Tradução: «conducteur de travaux»

A língua no estaleiro


      «Charpentiers, ingénieurs, maçons, conducteurs de travaux, grutiers et couvreurs…» Como traduzir conducteurs de travaux? Responsável de obra? Demasiado amorfo, demasiado neutro. Num texto brasileiro, ao conducteur de travaux fazem corresponder a designação, que a nós não nos diz nada, de «tecnólogo». Para grutier, temos operador de grua e gruista, este ainda não registado nos dicionários gerais da língua. Para couvreur temos também tradução inequívoca: telhador (e a melhor definição é a do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora). Não é director de obra, porque, em francês, o conducteur de travaux depende daquele. Preparador de obra traduzirá bem o conceito?

[Post 3572]

Actualização em 13.06.2010

      A tradução/sugestão do leitor Francisco é a mais adequada: encarregado de obras. Ver, por exemplo, aqui.



Revisão

Uma grande aventura

      Estou a ler, porque me pediram, a obra Uma Aventura no Egipto, de Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada. Tirei algumas notas, como é meu hábito. Vejamos. Os miúdos estão a ser perseguidos por ladrões egípcios, mas Chico resolveu a situação: «Escolhera como alvo as canelas dos inimigos e acertava-lhes em cheio com a ponta da picareta» (Uma Aventura no Egipto, Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada. Lisboa: Editorial Caminho, 4.ª ed., 2008, p. 175). Pouco depois, «os homens jaziam por terra agarrados às pernas que sangravam de um furo redondo» (idem, ibidem, p. 175). Deve ser reminiscência dos desenhos animados, este furo redondo causado por uma picaretada. Pouco depois, apareceu a polícia. «O arqueólogo, que já estava pálido, ficou branco como a cal. Não lhe bastava a experiência terrível porque acabara de passar, e ainda vinham agora dizer-lhe que os homens das escavações eram membros de uma quadrilha?» (idem, ibidem, pp. 176-77) «Por que acabara de passar», deveriam ter escrito, e, indo já na 4.ª edição, é imperdoável continuar ali o erro. Enquanto o chefe da polícia tenta esclarecer tudo, ao lado acontece qualquer coisa: «Quanto ao Gaspar, retido na cama por altos febrões, desatara aos vómitos e eles ouviam os arranques aflitivos» (idem, ibidem, p. 178). «Arranques» dir-se-ia do jipe da polícia. Ânsias são arrancos. Lá que seja um livro para miúdos, não implica que se tenha de escrever como os miúdos, mas por vezes acontece: «— A acusação é muito grave — afirmou Mike franzindo o sobrolho. — Portanto agradecia que obrigasse o prisioneiro a indicar o nome da pessoa e apresentar provas de que fala verdade» (idem, ibidem, p. 180). Prisioneiros, só de guerra. E de novo a linguagem onomatopaica dos desenhos animados: «— Sou uma estúpida! Uma idiota instável, uma inconsciente... Snif... Snif...» (idem, ibidem, p. 187). «— Eu sei, eu sei que não procedi bem, mas o efeito passa ao fim de umas horas... não me prendam! Mereço castigo, mas não quero ir para a cadeia. Arranjem outro castigo qualquer, buá!» (idem, ibidem, p. 191). Uma personagem patética causou um desmoronamento... ou terá sido uma avalancha? «— Tive a triste ideia de raspar nas rochas e sem querer provoquei um desmoronamento que vos entaipou no túnel dos nichos!» (idem, ibidem, p. 192). «— Enquanto uns me batiam, os outros foram lá abaixo e viram que não podiam passar para o túnel dos nichos por causa da avalancha» (idem, ibidem, p. 192). A pontuação também claudica: «As pessoas que se espalhavam pela rua, chegaram-se quanto puderam, alguns jornalistas tomavam notas por escrito, outros tentavam captar a conversa de gravador erguido porque aquelas notícias eram sensacionais e tinham muitas pontas por onde pegar» (idem, ibidem, p. 193). «O enigma que tinham tido tanto trabalho para decifrar, era apenas brincadeira de mau gosto de uma chanfrada?» (idem, ibidem, p. 194). E confunde-se substantivos com locuções: «Incluía-se na aventura sem-cerimónia, fazia-se íntimo, sobretudo de Rosalita, a quem procurava consolar do grande desgosto de amor com elogios e promessas» (idem, ibidem, p. 196). Confunde-se a interjeição ó, reservada para uma função de invocação, da interjeição oh, que, mesmo junto de um nome, traduz sempre surpresa, desejo, repugnância, tristeza, dor, repreensão: «— Ó Chico!» (idem, ibidem, p. 198). Cada um sabe de si, mas eu não usaria o açorianismo (termo desconhecido do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora!) «toleira» (e corrigia a pontuação e tirava as aspas de «inchado» e...): «De coração leve, conversavam, riam, diziam, toleiras, um pouco “inchados” ainda por causa da aventura e do sucesso, felizes por estarem ali, radiantes por poderem gozar mais uns dias de férias que forçosamente seriam excitantes, pois as propostas eram mais que muitas» (idem, ibidem, p. 199). E agora chega, que tenho de ir tomar o pequeno-almoço.

