Léxico: «clickjacking»

Não é comigo


      «Centenas de milhares de utilizadores do Facebook estão a ser vítimas de ataques de “clickjacking”, segundo vários especialistas internacionais em segurança online. Clicando em links como “Campeonato do Mundo 2010 em HD”, que outras pessoas dizem ter “gostado”, os membros da rede social são reencaminhados para sites “maliciosos” controlados por terceiros. Os ataques infiltram-se no sistema do utilizador» («“Jacking” chegou ao Facebook», T. C. E., Metro, 4.6.2010, p. 12).
      Num tempo em que o Facebook parece ter tomado conta do mundo — e eu continuo fora do mundo, porque estou fora do Facebook —, mais um neologismo para decorar.

[Post 3540]

De mais/demais

É como quiser


      «Era por demais óbvio que, se eu estivesse minimamente consciente durante as últimas horas, teria tentado escapulir-me há imenso tempo» (Memória de Tubarão, Steven Hall. Tradução de José Remelhe e Luís Santos. Queluz de Baixo: Editorial Presença, 2009, p. 154). «Durante o encontro, Coleman ouvira em silêncio, refreando os seus sentimentos, tentando manter o espírito aberto e ignorar a satisfação por de mais aparente com que Primus expunha e aconselhava, com pompa, as virtudes da prudência a um professor universitário quase quarenta nos mais velho do que ele» (A Mancha Humana, Philip Roth. Tradução de Fernanda Pinto Rodrigues e revisão de Fernanda Abreu. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2004, p. 95).
      É mais uma das áreas pantanosas da nossa língua. Ninguém erra escrevendo de uma ou de outra forma. Só pode haver preferências, e eu prefiro por de mais.

[Post 3539]

«Quando muito»

Outra vez?


      «Com base nas dimensões da casa, o quarto trancado à chave não seria muito grande, quanto muito seria ligeiramente mais pequeno do que o meu quarto, e talvez não fosse mais do que um cubículo» (Memória de Tubarão, Steven Hall. Tradução de José Remelhe e Luís Santos. Queluz de Baixo: Editorial Presença, 2009, p. 59).
      No máximo, se tanto — escreve-se quando muito, e já o vimos aqui mais de uma vez. Só para demonstrar que é no mais simples que muitas vezes nos espalhamos ao comprido.

[Post 3538]

Actualização em 7.06.2010

      Parece ser um erro de todos os dias: «Mas não era como se, graças a algum freudismo de ocasião, Rema viesse substituir de modo obscuro a minha mãe; quanto muito, Rema fazia com que a minha mãe parecesse, em retrospectiva, uma sombra pálida de um amor original ainda por surgir» (Perturbações Atmosféricas, Rivka Galchen. Tradução de Manuel Cintra. Queluz de Baixo: Editorial Presença, 2010, p. 65).



Sol/sol

Pouco solar


      «Uma fraca luz de um cinza-azulado iluminava o espaço, graças a uma enorme janela por detrás da área da recepção que deixava entrar um Sol fraco, proveniente de um jardim húmido e esquecido no pátio» (Memória de Tubarão, Steven Hall. Tradução de José Remelhe e Luís Santos. Queluz de Baixo: Editorial Presença, 2009, p. 140).
      Deus nos livre de o Sol, com núcleo central, fotosfera, camada inversora, coroa solar e camada emissora de luz zodiacal, nos entrar assim pela casa. Matava-nos. Nesta tradução, há outros problemas solares: «O guia informa que esta baía ao pôr-do-sol é um dos locais mais românticos de todas as Cíclades, e refere ainda, de uma forma surpreendentemente franca, que é um sítio fantástico para se ter relações sexuais ao ar livre» (idem, ibidem, p. 127).

[Post 3537]

Geórgia/Jórgia

Será mesmo necessário?


      Numa nota à resposta a uma consulta sobre topónimos urbanos, lê-se no Ciberdúvidas: «Para designar em português o estado dos Estados Unidos da América que se chama Georgia em inglês, a forma recomendada por Rebelo Gonçalves no Tratado de Ortografia da Língua Portuguesa (1947: 353, n. 4) e no Vocabulário da Língua Portuguesa (1966) era Jórgia, que se distinguia assim de Geórgia, país do Cáucaso. Contudo, essa forma não logrou impor-se no uso, como se pode comprovar pelo facto de na Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira e na Enciclopédia Luso-Brasileira de Cultura da Editorial Verbo ocorrer Geórgia como designação comum aos dois territórios.»
      Não logrou impor-se no uso, mas vai-se lendo de vez em quando, tanto em traduções como na imprensa: «O pai era, como antes dele o fora o seu pai, que foi pastor metodista na Jórgia» (A Mancha Humana, Philip Roth. Tradução de Fernanda Pinto Rodrigues e revisão de Fernanda Abreu. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2004, p. 337). «Segundo o diário Atlanta Journal-Constitution [AJC], a televisão do estado da Jórgia, no Sul dos Estados Unidos, transmitiu imagens da efígie, com cabeça negra, pendurada diante de um cartaz no qual se pode ler: “Plains, Jórgia. Reduto de Jimmy Carter, o nosso 39.º presidente”» («Boneco ‘Obama’ enforcado na Jórgia», Helena Tecedeiro, Diário de Notícias, 4.1.2010).
      Mas será mesmo necessário distinguir?

