Léxico: «camisola-tipo-vestido»

Mais curto


      «Andreia criou uma página no Facebook e desatou a divulgá-la entre os amigos da rapariga. Carina, a amiga de infância que recuperara havia pouco, vestia umas legging pretas e uma camisola-tipo-vestido preta; calçava uns sapatos de salto, pretos; e trazia o cabelo, castanho, entrançado» («Corpo de Carina foi encontrado com o cinto de segurança posto», Ana Cristina Pereira, Público, 7.06.2010, p. 38).
      Gosto da solução: camisola-tipo-vestido. Claro que desconfiamos logo de que em inglês seja mais curto, mais fácil, mais sugestivo. Porque não «camisola-vestido»? Ou, porque me parece indiferente, «vestido-camisola».

[Post 3611]

Conversor ortográfico «Lince»

Depois falamos


      «É um programa informático, grátis, que tem por missão converter todos os ficheiros de texto que lhe sejam submetidos à nova grafia, sem que o utilizador tenha sequer o trabalho de perceber como e porquê. Ou seja, há uma máquina de tirar consoantes da qual o utilizador não tirará prazer nem glória mas que se presume venha substituir a tarefa de entender a utilidade do acordo» («Um lince que não precisa de ser salvo», Público, 7.06.2010, p. 38).
      Quando, um dia, o Público aplicar as regras do Acordo Ortográfico de 1990, ver-se-á que uma mera «máquina de tirar consoantes», esta ou outra, não impedirá que os seus jornalistas errem todos os dias. Apesar de tudo, o alcance das novas regras é um tudo-nada mais extenso.

[Post 3610]

«Quadra», uma acepção em desuso

Menos uma


      Habitualmente, é aos neologismos que estamos atentos e que aqui relatamos, mas também há vocábulos que vão, insensivelmente, deixando se de usar. Um deles é «quadra» na acepção de sala ou compartimento quadrado. Um dia destes, é aspado dos dicionários. «Arriete obedeceu e, em breve, Isabela estava sentada mesmo defronte do lume, com uma fatia generosa de torta, enquanto Mr. Ammer, apesar dos seus protestos, se afastava para o canto mais recuado da quadra» (Isabela, Ethel M. Dell. Tradução de Fernanda Rodrigues. Lisboa: Editorial Minerva, s/d, p. 280).
      A primeira vez, há muitos anos, que ouvi a palavra foi da boca de uma cigana, e referia-se ao espaço onde o marido acomodava as mulas e os machos. Só que, nesta acepção, é, ao que me parece, um castelhanismo.

[Post 3609]

Alta/Baixa de uma cidade

Já que fala nisso


      A leitora Joana B. pretende saber o que acho de se grafar, habitualmente, com maiúscula o vocábulo «baixa» para designar a parte baixa de uma cidade. Acho perfeito: é um topónimo, e estes são grafados com maiúscula inicial. Pena é que ainda não tenha entrado bem na cabeça de quem escreve, e particularmente dos jornalistas e tradutores. E mais: se vai sendo (com muitas, muitas excepções) habitual, vai-se esquecendo que se tem de fazer o mesmo com o antónimo: Alta. Mas vai-se vendo: «E para proteger a imagem simbólica da torre, que domina o topo da colina da Alta de Coimbra, foram colocados painéis gigantes que cobrem as quatro fachadas e que reproduzem, de forma fidedigna, a imagem do monumento» («Coimbra. A torre da Universidade como nunca a vimos antes», André Jegundo, «Cidades»/Público, 16.05.2010, p. 10). «Pocheiras e suas taças, “bucha” de iguarias várias, vinho a retalho, loureiro à porta — eis alguns traços da Rota das Tabernas de Coimbra, desde a zona de Santa Clara e Monte Arroios à Baixa e Alta da cidade, espaços de um passado remoto que, desde ontem, ganham visibilidade mediática e um novo “mapa” turístico» («27 tascas elevadas a destino cultural», Paula Carmo, Diário de Notícias, 27.02.2009, p. 28).
      Há quem pense, não duvido, que só se aplica (!) à cidade de Lisboa; outros sabem que não: «O regresso dos eléctricos à Baixa do Porto acontecerá no âmbito da Semana Europeia da Mobilidade, que se assinala entre os próximos dias 16 e 22, tendo a Sociedade de Transportes Colectivos do Porto (STCP) investido um montante entre os 700 mil e o milhão de euros para instalar os novos carris, seguindo as indicações de um estudo realizado na fase preparatória da Capital Europeia da Cultura» («Carros eléctricos regressam à Baixa do Porto durante a semana da mobilidade», Jorge Marmelo, Público, 10.09.2007, p. 18). «As figuras de Hillary Clinton e Barack Obama, em versão boneco articulado gigante, dão voltas e voltas pela Baixa de Filadélfia, acenando mecanicamente à multidão do banco de trás de um descapotável pintado com esta mensagem: “Que ganhe o melhor homem ou mulher”» («Filadélfia: buzinar por Hillary, telefonar por Obama», Rita Siza, Público, 21.4.2008, p. 16). «O proprietário de uma livraria foi assaltado, ao fim da tarde de sexta-feira, em plena Baixa da cidade de Vila Nova de Santo André, no passeio das Barcas, quando se preparava para depositar numa agência bancária o dinheiro do movimento desse dia, estimado em alguns milhares de euros» («Assalto na Baixa de Vila Nova de Santo André», Público, 21.4.2008, p. 21). «Os milhares de fãs que acorreram à Baixa de Los Angeles levaram a peito o tema de showneral anunciado desde a véspera: vestidos de luto, os que privilegiavam um sóbrio tributo, ou, os que mais investiram na vertente do show, imitando o ídolo, com óculos espelhados e casacos de couro vermelho» («Um showneral para dizer adeus a Jackson», Rita Siza, Público, 8.07.2009, p. 23). «Mais assaltos e vandalismo na Baixa de Setúbal» (Roberto Dores, Diário de Notícias, 23.03.2009, p. 20).
      Quanto aos dicionários: o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista para «baixa»: «parte baixa de uma cidade que é normalmente o centro administrativo ou comercial»; e para «alta»: «parte mais elevada da cidade». «Que é normalmente zona residencial», poderia acrescentar? O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa regista para «baixa»: «Parte mais funda duma povoação. (Neste caso com inicial maiúscula.)»; e para «alta»: «Designação vulgar da parte alta de uma povoação e das pessoas da maior categoria.» Ora, neste verbete também deveria acrescentar-se: «(Neste caso com inicial maiúscula.)» E, apesar de histórica e sociologicamente talvez se justificar, eu não misturaria numa mesma acepção os aspectos topográficos com os aspectos sociais.