[Post 3571]

Ainda sobre «solicitor»

Bem arreigado


      Cartas na Mesa, o episódio de anteontem de Poirot na RTP Memória. O major Despard vai visitar Anne Meredith a Wendon Cottage, Wallingford. Diz o major à frágil Anne: «Tomei a liberdade de mencionar o seu nome ao meu solicitador.» Quer dizer, a tradutora, Mafalda Eliseu, é que o faz dizer isto, porque no original o que se ouve é solicitor, isto é, advogado. Escassos minutos depois, que a visita foi curta, Despard ainda afirma: «If so you are perfectly within your rights in refusing to answer any questions Battle may ask unless your solicitor is present.» Mas na tradução: «Se assim for, está no seu direito recusar responder a qualquer pergunta sem ser na presença do seu solicitador.» Para que é que Anne Meredith ia precisar de um solicitador quando fosse ser interrogada pela polícia? A tradutora não pensou nisso.

[Post 3570]

Sobre «pop-up book»

Saltam à vista


      Estou a traduzir um livro especial. Um desses livros-objecto que servem tanto para ler como para ver. Apenas contemplar. Melhor: o que os Ingleses chamam pop-up book. Tradução? Bem, só se for de book, porque quanto a pop-up... Neste blogue, leio que *livros objecto são «livros que ao abrirem se desdobram e apresentam sucessivamente imagens em relevo narrando uma história ou várias situações». Contudo, quando penso em livros-objecto, a imagem mental não é necessariamente a de um pop-up. E vocês? É um termo intraduzível, parece-me. No caso da minha tradução, ainda por cima, há um jogo de palavras com o próprio título e o conceito.

[Post 3569]

Selecção vocabular

A palavra anelada


      «Sentei-me a uma das longas mesas comuns da biblioteca. Puxei para mim o fio anelado do candeeiro de mesa» (Perturbações Atmosféricas, Rivka Galchen. Tradução de Manuel Cintra. Queluz de Baixo: Editorial Presença, 2010, p. 66).
      Gosto do adjectivo escolhido: anelado. Semelhante a anel; que se apresenta em anéis. Qual a alternativa? «Encaracolado»?
      E a propósito de biblioteca e de candeeiro, outro termo bem adequado: «Norman Wyngold estava sentado numa poltrona de couro, junto dum candeeiro de leitura» (Isabela, Ethel M. Dell. Tradução de Fernanda Rodrigues. Lisboa: Editorial Minerva, s/d, p. 41).

[Post 3568]

Termos do direito

Revisão jurídica


      Há erros que vêm desde que se traduz e a que não escapam nem os melhores tradutores, pelo menos no início da sua actividade. Norman Wyngold é banqueiro. Fernanda Pinto Rodrigues não tem dúvidas sobre o começo de vida do magnata: «Começara a sua vida como solicitador e, por isso, o aposento estava cheio de volumes tratando de assuntos legais» (Isabela, Ethel M. Dell. Tradução de Fernanda Rodrigues. Lisboa: Editorial Minerva, s/d, p. 21). Solicitor, ou seja, advogado. E mais à frente: «— Meu amor, mas eu conto-te tudo... tudo quanto sei — prometeu Lady Varleigh, lutando com certa relutância. — Quando aqui cheguei já sabia que qualquer coisa não corria bem, pois Sir Philip ouvira certos rumores acerca do Banco. Alguém espalhara que não estava solvente... mas agora soubemos o pior: o Banco de teu pai fechou esta tarde e... aqueles homens... vinham com um... mandato de captura!» (idem, ibidem, p. 91). E para terminar ainda com uma questão relativa ao direito, um termo rarissimamente usado: «— Temo que seja essa a situação exacta — concordou o legista, fazendo uma vénia profunda. — Por outro lado, o dinheiro que passou para seu nome no dia da sua maioridade é, suponho, claramente seu, embora deva haver qualquer coisa com os direitos de transmissão. Esse dinheiro estava separado de todo o resto e não tinha relação alguma... bem... não tinha relação alguma com as infelizes transacções recentes» (idem, ibidem, p. 119).

[Post 3567]

Tradução: «checkup»

Doctor, doctor


      «— Talvez deva ir ao doutor para um exame geral» (Este Homem e Esta Mulher, James T. Farrell. Tradução de Tomaz Ribas e revisão de Correia de Pinho. Lisboa: Círculo de Leitores, 1974, p. 56).
      Exame geral para traduzir checkup (ou check-up, segundo alguns dicionários) é perfeito. O Dicionário Houaiss regista o aportuguesamento checape. O que é espantoso é que se continue a usar o anglicismo.
      Doutor por médico deve ter sido deslize do tradutor. Afinal, Tomaz Emídio Leopoldo de Carvalho Cavalcanti de Albuquerque Schiappa Pectra Sousa Ribas (1918―1999) era alentejano. No Brasil, sim, é vulgar, pelo menos na boca do povo, tratar-se o médico por doutor.

[Post 3566]

«Aquando de»

Eu evito


      «Também se lembrava do choque sofrido aquando da morte da mãe» (Este Homem e Esta Mulher, James T. Farrell. Tradução de Tomaz Ribas e revisão de Correia de Pinho. Lisboa: Círculo de Leitores, 1974, p. 51).
      Aquando de é uma locução prepositiva de que já aqui falámos. Apesar de usada por alguns, poucos, escritores, e de estar registada no Vocabulário da Língua Portuguesa de Rebelo Gonçalves, sempre que posso evito-a.

[Post 3565]

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