[Post 3536]

«Não tem de quê»/«De nada»

¡Muchas gracias!


      «— Não tem de quê. Faz bem em descansar uns dias depois do que passou para chegar aqui» (Memória de Tubarão, Steven Hall. Tradução de José Remelhe e Luís Santos. Queluz de Baixo: Editorial Presença, 2009, p. 114).
      Quando é que deixámos, generalizadamente, de dizer «não tem de quê» e passámos a dizer «de nada»? Não sei. E quem tem a noção de que esta última resposta à fórmula de agradecimento é um castelhanismo? No Portugal Protocolo, ainda não se esqueceram.

[Post 3535]

Léxico: «transportadora»

Ultrapassados pela realidade


      «Em breve estarei a debater-me com o gato para o meter na caixa de transporte, pegarei nos dictafones e sairei de casa, quiçá para sempre» (Memória de Tubarão, Steven Hall. Tradução de José Remelhe e Luís Santos. Queluz de Baixo: Editorial Presença, 2009, p. 93).
      «Caixa de transporte», sim, mas há anos que se usa, com vantagem, o vocábulo «transportadora» para designar o mesmo. Contudo, para os dicionários, «transportadora» continua a ser somente a «empresa de transportes» (Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora) ou a «empresa especializada no transporte de carga ou de passageiros» (Dicionário Priberam da Língua Portuguesa).
      Quanto a dictafone, é mais um vocábulo obtido por derivação imprópria: quando uma empresa norte-americana inventou um gravador que servia especialmente para ditar a correspondência, deu-lhe o nome comercial de Dictaphone. Posteriormente, outras empresas e outras marcas passaram a usar o vocábulo para designarem aparelhos com as mesmas características. Logo, a definição do Dicionário Priberam da Língua Portuguesa está errada: «Nome registado de um gravador que serve especialmente para ditar a correspondência.» Imagine-se proceder da mesma maneira para a palavra «gilete»: «Nome registado de aparelho de barbear composto, etc.» No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, o problema é outro e não menos grave (comum a outros verbetes já aqui analisados): a etimologia do vocábulo é falsa, errada.

[Post 3534]

Hífen

Piso escorregadio


      O uso do hífen merecia um estudo sério e uma reforma ortográfica. Entretanto, manda o capricho de cada escrevente e dicionarista. Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, não há dúvida: é com hífen. Meia-verdade. Se procurarmos «meia-verdade» no Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa, o nosso olhar cai no espaço entre «meia-tinta» e «meia-volta». Recorremos ao VOLP da Academia Brasileira e também não o encontramos, mas entre «meia-tinta» e «meia-volta» encontramos «meia-vida» e «meia-vira».
      «Meia verdade. Menos de meia verdade. Boa sorte e lamento. O Primeiro Eric Sanderson» (Memória de Tubarão, Steven Hall. Tradução de José Remelhe e Luís Santos. Queluz de Baixo: Editorial Presença, 2009, p. 23).
      Mas ainda o capricho. «Há a cabeça de um sapo; uma flor; uma espécie estranha de alga; e um animal meio-ave meio-serpente» (O Que Faço Eu Aqui?, Bruce Chatwin. Tradução de José Luís Luna e revisão de Carlos Pinheiro. Lisboa: Quetzal Editores, 2009, p. 110) «Aos vinte e dois anos, sentindo-se asfixiado pela falsa euforia que reinava em Paris de pós-guerra, organizou uma expedição ao Camboja à procura das ruínas khmers, mas as autoridades coloniais prenderam-no por tentar escapar com esculturas que encontrara meio-perdidas na selva» (idem, ibidem, p. 130). «Um desses aventureiros, vestido num traje com plumas, pretendia ser apenas meio-mortal quando o desgraçado nem conseguia transformar o cinabre em ouro» (idem, ibidem, p. 218).
      Podemos continuar assim? Podemos, mas viveríamos muito melhor com certezas.

[Post 3533]

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