Tradução: «hall»

Prefiro o de saída


      Já aqui falei do meu ódio de estimação pelo anglicismo hall. Felizmente, vimo-lo no mesmo texto, alguns tradutores optam por traduzi-lo por «vestíbulo» ou «átrio». Esqueci-me então de referir algo ainda mais odioso: dizer e escrever «hall de entrada». Apetece perguntar onde está o de saída. Vejam agora esta infeliz sequência: «Vernon, que partia do princípio de que George estava a representar o papel de grande senhor da imprensa a convocar o seu director, absteve-se de pedir desculpa ou sequer de responder e seguiu o seu anfitrião através de um átrio bem iluminado até à sala de estar» (Amesterdão, Ian McEwan. Tradução de Ana Falcão Bastos e revisão de Manuel Joaquim Vieira. Lisboa: Gradiva, 3.ª ed., 1998. p. 60). «Enquanto a água aquecia, atravessou o estreito hall de entrada do apartamento, que dava acesso ao seu escritório, e arrumou a pasta, fazendo uma pausa a fim de deitar mais uma olhadela às suas notas» (idem, ibidem, pp. 103-4). «Lá em baixo, no átrio de entrada, deteve-se junto da porta da rua com a mão na fechadura, preparando-se para a abrir e correr até ao carro» (idem, ibidem, p. 107). «Enquanto atravessava, em passo apressado, o vestíbulo de mármore preto e amarelo-claro, viu Dibben à espera junto do elevador» (idem, ibidem, p. 116). Fosgluten talvez faça bem a isto.
      «Hall: sala de entrada de casa, andar ou edifício, geralmente com portas que comunicam com outras divisões; átrio, vestíbulo» (in Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora).

[Post 3491]

Tradução: «injunction»

Ainda assim


      Vernon, director do jornal The Judge, recebeu uma injunction para não publicar fotografias comprometedoras de um político. «Era precisamente o tipo de história que atraía Clive, mas este não mostrou curiosidade pelas fotografias e pela injunção e parecia não estar a ouvir com muita atenção» (Amesterdão, Ian McEwan. Tradução de Ana Falcão Bastos e revisão de Manuel Joaquim Vieira. Lisboa: Gradiva, 3.ª ed., 1998, p. 57).
      Sim, literalmente, injunction pode traduzir-se por «injunção». Em todo o caso — e apesar de só nos últimos tempos se ter tornado uma figura legal conhecida, mormente devido à tentativa de impedir que o semanário Sol publicasse escutas obtidas do processo «Face Oculta» —, o tradutor devia ter optado por «providência cautelar».

[Post 3490]

«Deixar-se de fitas»

Películas no século XVII


      Quando apareceu a expressão «deixar-se de fitas»? Terá sido ao mesmo tempo de «fazer fitas». Sim, mas quando? Bem, só poderá ter sido depois do advento do cinema, pois «fita» é, em ambos os casos, sinónimo de «filme». «Fita», nesta acepção, regista o Dicionário Houaiss, é uma extensão de sentido e significa «acção ou dito que visa iludir, enganar ou impressionar; manha, fingimento».
      Agora imagine, se o salto não for violento, D. Teodósio de Bragança (1634–1653), filho de D. João IV e de D. Luísa de Gusmão, dizer à irmã Joana (1635–1653): «— Deixa-te de fitas, Joana. O peixe foi ter com a família dele.» Os meninos estavam a brincar junto de um tanque de pedra no Paço de Vila Viçosa, e o primogénito tinha acabado de lançar para a água um peixinho vermelho que antes apanhara para dar à irmã. A ama das crianças — a séculos de aparecer o Facebook, a moçoila pouco mais tinha com que se entreter — conversava com um moço de cavalariça. É um anacronismo, claro que sim, só estranho é que ninguém tenha pensado no caso. E um anacronismo é grave, mata a obra? Se estamos perante um romance histórico, fere-a. Na ficha técnica (Catarina de Bragança, Isabel Stilwell. Lisboa: A Esfera dos Livros, 5.ª ed., 2008), vejo que a pesquisa histórica esteve a cargo de Joana Troni e a revisão de texto a cargo de Eurico Monchique e Alexandra Pereira.

