Acordo Ortográfico

Uns esperam, outros avançam


      Outubro de 1974. A reforma ortográfica de 1973 («Artigo único. São eliminados da ortografia oficial portuguesa os acentos circunflexos e os acentos graves com que se assinalam as sílabas subtónicas dos vocábulos derivados com o sufixo mente e com os sufixos iniciados por z.») está quase a fazer dois anos. É publicada, pelo Círculo de Leitores, a tradução (de Tomaz Ribas e revisão de Correia de Pinho) de This man and this woman, de James Thomas Farrell (1904–1979). Dois excertos: «Walt estava confortàvelmente sentado numa cadeira, acalmado pela música do aparelho de rádio» (p. 15). «Entregava-se-lhe com tanta atenção que era quase como se não estivesse ali, sentado na sala, mas sòzinho em qualquer outro lugar» (p. 21). E assim em toda a obra, e a reforma ortográfica fora mínima. Imagine-se agora com o Acordo Ortográfico de 1990. Hoje o grupo editorial Impresa começa a aplicar o acordo ortográfico, mesmo sem vocabulário comum, ao passo que o Estado vai esperar.

[Post 3564]

Sobre preposições

Não sobre, mas no


      «Então notei que ela — o simulacro — tinha rugas finas sobre o rosto. Pequenos pés-de-galinha, e não apenas quando sorria, uma vez que eu os estava a distinguir sem ela sorrir» (Perturbações Atmosféricas, Rivka Galchen. Tradução de Manuel Cintra. Queluz de Baixo: Editorial Presença, 2010, p. 47).
      Embora sobre também signifique «ao longo de; na superfície de», não é a preposição que esperamos ver no contexto. Se fosse uma teia de aranha, sim, poderia estar sobre o rosto. Rugas, pés-de-galinha, estarão no (em + o) rosto. Não me interessa saber como está no original.

[Post 3563]

Ortografia: «noz-pecã»

Ainda não chegou cá


      «Talvez estivesse a descascar nozes-pecãs» (Perturbações Atmosféricas, Rivka Galchen. Tradução de Manuel Cintra. Queluz de Baixo: Editorial Presença, 2010, p. 46).
      O Dicionário Houaiss regista noz-da-índia, noz-de-areca, noz-de-bancul, noz-de-cola, noz-do-pará, noz-moscada, noz-moscada-do-brasil e noz-vómica. Não regista noz-pecã (que, por analogia, assim se deve grafar), e compreende-se porquê: é o fruto de uma árvore (Carya illinoinensis) que existe apenas em certas áreas dos Estados Unidos da América e no México. Em inglês diz-se pecan. O Diccionario de la Real Academia Española regista pacana e dá como étimo um vocábulo nauatle, e em português há alguns vocábulos provenientes desta língua: abacate, cacau, chocolate, tomate, xícara, etc. Em uso no espanhol, porém, há mais variantes: nuez (de) pecana, nuez pacana, nuez pecán e nuez de la isla.

[Post 3562]

Sobre «varrasco»

Lexicografia e zootecnia


      «Quase metade dos porcos nascidos em Portugal são filhos de varrascos (machos para reprodução) do “maior centro” de inseminação em suínos do País, instalado em Santiago do Cacém, que produz “350 mil doses anuais” para inseminar as fêmeas» («Metade dos porcos nacionais foi criada através da inseminação artificial», Diário de Notícias, 31.5.2010, p. 14).
      Quando consultamos o respectivo verbete no Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, o primeiro obstáculo, comum a todos os dicionários que consultei, é tratar-se de um verbete cego, um verbete remissivo: remete para «varrão». O segundo obstáculo, para muitos leitores, é a definição obrigar a consultar outro verbete: «Porco inteiro para reprodução.» O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, por seu lado, tem uma definição clara: «porco não castrado próprio para a reprodução, varrasco». E o Dicionário Houaiss, finalmente: «porco escolhido para ser o reprodutor e, por isso, poupado de sofrer castração; barrão, varrasco».

[Post 3561]

Verbos trocados

Colocar, meter, pôr...


