Espanholismo

Olé!


      «Todo um blockbuster, com mais entradas do que mostras de grande público como A Evolução de Darwin, que no ano passado se tornou na exposição temporária mais visitada de sempre em Portugal (161 mil visitantes na Gulbenkian). Mais entradas também do que o inesperado sucesso que foi a retrospectiva em 2006-2007, ainda na Gulbenkian, de Amadeo de Souza-Cardoso, que superou as 100 mil visitas» («Joana Vasconcelos é todo um blockbuster de 168 mil visitantes», Clara Campanilho Barradas, Público, 20.05.2010, p. 44).
      Sim, há males maiores, mas um espanholismo assim tão evidente e escusado perturba sempre muito. E ainda mais no título: es todo un. Se não têm tempo de rever tudo (não são, sequer, revisores), espera-se ao menos que façam o que dizem que lhes compete fazer: «os copydesks dedicam especial atenção a títulos, pós-títulos, entradas, legendas, início e fim dos textos; conferem ainda a observância das regras gráficas mais relevantes que caracterizam o PÚBLICO».
      Na conversa de ontem, a copidesque do Público referiu enfática e repetidamente a questão que a deixou de cabelos em pé: chegou um dia ao jornal (os conluios, é da própria definição, são sempre nas nossas costas) e viu que se tinha começado a usar o termo da linguagem desportiva «contra-relogista». «Uma coisa abstrusa, impensável. Como é que pode ser? O que é um “relogista”?»
      Procurei saber quantas palavras temos em português começadas por contra- e acabadas com o sufixo nominal -ista (e o verbete relativo a este sufixo está deficientemente redigido, incompleto, no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora). São quatro: contrabaixista, contrabandista, contrapontista e contratista. Depressa descobri que não era aqui que estava a resposta (até porque não é o radical que atribui categoria sintáctica à palavra), mas tão-somente em saber a que palavras se acrescenta o sufixo. Junta-se a substantivos, simples (alarmista) ou compostos (água-tintista) e a adjectivos, simples (acacianista) ou compostos (zen-budista). Sendo assim, não vejo qual é o problema com o neologismo «contra-relogista».
      Para terminar: grave é aquele blockbuster, ainda para mais repetido. E parece-me usado com pouca propriedade.

[Post 3483]

«Boa/boá»

Essa é boa!


      «Espalhafatosamente, como quem enrola uma boa de penas de avestruz ao pescoço, Cavaco Silva promulgou o casamento gay. Feito drama Queen de primeira, anunciou que não queria, mas fazia, por causa da “situação dramática” do país. Porque não queria que os políticos se “desviassem”» («O cu com as calças», Miguel Esteves Cardoso, Público, 19.5.2010, p. 43).
      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora — que vergonha! — não regista a variante, muito mais usada, boá (a reproduzir a pronúncia mais habitual, não a única, do étimo francês). Regista-a o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa. Regista-a, pois claro, o Dicionário Houaiss: «espécie de estola estreita e comprida, de peles ou de plumas, usada ao pescoço como peça do vestuário feminino». Para este dicionário é do género masculino, mas para os outros dois é do género feminino (lembrem-se do caso, recentemente aqui tratado, do/da pampa).

[Post 3482]

Ortografia: «jeremiada»

Isso nem foi o pior


      «Tenho um peso na consciência. Na última crónica usei a certa altura a expressão “pessimistas jeremíadas” para me referir às crónicas de Pacheco Pereira, Pulido Valente e Miguel Sousa Tavares. Peço desculpa. Trata-se de uma redundância: uma jeremíada é, por natureza, pessimista. Ainda tentei corrigir enviando uma emenda de última hora para “amargas jeremíadas”. Felizmente, não fui a tempo: uma jeremíada é sempre amarga; outra redundância. Quais eram as opções corretas? Repetitivas jeremíadas. Preguiçosas jeremíadas. Em última análise, redundantes jeremíadas» («Redundâncias», Rui Tavares, Público, 19.5.2010, p. 44).
      Consultei, num assinalável excesso de zelo, doze dicionários apenas para concluir o que já sabia: só jeremiada existe. Lamente-se, pois, Rui Tavares na próxima crónica pelos erros da penúltima e da última, reflexo, decerto, de uma silabada. O vocábulo chegou-nos da língua francesa, jérémiade, que também tem, como nós, o respectivo verbo, jérémier/jeremiar. Foi forjada a partir do nome do profeta Jeremias.

