem, pá


      Por vezes, é preciso ler Cervantes para conhecer melhor a nossa língua. Palavra de cunho médico, e sólida, com entrada no português no dealbar do século XVII, puerpério é vocábulo um tudo-nada rebarbativo, e, lançado assim em volta, pode provocar olhares compassivos e repassados de ignorância. Cervantes pôs uma ciganita adolescente a dizer, o que era mais verosímil, «sobreparto». «—¡Plega a Dios que no muera de sobreparto! —dijo Preciosa.» Queira Deus que não venha agora um médico estraga-prazeres (ou um medicastro estraga-albardas) dizer-nos que «puerpério» e «sobreparto» não são a mesma coisa.

[Post 3637]

Tradução: «gabacho»

Em que se fala de bócio


      «Dizem que somos como os gibões dos franciús de Belmonte: rotos e sebentos, mas cheios de dobrões», escreveu Cervantes. No nosso Belmonte também há franciús. Pelo menos vêem-se agora no Verão muitas matrículas francesas e, durante todo o ano, as estranhas vivendas que os esperam quando estiverem na «retrete». Mas esqueçamos agora a Cova da Beira.
      «Gabachos de Belmonte», está no original. Na página 94 dos Gentilicos Españoles, de Tomás de la Torre Aparicio (Madrid: Editorial Vision Net, 2007), lê-se que gabacho (e belmonteño e belmontino, mas estes não interessam ao caso) é gentílico de Belmonte, província de Cuenca. Contudo, os gabachos são de Belmonte del Tajo, na província de Madrid. Quando os caldeireiros gabachos, isto é, franceses, passavam por Belmonte de regresso a França, o marquês de Villena obrigava-os a mudar de roupa para chegarem decentemente vestidos à sua pátria. Entre as vestimentas estariam, muitas vezes, gibões, nos quais tinham ocultado, ao longo do seu trajecto por terras de Espanha, o dinheiro que iam ganhando. E o espertalhão do marquês ficava-lhes com o dinheiro. No caso, dobrões, ou seja, moedas que tinham os bustos, um em cada face, dos Reis Católicos. Doblón, dobrão, porque dobrava, duplicava, o valor do ducado.
      Gabacho era um termo pejorativo, sobretudo depois das guerras com França. Deriva do occitano gavach, «papo de ave» (o que é, como seria de esperar, mais do que controverso), referência ao bócio (difuso, no caso) de que sofriam muitos montanheses occitanos. (Sabe-se da enorme prevalência de bócio entre, por exemplo, os Suíços. Já o historiador romano Juvenal, a caminho da Gália, observara que muitos habitantes dos Alpes sofriam de guttur, bócio.)
      Na anterior edição do Dicionário de Espanhol-Português da Porto Editora, de Julio Martinez Almoyna, no verbete respectivo lia-se «francês» e não, como na última edição, coordenada por Álvaro Iriarte Sanromán, «franciú».

[Post 3636]

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