Entre (os) dentes/entredentes

Fico com a do meio


      José Pedro Machado, no Grande Dicionário da Língua Portuguesa, regista «entredentes». O Dicionário Houaiss, por sua vez, regista «entre os dentes». Há, porém, uma terceira variante, provavelmente a mais usada, que fica, em termos de evolução, entre aquelas: «entre dentes». Ou seja, ter-se-á começado por dizer «entre os dentes», depois, «entre dentes» e, finalmente, por analogia com outros vocábulos, «entredentes». O que convém sempre, é claro, é não usar duas ou três formas no mesmo texto: «— Sim, pai — disse Bruno entredentes» (O Rapaz do Pijama às Riscas, John Boyne. Tradução de Cecília Faria e Olívia Santos e coordenação e revisão da tradução de Ana Maria Chaves. Alfragide: Edições Asa II, 7.ª ed., 2010, p. 102). «Bruno disse qualquer coisa entre dentes, tipo “Claro que havia”, mas não muito alto para Shmuel não ouvir» (idem, ibidem, p. 110). Outros exemplos: «Murmurei entredentes alguns lugares-comuns — Oxford, college eminente, enorme privilégio, a honra — mas ele interrompeu-me logo» (Viagem ao Fundo de Um Coração, William Boyd. Tradução de Inês Castro e revisão de texto de Maria Aida Moura. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 2008, p. 39). «— Vai-te lixar! — dizia-lhe então entredentes e atacava-lhe os tornozelos, decidido a fazer-lhe cócegas até ela se render de cansaço» (O Jardim de Cimento, Ian McEwan. Tradução de Cristina Ferreira de Almeida e revisão de Eda Lyra. Lisboa: Gradiva, 4.ª ed., 2005, p. 28). «— Adoro “lagartixas”... — murmurou o Chico entredentes» (Uma Aventura no Egipto, Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada. Lisboa: Editorial Caminho, 4.ª ed., 2008, p. 22). «— Ah, a aranha santimonial — retorquiu ela, e toda a gente se riu entre dentes, menos eu. Mrs. Woolf olhou-me de alto a baixo. — Vejo que o perturbei. Provavelmente venera-o» (Viagem ao Fundo de Um Coração, William Boyd. Tradução de Inês Castro e revisão de texto de Maria Aida Moura. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 2008, p. 100). «Pôs o pé no primeiro degrau e resmungou entre dentes: “A quinta que se foda.” Tinha sido a sua mantar quando entrava em acção desde que fugira de casa aos doze anos de idade» (Hannibal: A Origem do Mal, Thomas Harris. Tradução de Maria Dulce Guimarães da Costa e revisão de Cristina Pereira. Lisboa: Casa das Letras, 2007, p. 218).

[Post 3596]

Ortografia: «bom senso»

Ainda não é assim


      «— E matar de preocupação o seu pai e a sua mãe? — perguntou Maria. — Menino Bruno, se tiver um pingo de bom-senso, vai ficar quietinho e concentrado no estudo e a fazer o que o seu pai lhe disser. Nós só temos de nos manter a salvo até tudo isto acabar. Pelo menos é isso que eu tenciono fazer. Afinal, que mais podemos nós fazer? Não nos cabe a nós mudar as coisas» (O Rapaz do Pijama às Riscas, John Boyne. Tradução de Cecília Faria e Olívia Santos e coordenação e revisão da tradução de Ana Maria Chaves. Alfragide: Edições Asa II, 7.ª ed., 2010, p. 60).
      Boa parte dos falantes continua a crer, se é que pensam nisso, que se trata de uma unidade lexicalizada. A convicção (se o é) não é recente. «Bem, mas como o rejeitara como apaixonado, talvez decidisse mostrar mais bom-senso como mero amigo!» (Isabela, Ethel M. Dell. Tradução de Fernanda Rodrigues. Lisboa: Editorial Minerva, s/d, p. 202).
      Entretanto, em jornais e revistas, com muito menos tempo para reflexão e revisão, escreve-se correctamente: «É um documento no qual o bom senso, justiça e progresso — a declaração da liberdade de culto, por exemplo — se cruzam com medidas duras e aparentemente gratuitas como a da proibição de símbolos religiosos no exterior de qualquer edifício, mesmo privado, que não reservado ao culto, e do uso de vestes talares pelos sacerdotes no espaço público» («A religião do reino», Fernanda Câncio, Notícias Magazine, 6.06.2010, p. 16).

[Post 3595]

Ortografia: «primeiros socorros»

Nem pensar


      «Bruno observava-o à medida que ele andava pela cozinha, pegava na caixa de primeiros-socorros, enchia uma bacia com água e a experimentava com o dedo para ver se não estava muito fria» (O Rapaz do Pijama às Riscas, John Boyne. Tradução de Cecília Faria e Olívia Santos e coordenação e revisão da tradução de Ana Maria Chaves. Alfragide: Edições Asa II, 7.ª ed., 2010, p. 71).
      Não são poucas as vezes que se vê esta grafia, felizmente não dicionarizada e claramente injustificada.