[Post 3481]

Actualização em 20.5.2010


Esdruxularias

      Vale a pena trazer para aqui a questão que se levantou nos bastidores. Comentou José João Leiria: «O Dicionário de Termos Literários, organizado por Carlos Ceia (que é também o autor desse verbete), regista no entanto “jeremíada”...
      Não se podem mudar os dicionários, desde que passaram a acolher também, por exemplo, “púdico”?
      De resto, se for possível dizê-lo assim, “jeremíada” parece-me mais eufónico (?) do que “jeremiada” — e o facto de vir do francês não ajuda.
      Exemplos (péssimos, provavelmente): qual é mesmo a acentuação francesa para Olympiade, Lusiades, Iliade

      Quanto à eufonia, acho precisamente o contrário. Tanto Carlos Ceia como Rui Tavares erraram, parece-me claro. E a explicação para o erro ter sido divulgado ainda é mais simples: em nenhum dos casos os textos foram revistos. Em relação à crónica de Rui Tavares, não é especulação minha: na conversa de revisores que anunciei aqui, uma copidesque do Público, Manuela Barreto, afirmou que nem todos os textos são revistos, e muito menos as crónicas, até porque alguns cronistas impõem como condição não serem (!) revistos. Gente modesta, decerto. Mas o panorama da revisão no Público ficou aqui traçado. Creio que se chegou àquele erro por uma espécie de condicionamento psicológico: raríssimas vezes ouvimos ou lemos (quantas vezes o leu ou ouviu o João José? Eu só o ouvi uma vez, da boca de um padre, em 1984. Escrito, só em dicionários) o vocábulo e como a associamos, e bem, ao nome Jeremias, é natural que se dê essa silabada, depois transposta para a escrita com a errada esdruxulização. Sabe-se, ao contrário do que o senso comum nos dirá, que os vocábulos com menor índice de frequência são os mais sujeitos a alterações fonéticas e ortográficas. Por outro lado, duvido que tenha sido por opção consciente, reflectida, informada, em suma, baseada no conhecimento de que os dicionários registam «jeremiada» que se chegou a «jeremíada». Quanto, finalmente, aos exemplos que aduz, não me parecem mesmo os melhores, e percebe porquê.

«Cabilas», «Chauias»

Lá na Argélia


      «O fellah, ou pequeno agricultor, é a alma da nação argelina. A leste de Argel vivem os Cabílios: montanheses berberes, povo antigo de rostos compridos e olhos cor de avelã. […] No Sudoeste do país, no maciço de Aurès, vivem os Chaouías» (O Que Faço Eu Aqui?, Bruce Chatwin. Tradução de José Luís Luna e revisão de Carlos Pinheiro. Lisboa: Quetzal Editores, 2009, p. 271).
      Mas os dicionários só registam, e bem, Cabilas, ortografia que se lê também nos jornais: «Por seu lado, os cabilas de França pedem a Chirac que “tenha uma palavra” para os “democratas” argelinos, nomeadamente da Cabília, uma província em situação de sublevação quase permanente desde há dois anos» («Argélia e França tentam estabelecer relações “fortes, confiantes e serenas”», Ana Navarro Pedro, Público, 2.3.2003, p. 23). O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista no respectivo verbete: «designação de algumas tribos nómadas, especialmente árabes norte-africanas». Esta é a primeira acepção. Como segunda acepção, regista: «tribo ou grupo de famílias que vivem no mesmo lugar». É apenas esta acepção — «tribo ou associação de famílias árabes» — que o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa acolhe. Nesta acepção, é sinónimo de cabilda, que este dicionário também regista. O Dicionário Houaiss regista «cabila», mas apenas na segunda acepção, e «cabilda».
      Quanto a «Chaouías», o tradutor e o revisor deviam ter tido mais cuidado. É óbvio ou não é que o ou é a marca do francês? Não vejo o vocábulo em nenhum dicionário da língua portuguesa. Nem na imprensa portuguesa. Encontrei na imprensa espanhola: «Cerca de tres millones de personas integran la etnia kabilia, descendientes de las antiguas legiones romanas y de los primeros habitantes bereberes, hombres y mujeres de tez blanca y cabellos rubios o pelirrojos, de rasgos fundamentalmente distintos a los de otros grupos bereberes de Argelia, como los tuaregs, los mozabitas y los chauias» («La mujer tiene los mismos derechos que el hombre en la Kabilia argelina», Manuel Ostos, El País, 12.4.1980). Mas podemos ir mais para trás: na hemeroteca do La Vanguardia, numa edição de Setembro de 1907 pode ler-se o vocábulo.
      Em resumo: os dicionários têm muito por onde melhorar, assim como tradutores e revisores.

