Tradução

Sobremodo obscuro


      «Os sons de fundo ecoavam na cabeça de Hannibal. O chilreio, o dialéctico Báltico da sombria» (Hannibal: A Origem do Mal, Thomas Harris. Tradução de Maria Dulce Guimarães da Costa e revisão de Cristina Pereira. Lisboa: Casa das Letras, 2007, p. 244).
      Eu explico o contexto para ajudar o leitor. Vladis Grutas, um dos sequestradores de lady Murasaki, telefona a Hannibal Lecter e diz-lhe que a tem e faz-lhe uma proposta. Grutas é dono do Café de L’Est, um restaurante que tem à porta uma gaiola de sombrias (Anthus lutescens), donde telefona. Depois do telefonema, Hannibal senta-se na cama a pensar e o que lhe vem à mente é aquele chilreio, o dialecto báltico da sombria. Agora digam-me: quantos serão os leitores que conseguem ultrapassar a barreira de erros até à compreensão da frase? Já percebemos porque é que «báltico» está indevidamente grafado com maiúscula inicial. O pior, contudo, é que poucos dicionários registam «dialéctico» como sinónimo de «dialectal» — e também percebemos porquê. Como é que uma frase mais que arrevesada como esta não chama a atenção da revisora?

[Post 3523]

«Sobremaneira»

Sobremodo irritante


      «O Dr. Dumas, cuja alegria constante irritava de sobremaneira Popil, entregou uma opinião entusiástica de Hannibal e explicou que o Centro Médico Johns Hopkins em Baltimore, na América, lhe estava a oferecer um estágio, após examinar as suas ilustrações para o novo manual de anatomia» (Hannibal: A Origem do Mal, Thomas Harris. Tradução de Maria Dulce Guimarães da Costa e revisão de Cristina Pereira. Lisboa: Casa das Letras, 2007, p. 262).
      Também a mim me irrita sobremaneira este erro, só visível, como todos, para quem sabe que o é, de antepor a preposição «de» ao advérbio «sobremaneira». Para quê? A revisora, que não viu nem reviu, achou naturalíssimo.

[Post 3522]

Léxico: «defensa»

Protegem


      «Na popa, Gassmann tirou as defensas para fora e preparou o cabo» (Hannibal: A Origem do Mal, Thomas Harris. Tradução de Maria Dulce Guimarães da Costa e revisão de Cristina Pereira. Lisboa: Casa das Letras, 2007, p. 253).
      As defensas são almofadas de sola ou de corda de forma cilíndrica, penduradas à altura do verdugo, para protecção do costado de uma embarcação durante as atracações. Nem sempre são tão luxuosas como a da imagem: já todos vimos defensas feitas de pneus velhos.

[Post 3521]

Género: «mantra»

Má decisão


      «Pôs o pé no primeiro degrau e resmungou entre dentes: “A quinta que se foda.” Tinha sido a sua mantra quando entrava em acção desde que fugira de casa aos doze anos de idade» (Hannibal: A Origem do Mal, Thomas Harris. Tradução de Maria Dulce Guimarães da Costa e revisão de Cristina Pereira. Lisboa: Casa das Letras, 2007, p. 218).
      Não conheço nenhum dicionário que atribua o género feminino à palavra «mantra». Tradutora e revisora deviam ter tido o cuidado de consultar pelo menos um dicionário. Afinal, não é palavra que se use todos os dias.

[Post 3520]

Topónimos

Den Haag, então


      «— Podia fazê-lo em seu nome de acordo com a Convenção de Hague de 1907, permita-me que lhe explique...
      — Sim, de acordo com o Artigo Quarenta e Seis, já conversámos sobre isso — disse Hannibal, olhando para Lady Murasaki e lambendo os lábios para parecer ávido» (Hannibal: A Origem do Mal, Thomas Harris. Tradução de Maria Dulce Guimarães da Costa e revisão de Cristina Pereira. Lisboa: Casa das Letras, 2007, p. 130).
      É espantoso como a tradutora não atinou com a versão portuguesa do topónimo. Então não é Haia? Nunca ouviu falar das célebres Convenções de Haia? Esta de 1907 chama-se, oficialmente, Convenção sobre a Resolução Pacífica de Controvérsias Internacionais. Hague, Copenhague...

[Post 3519]

Sobre «foxing»


Castanho-raposa


      «A tela estava manchada num pequeno padrão de pintinhas castanhas no canto superior esquerdo. Quando era pequeno, tinha ouvido os pais dizerem que as manchas eram foxing e tinha passado vários minutos a olhar para elas, tentando descobrir a imagem de uma raposa ou da impressão de uma pata de raposa» (Hannibal: A Origem do Mal, Thomas Harris. Tradução de Maria Dulce Guimarães da Costa e revisão de Cristina Pereira. Lisboa: Casa das Letras, 2007, p. 122).
      Não temos em português uma palavra que traduza, especificamente, foxing. Temos de recorrer à palavra «mancha». A tradutora viu-se obrigada a redigir uma nota de rodapé: «Trocadilho com o significado de fox (raposa) e o significado de foxing (manchas amarelas ou castanhas que se manifestam no papel ou na tela). (N. da T.)» (idem, ibidem, p. 122). Trocadilho, está bem, mas a designação não é inteiramente arbitrária: dá-se este nome às manchas na tela e no papel porque o castanho é semelhante à cor das raposas. E quem percebe mais de raposas do que os Ingleses?

[Post 3518]

Pronúncia: «nogado»


A escorrer mel


      «O tocador de realejo e o seu macaco, libertados depois do pequeno-almoço das suas instalações frequentes na prisão, arranhavam incansavelmente Sous Les Ponts de Paris até que alguém lhes ofereceu um copo de vinho e um bocado de nogado de amendoim, respectivamente» (Hannibal: A Origem do Mal, Thomas Harris. Tradução de Maria Dulce Guimarães da Costa e revisão de Cristina Pereira. Lisboa: Casa das Letras, 2007, p. 83).
      Não se trata de um erro de tradução — ou, pelo menos, não é isso que me preocupa agora, embora quando um inglês pensa em nougat não veja o mesmo que eu quando penso em nogado. Quando leio ou ouço a palavra, vem-me sempre à mente os nogados, brilhantes da calda de mel em que eram mergulhados, que a minha tia Joana fazia, iguaizinhos aos da imagem (tirada daqui). Todos os dicionários registam «nogado», mas durante quase toda a vida ouvi /nógado/, talvez, considero agora, por influência do espanhol nuégado.

[Post 3517]

Tradução: «mantelpiece»

Evite-se o eco


      «Um relógio pintado com os signos do Zodíaco e querubins fazia tiquetaque na prateleira da lareira» (Hannibal: A Origem do Mal, Thomas Harris. Tradução de Maria Dulce Guimarães da Costa e revisão de Cristina Pereira. Lisboa: Casa das Letras, 2007, p. 75). Já aqui tínhamos visto qual a melhor tradução do vocábulo inglês mantelpiece. «Prateleira da lareira» tem, é óbvio, um problema: o eco eira/eira. Melhor será, então, lintel da lareira.

[Post 3516]

Arquivo do blogue