[Post 3594]

Graus dos adjectivos

Isto é estranho


      Como já vi este erro, nos últimos 12 meses, pelo menos uma dúzia de vezes, creio que está na altura de falar dele.
      «— Claro que sei — disse Bruno, com um aceno, porque havia sempre muitas visitas lá em casa — homens com uniformes fantásticos, mulheres com máquinas de escrever, das quais ele tinha de manter as suas mãos sujas afastadas — e elas eram sempre muito bem educadas com o pai e diziam umas às outras que ele era um homem no qual deviam pôr-se os olhos e que o Fúria tinha grandes planos para ele» (O Rapaz do Pijama às Riscas, John Boyne. Tradução de Cecília Faria e Olívia Santos e coordenação e revisão da tradução de Ana Maria Chaves. Alfragide: Edições Asa II, 7.ª ed., 2010, p. 13).
      Acho que quem escreve assim (e são muitos) sabe que no grau normal o adjectivo é uma palavra composta por justaposição, que leva hífen. Muito bem. Mas também julga, e são tradutores e revisores, que no grau superlativo absoluto analítico deixa de ser justaposta para passar a ser uma locução. Três palavrinhas: estão muito enganados. Se é justaposta no grau normal, justaposta será em todos os graus. O que diriam, penso agora, de «bem-educadíssimo»?

[Post 3593]

Léxico: «guardaria»

Ignorada


      «Guardaria?» É a 1.ª e a 3.ª pessoas do singular do condicional do verbo guardar. Então leiam: «A segurança geral do museu [Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA)], que dirige há cinco anos, exige atenção diária e muitas vezes horários desencontrados. Todos os dias se reúne com a guardaria, ou pelo menos conferencia por telefone» («Luta contra o tempo», Frederico Carvalho, Tabu, 28.05.2010, p. 7). Em dicionário nenhum encontro o vocábulo, que, contudo, é muito usado no ambiente dos museus. Uma abonação, encontro-a no artigo 11 do Decreto-Lei n.º 55/2001, de 15 de Fevereiro: «São extintos, à medida que vagarem da base para o topo, os lugares correspondentes à carreira de secretário-recepcionista e ao grupo de pessoal de guardaria constantes dos quadros de pessoal dos museus, palácios, monumentos e sítios a que se refere o n.º 2 do artigo 1.º do presente diploma.» A partir de «guarda» facilmente se chega a «guardaria», mas não haverá aqui influência do espanhol guardería?
      Aqui, encontrei uma definição: «Guardaria: A guardaria é constituída pelo conjunto de vigilantes/recepcionistas do museu que têm como função assegurar a integridade das colecções evitando actos de vandalismo e de desrespeito por parte dos visitantes. Os vigilantes/recepcionistas são também responsáveis pelo atendimento ao público na recepção e loja do museu.»

[Post 3592]

Redução vocabular: «lipo»

Gosto


      Para quem quer fazer uma lipoaspiração, a revista Activa de Abril dava uma dica: «Exija que o procedimento seja feito por um cirurgião experiente na técnica escolhida.» Como é que este conselho se põe em prática, conseguem dizer-me? Bem, mas não é para se rirem como eu me ri que aqui trago o artigo. Trago-o pelo título: «As novas lipos» (Isabel Vidal, Activa, Abril de 2010, p. 100). Acho que só um grande grau de familiaridade com esta realidade pode levar um falante a referir-se assim à lipoaspiração. É mais uma redução vocabular. O vocábulo em si, como já aqui vimos, por vezes também oferece alguma dificuldade.

[Post 3591]

Acrónimo: Scut

Isto continua


      «CDS propõe solução que viabiliza portagens nas Scuts», lia-se num título da edição de ontem do jornal i. No artigo, de Ana Suspiro e Ana Sá Lopes, está sempre «Scut». No título e destaques está sempre incorrectamente. Ora, como acrónimo que é (auto-estradas sem custos para os utilizadores, conforme as jornalistas também explicam), não tem plural.

[Post 3590]

Ortografia: «Puntlândia»

Se temos, usemos


      «Actualmente, a Somália está fraccionada “de facto” em três Estados: a Somália propriamente dita, Somalilândia e Puntland», lia-se no texto. Se podia ser, porque não faltam topónimos não aportuguesados, a verdade é que não é. O topónimo, que surge frequentemente na imprensa, e em jornais pouco dados a esses cuidados, como o Público, a propósito dos piratas somalis, é quase sempre usado na sua forma aportuguesada: Puntlândia. Quase toda a imprensa a descreve como uma «região semi-autónoma», mas é claro que só pode ser semiautónoma. (Solução à taxista: com uma semiautomática, eu punha-os todos a escrever «semiautónoma». Esperem lá: nenhum dicionário, nem sequer o Houaiss impresso, regista o substantivo «semiautomática»; apenas como adjectivo.)

[Post 3589]

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