[Post 3480]

Ortografia: «lobo-da-alsácia»

Qual lobo


      «Cá em baixo, no pátio, havia umas árvores da papaia enfezadas e um canil alojava um feroz lobo de Alsácia que deu grandes puxões à corrente que o prendia, uivou e arreganhou os dentes quando passei» (O Que Faço Eu Aqui?, Bruce Chatwin. Tradução de José Luís Luna e revisão de Carlos Pinheiro. Lisboa: Quetzal Editores, 2009, p. 258).
      Mas não é um lobo, é um cão. Logo, lobo-da-alsácia. (O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa regista lobo-d’alsácia, e nunca devemos desperdiçar uma oportunidade de usar o apóstrofo.) O Dicionário Houaiss não regista o vocábulo, que os Brasileiros não usam. Regista, sim, um outro nome por que é conhecida esta raça canina: pastor-alemão. («Trata-se pois de estórias dum cão pastor-alemão na cidade de Luanda» [O Cão e os Caluandas, Pepetela. Dom Quixote, Lisboa, 5.ª ed., 2006. Revisão de Susana Baeta, p. 9].) Em inglês é German shepherd.

[Post 3479]

Ortografia: «ascensão»

Sempre a descer


      «A antiga Mesopotâmia e o Egipto tiveram o mesmo problema com estes marginais cujas deslocações imprevisíveis nos desertos e montanhas à volta eram fonte de ansiedade nos tempos de ascenção nacional e de terror nos tempos de crise» (O Que Faço Eu Aqui?, Bruce Chatwin. Tradução de José Luís Luna e revisão de Carlos Pinheiro. Lisboa: Quetzal Editores, 2009, p. 240).
      Num jornal ainda se compreende, apesar de tudo. Numa obra literária é imperdoável. Lembrem-se de ascensor — com s!

[Post 3478]

Nomes chineses

Como calha


      «Só ele nos sabe contar que Estaline considerava Robinson Crusoé como o “primeiro romance socialista”, que a mão de Mao Tsé-Tung era “rosada como se tivesse fervido numa panela”, ou que a pele branca e os olhos desvairados de Trotsky lhe davam a aparência de um ídolo sumério de alabastro» (O Que Faço Eu Aqui?, Bruce Chatwin. Tradução de José Luís Luna e revisão de Carlos Pinheiro. Lisboa: Quetzal Editores, 2009, p. 130). «O romance mais conhecido, La condition humaine (A Condição Humana), relata, numa delirante sucessão de episódios, a última revolta de Xangai contra Chiang Kai-Tchek, em 1927» (idem, ibidem, p. 131). «Nos seus esforços, Wu-ti foi recompensado pela descoberta de um rapaz de dezoito anos, Ho-Ch’u-ping, que se proclamou o flagelo dos Hunos» (idem, ibidem, p. 221). «O imperador enviou o seu embaixador, Chang-ch’ien, à procura deles nas regiões do Extremo Ocidente a fim de os persuadir a regressar às suas antigas pastagens» (idem, ibidem, p. 222). «Os habitantes liquidaram o seu velho e irritável rei e prometeram dar a Li-kuang-li os seus melhores corcéis celestes, se ele levantasse o cerco» (idem, ibidem, p. 225). «Ocorreu-nos, no entanto, que estes garatujos tempestivos não estavam, no final de contas, muito longe do espírito de Tao-te-ching, de Lao-tze» (idem, ibidem, p. 237).
      Gritemos em coro para que o tradutor e o revisor nos possam ouvir: qual o critério? Nenhum, evidentemente! Já aqui abordámos esta questão. (E não vejo «garatujo» registado em lado nenhum.)

[Post 3477]

Regência do verbo «preferir»

Não pode ser


      «“Prefiro morrer no meio daquelas magníficas montanhas do que sozinho na cama de um hospital sinistro”» (O Que Faço Eu Aqui?, Bruce Chatwin. Tradução de José Luís Luna e revisão de Carlos Pinheiro. Lisboa: Quetzal Editores, 2009, p. 233). «Os Nakhis são gente apaixonada e, ainda hoje, jovens amantes preferem envenenar-se, afogar-se ou saltar de um abismo, do que sujeitarem-se a um casamento indesejado» (idem, ibidem, p. 235).
      Uma tradução não é o texto adequado para a exibição de semelhantes relativismos linguísticos. A norma culta portuguesa manda usar-se a construção «preferir uma coisa a outra», e o tradutor e o revisor não podem ignorá-la.

[Post 3476]

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