[Post 3608]

Cidra/sidra

Não bebam


      «Glastonbury comemora 40 anos este ano e tem decorrido desde sempre na mesma quinta. O dono, Michael Eavis, ainda fornece todo o leite, cidra, madeira e palha para o festival» («“Ama a quinta, não deixes rasto”», J. C., Metro, 21.06.2010, p. 4).
      A palha para os festivaleiros se deitarem, a madeira para se aquecerem, o leite para se alimentarem e a cidra para curarem a ressaca? A crer no artigo, sim. Mas é uma tradução, e o que se lê no original é: «Yet even then all the milk and the cider and the straw came from the farm.» Cider! Faz lembrar a moxama. Pela etimologia, era de esperar que fosse «cidra», mas é «sidra», um homófono. A cidra é o fruto da cidreira (Citrus medica); a sidra é a bebida alcoólica obtida a partir da fermentação de maçãs. O que é que acham agora que o Sr. Eavis (ou Mr Eavis, como escreveriam muitos tradutores) dá aos frequentadores do Festival de Glastonbury?
      (Tanto o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora como o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa precisam de registar o substantivo «festivaleiro».)

[Post 3607]

Léxico: «soalhento»

Apostem neste


      «Subiu para a soalhenta saleta posta à sua disposição, e Buck seguiu-a, silencioso» (Isabela, Ethel M. Dell. Tradução de Fernanda Rodrigues. Lisboa: Editorial Minerva, s/d, p. 130).
      Agora os dicionários nem sequer registam o adjectivo soalhento, mas o Grande Dicionário da Língua Portuguesa, coordenado por José Pedro Machado, ainda o fazia. E onde param soalheirento e soalhoso, também registados naquele dicionário? Extraviaram-se. Deve ser por tão poucos estarem disponíveis que jornalistas e tradutores erram tanto — lançando-se nos braços do nobre «solarengo».

[Post 3606]

Elemento de formação «anti-»

Mais um golpe


      «O paradeiro de [Nicola] Schiavone era desconhecido desde que, em Dezembro, a Direcção Anti-Máfia de Nápoles ordenou a sua detenção» («Detido suposto líder dos Casalesi, importante clã da máfia napolitana», Cláudia Sobral, Público, 16.06.2010, p. 21).
      Pode crer que está errado, cara Cláudia Sobral — e sem justificação alguma, pois até em italiano é aglutinado: Direzione Distrettuale Antimafia. Então o elemento de formação anti- não se aglutina com o elemento seguinte, excepto quando este tem vida própria e começa por h, i, r ou s, separando-se, neste caso, por hífen? Simples, simples, mas vão errando.

[Post 3605]

Léxico: «chino»

Não me convence


      «Os distúrbios registaram-se à hora do almoço, entre presos de nacionalidade brasileira e outros de raça negra. “Dois dos reclusos envolvidos estavam a lutar com um xino [uma faca artesanal]”» («Reclusos à facada», Francisco Pedro, Correio da Manhã, 19.06.2010, p. 25).
      A grafia com x deste termo da gíria prisional não me convence. E vejo que também não convenceu um jornalista do Diário de Notícias: «No início de 2009, no Estabelecimento Prisional de Coimbra, um recluso romeno, a cumprir pena pelo homicídio de um taxista em Lisboa, teve de ser transportado ao hospital por se ter envolvido em conflito com um ou mais reclusos. O romeno sofreu cortes que terão sido desferidos com um canivete de quatro centímetros de lâmina, uma arma branca denominada na gíria prisional como “chino”» («Sindicato diz ser “pouco comum haver agressões entre reclusos”», Diário de Notícias, 6.02.2010).
      (Sobre gíria prisional no Brasil, ver este texto do sítio institucional do Ministério Público da Paraíba.)

[Post 3604]

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