[Post 3489]

Pronúncia: «efémero»

No que tange à pronúncia


      Por vezes, escassas vezes, vejo a rubrica Bom Português, na RTP1. A última emissão que vi era sobre o acento da palavra «efémero». A locutora pronunciou sempre a palavra, fenómeno bem analisado por Fernando Venâncio e quase sempre evitado por outros estudiosos, porque a pronúncia é um tema próximo do tabu, com o e inicial átono a soar como e fechado: ê. Êfémero, disse ela sempre. E se isto um dia vai tudo parar à grafia? Não foi assim fenómeno tão raro a adaptação da grafia à pronúncia. Só um exemplo: irmão, que vem do latim, e depois de vários fenómenos fonéticos, germanu, deveria, por respeito à etimologia, escrever-se «ermão», mas a influência da pronúncia do e átono inicial como i foi decisiva. «Um disparate ênorme», diz o leitor? Veja bem o que diz.

[Post 3488]

Ortografia: «soçobrar»

Soçobrou


      É verdade: o fonema s pode ser representado por várias letras ou combinações de letras (c, ç, s, ss, sc, sç, xc, xs, x). Se não sabemos de cor, temos de usar, não há alternativa, o dicionário. Sobretudo um revisor não pode confiar absolutamente na memória ou na competência do tradutor ou autor. «No que dizia respeito à velha guarda. Os “puristas”, o The Judge iria aguentar-se ou sossobrar pela sua probidade intelectual» (Amesterdão, Ian McEwan. Tradução de Ana Falcão Bastos e revisão de Manuel Joaquim Vieira. Lisboa: Gradiva, 3.ª ed., 1998, p. 41). Se se tratasse mesmo da 3.ª edição, era impossível o erro continuar a enodoar o texto. Aliás, numa reedição deveria ser sempre outro revisor a ver a obra.


[Post 3487]

«Radiador/irradiador»

Ouço bem


      «Antes de despir o casaco, pouso a caixa de livros e a minha mochila na grande mesa de carvalho da cozinha, ligo os candeeiros e depois arrasto o irradiador eléctrico do quarto pelo vestíbulo e ligo-o à tomada, vendo as duas barras de metal corarem debilmente (e, parece-me sempre, apologeticamente)» (O Fim do Senhor Y, Scarlett Thomas. Tradução de Inês Castro e revisão de Duarte Camacho. Lisboa: Círculo de Leitores, 2008, pp. 22-23). «Clive entrou em casa e permaneceu na entrada, absorvendo o calor dos radiadores e o silêncio» (Amesterdão, Ian McEwan. Tradução de Ana Falcão Bastos e revisão de Manuel Joaquim Vieira. Lisboa: Gradiva, 3.ª ed., 1998, p. 26).
      Radiador ou irradiador? Muitos falantes têm a mesma dúvida. Em 2008, um consulente fez a pergunta ao Ciberdúvidas. O último parágrafo da resposta do consultor A. Tavares Louro é este: «No uso corrente, usamos a palavra radiador para os dispositivos de arrfecimento [sic] dos motores, e a palavra irradiador para os aparelhos de permitem aquecer o ambiente.»
      Reparo muito bem na forma como as pessoas falam, e não é isto que dizem, não senhor. Usam, isso sim, o termo «radiador» para designar os dois dispositivos. Numa actualização não datada, referem que um engenheiro e professor de Física Termodinâmica, Jorge Martins, enviara a seguinte achega: «Radiador (ou irradiador) refere-se à transferência de calor por radiação, um dos três modos que existem (radiação, convecção e condução). Na verdade, os radiadores dos automóveis deveriam chamar-se “convectores”, pois perdem calor por convecção, tal como os “radiadores” domésticos, embora nestes a transferência de calor por radiação possa ser significativa. Já o termo “pavimento radiante” está correcto, pois neste caso o que se pretende é melhorar o conforto térmico pelo controlo da radiação pessoa-envolvente. Por outro lado, não é habitual usar-se o termo “irradiação”, mas sim radiação, pelo que o vocábulo irradiador não se deveria usar.»
      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, se regista «irradiador», não deixa de acolher estas duas acepções do vocábulo «radiador»: «dispositivo destinado a provocar o resfriamento de motores» e «aparelho electrodoméstico destinado ao aquecimento do ambiente interno de edifícios».