      Ainda hoje o leitor Fernando Ferreira deixava o seguinte comentário a um texto meu sobre a espúria substituição do verbo pôr pelo verbo meter: «Sobre o uso indevido do verbo “meter”, aqui vai mais um exemplo, publicado hoje (7/6/2010) na edição on-line do jornal Expresso: “A tentativa serviu para gerar um movimento a favor do casamento de pessoas do mesmo sexo: “Graças a Deus, correu bem, porque metemos toda a gente a mexer”, conta, orgulhosa.”» Um exemplo, este ilustrativo da troca do verbo pôr pelo verbo colocar, do Diário de Notícias: «Para combater a obesidade infantil e mudar mentalidades, o Hospital de São João e a Faculdade de Desporto do Porto (FADEUP) têm em vigor, desde 1998, um projecto que procura colocar pais e crianças a praticar exercício físico» («São João e Faculdade de Desporto “colocam as crianças a mexer”», Helder Robalo, Diário de Notícias, 31.5.2010, p. 14). O jornalista cita no título, mas não no segmento atrás, alguém, que identifica. Devia, porém, ter corrigido, expungindo o modismo.

[Post 3560]

Nome de doenças

É assim


      Já aqui referi várias vezes o erro que consiste em grafar com maiúscula inicial o nome de doenças. Há jornais mais atreitos, como o Correio da Manhã, mas tenho-o visto em todo o tipo de texto. Há também, contudo, exemplos correctos: «Há apenas 11 centros de reabilitação respiratória para as mais de cem mil pessoas que sofrem de doença pulmonar obstrutiva crónica (DPOC) em Portugal, alertou a Associação Respira, que apela ao alargamento destes serviços a mais unidades hospitalares» («Centros de reabilitação são insuficientes», Diário de Notícias, 31.5.2010, p. 13).

[Post 3559]

Léxico: «sobrevida»

Se encontrarem o verbete...


      ... devolvam-no, pois, estranhamente, nem o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora nem o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa o registam. «À semelhança deste grupo específico [doentes com cancro do pulmão], também os restantes doentes têm visto a sua expectativa de vida aumentar. “A sobrevida dos doentes com cancro do pulmão tem vindo a aumentar não só em quantidade como em qualidade”, refere o oncologista António Araújo» («Remédio permite viver o dobro com cancro», Ana Bela Ferreira, Diário de Notícias, 31.5.2010, p. 13).
      Encontramos o vocábulo, com três acepções, no Dicionário Houaiss: «prolongamento da vida além de certo limite; prolongamento da existência além da morte, vida futura; lembrança que permanece da vida de alguém, de algum acontecimento etc.»

[Post 3558]

Selecção vocabular

Buracos


      «Tenho visto», escreve-me o leitor Fernando Ferreira, «cada vez com maior frequência, a palavra “cratera” ser usada em vez de “buraco”. Um exemplo recente é este: “Uma cratera gigante está a chamar as atenções para a cidade da Guatemala. O buraco gigante surgiu após a passagem da tempestade tropical Agatha, a primeira da estação ciclónica.” Gostaria de saber se o Helder considera apropriado o uso desta palavra no contexto citado.»
      No texto integral, é usado mais o termo «buraco» do que «cratera», mas este é usado no título, julgo que para denotar mais dramatismo. A imprensa anglo-saxónica limita-se a descrevê-lo como um hole, no máximo huge hole ou sinkhole. Quanto à propriedade do uso do vocábulo, porque é essa a pergunta do leitor. Bem, tirando o sentido do próprio étimo, cratera começou por ser somente a abertura por onde saem as matérias expelidas pelos vulcões em actividade. Por extensão de sentido, é também a «abertura no solo produzida pelo rebentamento de um projéctil, bomba ou carga explosiva» (como regista o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, mas não o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa). Nenhum destes dois dicionários regista, porém, a acepção «grande buraco», usada no artigo do Expresso, que apenas vejo no Dicionário Houaiss. No contexto, eu evitaria usá-la.
      De resto, a capital da Guatemala é Cidade da Guatemala e não cidade da Guatemala.

[Post 3557]

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