Ortografia: «magnicídio»

Mataram a ortografia!


       «E se o juiz desrespeitara a tradição de não autopsiar magnocídios, a esta distância temporal só poderia ser por razões bem ponderosas» (Mataram o Sidónio!, Francisco Moita Flores. Revisão de Ayala Monteiro. Lisboa: Casa das Letras, 2010, p. 136).
      Se se tratasse do homicídio do imperador Carlos Magno (747―814), talvez. Mas não: escreve-se magnicídio e é o «assassínio de pessoa ilustre, eminente», como se pode ler na definição do Dicionário Houaiss. O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa não regista nem «magnicida» nem «magnicídio» (então, meus senhores, distraídos?). O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, por sua vez, só regista «magnicida». Em espanhol também se escreve magnicidio.
      Claro que escrever «autopsiar magnicídios» é uma forma audaciosamente elíptica, e pode haver leitores que não compreendam.

[Post 3499]

«Fase de negação»

Mataram a cronologia!


      «— Ainda me lembrei de te desafiar, mas estavas na fase da negação — ironizou Brites. — Além de que a polícia corria connosco ou prendia-nos» (Mataram o Sidónio!, Francisco Moita Flores. Revisão de Ayala Monteiro. Lisboa: Casa das Letras, 2010, p. 167).
      Mais um romance histórico, mais um anacronismo. Que é isto de «fase da negação»? A psiquiatra de origem suíça Elisabeth Kübler-Ross (1926–2004) definiu cinco fases pelas quais os indivíduos passam após qualquer perda pessoal, como a aproximação da própria morte, morte de um ente querido ou mesmo divórcio. Uma dessas fases é a fase de negação. Vejam: a psiquiatra estabeleceu esta teoria em 1969 e o diálogo passa-se no início de 1919, um mês e uma semana depois do homicídio do Presidente-Rei (1872―1918). Só sete anos depois do diálogo ficcionado nasceria a autora, e apenas meio século depois estabeleceria a teoria. O nosso Geraldino Brites, chefe do Serviço de Tanatologia da Morgue de Lisboa, podia ser excepcional, mas não era, mesmo atenuado, um Rasputine. No blogue da editora pode ler-se que Moita Flores é «considerado um dos mestres da técnica de diálogo», mas mestria é não pôr diálogos inverosímeis (rebuscadamente inverosímeis, admito) na boca das personagens, e isso não acontece nesta fala.

[Post 3498]

«Sua Alteza»/«Sua Majestade»

Meia estrela para a crítica


      «— Penso que Sua Majestade deve saber que o seu almirante chegou a acordo com a minha mãe sobre esse assunto, que não me diz respeito. Quanto à Casa da Rainha, que interesse pode ter Sua Alteza em incluir neste rancho, que a mim já me parece verdadeiramente excessivo, senhoras escolhidas pelo rei?» (Catarina de Bragança, Isabel Stilwell. Revisão de Eurico Monchique e Alexandra Pereira. Pesquisa histórica de Joana Troni. Lisboa: A Esfera dos Livros, 5.ª ed., 2008, p. 347).
      Já aqui tínhamos visto este erro noutra obra de Isabel Stilwell. Como na outra, também nesta se repete por todo o texto, com a agravante de aparecer, nesta fala, «Sua Majestade» e «Sua Alteza» referidos à mesma pessoa, o rei Carlos II de Inglaterra. Se alguém tivesse feito o reparo logo na primeira edição, agora os leitores não estavam a ler e a reproduzir estes disparates, que se repetem de obra para obra. Infelizmente, apenas uma em cada mil recensões de livros se debruça sobre a matéria de que as obras são feitas: a língua. Se se trata de tradução, o recenseador limita-se muitas vezes a exalçar a obra original ou a mencionar aspectos laterais, como a biografia do autor. Sobre a tradução em si, os seus méritos e deméritos, pouco ou mesmo nada escreve. Também costuma usar-se metade, ou até mais, do espaço com citações da obra, como se dessa forma o leitor pudesse formar uma ideia aproximada da obra toda.

[Post 3497]