[Post 3486]

«Estar no vermelho»

Quem percebe?


      De vez em quando lembro-me do critério (mesmo que tenha sido apenas um piscar de olho ao leitor) de Joaquim Vieira, ex-provedor do jornal Público: «No seu caso, o provedor, ao redigir um texto, costuma pensar: “Será que os meus pais vão perceber o que escrevi?” (para esta crónica, se não desistirem a meio, vão seguramente necessitar de recorrer com muita intensidade aos dicionários). Tudo o que pode pois recomendar aos jornalistas do PÚBLICO é que tenham idêntica atitude.» Voltei a lembrar-me deste conselho quando li o seguinte título da edição de hoje: «Proibição dos movimentos especulativos na Alemanha atira bolsas para o vermelho». Terão pais da jornalista Rosa Soares, autora do artigo, percebido o título? É verdade que a expressão «estar no vermelho» se ouve quase todos os dias na rádio, mas ainda assim, o leitor/ouvinte médio apenas pode entreconhecer o sentido, o que é manifestamente pouco. Sim, a primeira frase lança luz sobre o significado, mas de forma indirecta: «A decisão alemã de proibir o naked short-selling sobre acções e obrigações europeias gerou ontem uma queda violenta nas bolsas» (p. 22). Parece-me ser mera tradução da expressão inglesa to be in the red. O Aulete Digital é, pelo que vi, o único que a regista: «Situação deficitária de um país, de uma empresa ou de uma pessoa: Somente agora ele conseguiu sair do vermelho
      De qualquer modo, fica-me sempre a dúvida: a escrita incompreensível é um desiderato ou fruto da inépcia? Quantos leitores terão compreendido estes «envios culturais e políticos»? «Revelada com Laborintus (1956), livro de estreia duramente criticado por Pasolini, a sua poesia, no seu tom céptico e irónico, e no seu deliberado prosaísmo, é uma desconcertante mistura de trivialidades do quotidiano, jogos de palavras e envios culturais e políticos» («Morreu o poeta italiano Edoardo Sanguineti, o autoproclamado “último marxista”», Luís Miguel Queirós, Público, 20.5.2010, p. 19).

[Post 3485]

Léxico: «frântico»

Língua frenética


       «É uma atitude pertinente numa altura de frânticas exclamações de não sermos a Grécia. O Financial Times e o Economist não são o Reino Unido — são jornais. O que dizem sobre Portugal é escrito por uma ou duas pessoas e lido por poucas mais. Os ditos mercados estariam lixados se dependessem do que lêem nos jornais. Não é só saber que são falíveis. Sabem mais: que, caso seguissem as recomendações que fazem, estariam falidos há muito tempo» («O que dizem de nós», Miguel Esteves Cardoso, Público, 20.5.2010, p. 43).
      Por algum motivo que não descortino, Miguel Esteves Cardoso pensa que por meio do adjectivo «frânticas», aportuguesamento do inglês frantic, exprime melhor a ideia do que com o adjectivo português «frenético». Não sou da mesma opinião, mas, por ter um uso episódico, localizado, numa crónica e não numa notícia, não acho que venha grande mal ao mundo. Contudo, se muitos leitores não sabem o que é blockbuster, e muitos mais desconhecem «frântico», por não conseguirem ver por detrás o inglês frantic, aquele «é todo um» tem ou pode ter consequências muito mais devastadoras para a língua.

[Post 3484]

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