Bóston e Manchéster

Acentos


      Quem escreve Bóston também tem de escrever Manchéster? Talvez convenha, sim. «— E queira desculpar-me — acrescentou —, estas são as irmãs finlandesas Vera e Mini, que conheciam Molly dos seus tempos de Bóston. Clive Linley» (Amesterdão, Ian McEwan. Tradução de Ana Falcão Bastos e revisão de Manuel Joaquim Vieira. Lisboa: Gradiva, 3.ª ed., 1998, p. 18). «Clive ponderou nessas perguntas nos confins de um Boeing 757 imobilizado no nevoeiro gelado do extremo norte do Aeroporto de Manchéster» (idem, ibidem, p. 163).
      E outra coisa, já que a oportunidade se nos oferece: nestes casos, deveremos escrever «aeroporto» com maiúscula ou com minúscula inicial? Se o nome é mesmo «Aeroporto de Manchester», sim. Lê-se no sítio oficial: «In 1975, the airport changed its name to “Manchester International Airport” and in 1986 “Manchester Airport PLC” was incorporated, at which time it changed its name to the present form: “Manchester Airport”.» E será Aeroporto da Portela ou aeroporto da Portela ou Aeroporto de Lisboa ou aeroporto de Lisboa — ou nada disto? Como se escreve na imprensa? Vê-se de tudo, mas talvez predomine o uso da maiúscula. «Rui Costa foi ontem protagonista de um episódio caricato no Aeroporto de Lisboa, quando o Benfica se preparava para viajar até à Alemanha, onde amanhã (20 h, TVI) defronta o Nuremberga, na segunda mão dos 16-avos-de-final da Taça UEFA» («Rui Costa passa por Figo no aeroporto», Metro, 20.2.2008, p. 10). «O objectivo é fornecer, aos futuros arqueólogos, formação específica sobre a verificação e protecção de recursos arqueológicos no âmbito da realização de obras, uma saída profissional em expansão, já que se perspectivam grandes obras públicas, como o Aeroporto de Lisboa e o TGV» («Algarve ensina arqueologia», Global, 28.07.2008, p. 4). «A transportadora aérea TAP admite que a greve dos pilotos prejudicou ontem mais passageiros, depois de cerca de mil terem passado a noite no Aeroporto de Lisboa, sem voo e sem hotel» («Mil dorme no aeroporto», Pedro H. Gonçalves, Correio da Manhã, 26.09.2009, p. 23). «Transportou ontem à tarde dois austríacos de um hotel da cidade até ao terminal de partidas do Aeroporto de Lisboa e, no final da viagem, foi detido por um agente da Brigada de Trânsito da PSP» («Taxista detido no Aeroporto de Lisboa», K. C., Diário de Notícias, 21.11.2008, p. 24).

[Post 3496]

«Raios X/raios-X»

Não temos


      «Minúsculos germes portadores de vida, pairando em nuvens pelas galáxias, tinham sido tocados por raios especiais de um Sol moribundo e tinham-se transformado num monstro colossal que se alimentava de raios X e que aterrorizava as carreiras de tráfego regular entre a Terra e Marte» (O Jardim de Cimento, Ian McEwan. Tradução de Cristina Ferreira de Almeida e revisão de Eda Lyra. Lisboa: Gradiva, 4.ª ed., 2005, p. 34).
      Não é raro ver grafado com hífen: raios-X. Mas reparem na distinção que faz Sacconi, autor do novíssimo dicionário já aqui referido: «Existe um inconveniente nesse título [«Visão de raio X»] dado pela ISTOÉ a uma carta de um de seus leitores. É preciso estabelecer a diferença entre raio-X e raios X. Raio-x (obrigatoriamente com hífen) é a fotografia ou o exame feito por meio de raios X. Quem já não precisou tirar um raio-X dos pulmões? Já raios X (sem hífen) é o nome que se dá à radiação eletromagnética não luminosa, capaz de atravessar quase todos os sólidos e radiografá-los internamente. Sendo assim, o título acima deveria ser este, se observada a diferença: Visão de raios X.» Os nossos dicionários não acolhem esta distinção, apenas registam raios X.

[Post 3495]

Léxico: «peristalse»

Ora aqui têm um exemplo


      «Os sinais de alerta foram uma certa dilatação nos olhos vítreos e um movimento ascendente na garganta, como uma peristalse ao contrário» (Amesterdão, Ian McEwan. Tradução de Ana Falcão Bastos e revisão de Manuel Joaquim Vieira. Lisboa: Gradiva, 3.ª ed., 1998, p. 178).
      Nem o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora nem o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa registam o vocábulo peristalse, ao contrário do Dicionário Houaiss. É sinónimo de peristaltismo («conjunto dos fenómenos peristálticos»), que os três dicionários registam.

[Post 3494]

Definição de «casamento»

Só eles


      «Os dicionários da Porto Editora já não fazem qualquer referência a homem ou mulher na definição de casamento, que descrevem como um “contrato civil celebrado entre duas pessoas que pretendem constituir família em conjunto”. Os dicionários do grupo Leya, nomeadamente os da Texto Editores, “já estarão adaptados na próxima edição”, disse fonte do grupo» («Cada escola decide como vai explicar casamento ‘gay’», Pedro Sousa Tavares e Patrícia Jesus, Diário de Notícias, 19.5.2010, p. 14).
      Só dicionários de pouca qualidade como o Houaiss continuarão a definir casamento como a «união voluntária de um homem e uma mulher, nas condições sancionadas pelo direito, de modo que se estabeleça uma família legítima», o que relevará inevitavelmente da própria mentalidade retrógrada dos Brasileiros...
      Tanto por onde melhorarem, tantas lacunas e más definições e contradições, mas os dicionários gostam de estar na crista da onda nestes aspectos.

[Post 3493]

«Torácico»/«toráxico»

Nova anatomia


      «Os outros dois casos eram de rotina: uma broncoscopia de diagnóstico na sequência da inalação de um amendoim e a inserção de um dreno toráxico para eliminar um abcesso» (Amesterdão, Ian McEwan. Tradução de Ana Falcão Bastos e revisão de Manuel Joaquim Vieira. Lisboa: Gradiva, 3.ª ed., 1998, p. 103).
      E se os médicos apenas souberem fazer drenos torácicos? O doente morre? Já aqui vimos a questão.

[Post 3492]

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