Regência do verbo «consistir»

E a decência sintáctica?


      «Além do barrete, o traje das mulheres consiste de um corpete azul, avental branco plissado e uma capa direita acolchoada, presa por cordões entrecruzados» (O Que Faço Eu Aqui?, Bruce Chatwin. Tradução de José Luís Luna e revisão de Carlos Pinheiro. Lisboa: Quetzal Editores, 2009, p. 229).
      Já aqui vimos uma citação do Prof. Vasco Botelho de Amaral sobre a regência do verbo consistir. Este estudioso, se se lembram, atribuía esta regência espúria à influência do inglês consisted of. E, no caso, trata-se mesmo de uma tradução do inglês.

[Post 3475]

Léxico: «cúmis»

Conversa de Revisores


      «O cúmis é uma bebida de leite de égua fermentado, alimento básico dos nómadas da estepe e remédio para todas as doenças» (O Que Faço Eu Aqui?, Bruce Chatwin. Tradução de José Luís Luna e revisão de Carlos Pinheiro. Lisboa: Quetzal Editores, 2009, p. 192).
      Salvo erro, é a primeira vez que leio este termo assim aportuguesado. De todos os dicionários consultados, apenas o Aulete Digital o regista: «bebida feita com leite de égua fermentado em odres, de que usam certos povos da Rússia e da Ásia Central». Poucas vezes a opção pelo estrangeirismo é mais adequada do que o correspondente termo português. E a justificação de que não se usa um vocábulo aportuguesado ou um termo português alternativo porque ainda não está generalizado é, em si, um contra-senso. É isto mesmo, entre outros aspectos que o desenrolar da conversa propiciar, que amanhã direi na sessão do curso de Formação Avançada em Revisão e Edição de Texto da Universidade Católica (UCP) para que fui convidado.

[Post 3474]

Uso da maiúscula

Pequeno


      «Depois da guerra, foi sugerido que se deixassem as ruínas de Estalinegrado tal como estavam, como um eterno monumento à derrota do Fascismo» (O Que Faço Eu Aqui?, Bruce Chatwin. Tradução de José Luís Luna e revisão de Carlos Pinheiro. Lisboa: Quetzal Editores, 2009, p. 208).
      Mas os nomes de movimentos estéticos, filosóficos, políticos, doutrinários grafam-se com minúscula inicial: classicismo, comunismo, fascismo, marxismo, nazismo, romantismo...
      A propósito: como pronunciam os meus leitores a palavra? Com o a fechado (â) ou aberto?

[Post 3473]

Léxico: «piquenicar»

Delicioso


      «O sol brilhava: gente a piquenicar acenava-nos da margem e lanchas velozes subiam e desciam o rio, a abarrotar de excursionistas» (O Que Faço Eu Aqui?, Bruce Chatwin. Tradução de José Luís Luna e revisão de Carlos Pinheiro. Lisboa: Quetzal Editores, 2009, p. 205).
      Nenhum dicionário regista o verbo piquenicar. Ainda assim, considero correcto o seu uso, tanto mais que na oralidade é muito usado. (A propósito, é chocante que a cadeia de supermercados Modelo persista na grafia abstrusa *mega pic-nic.)

[Post 3472]

Ortografia: «gaullista»




      «A carreira de André Malraux [1901–1976] tem espantado, divertido e, por vezes, alarmado os Franceses. Como arqueólogo, autor de romances revolucionários, viajante e conversador inveterado, herói da guerra, esteta e ministro gaulista, é o seu único aventureiro de primeira classe ainda vivo» (O Que Faço Eu Aqui?, Bruce Chatwin. Tradução de José Luís Luna e revisão de Carlos Pinheiro. Lisboa: Quetzal Editores, 2009, p. 130).
      Mas os termos derivados de nomes estrangeiros não mantêm as características da grafia original? E este não tem dois ll? Apesar do contexto, o leitor é naturalmente levado a pronunciar mal o vocábulo. Assim, pouco falta para se escrever «galista», o criador e treinador de galos de briga.

[Post 3471]

«Pampa»: masculino ou feminino?

De evitar


      «Andou aos pulos toda a manhã, debaixo de um sol escaldante, passando de uma linha para a outra sem nunca pisar a superfície castanha do pampa» (O Que Faço Eu Aqui?, Bruce Chatwin. Tradução de José Luís Luna e revisão de Carlos Pinheiro. Lisboa: Quetzal Editores, 2009, p. 116). «Demorámos mais de uma hora a procurar o pampa devido» (idem, ibidem, p. 117).
      Nem tudo o que está certo está bem: lembremo-nos, só a título de exemplo, do caso do topónimo Pompeia, que alguns querem que se escreva Pompeios. No caso de hoje, o Dicionário Houaiss regista, e julgo que é o único (mas o Aulete Digital di-lo unicamente masculino), que o vocábulo «pampa» tem dois géneros, mas optar pelo género masculino vai contra toda a tradição. Ganha-se alguma coisa com essa opção? Nada.

[Post 3470]

Ortografia: «preênsil»

Agarra-te


      «Um macaco-aranha da Amazónia com uma cauda prênsil enrolada para cima numa espiral» (O Que Faço Eu Aqui?, Bruce Chatwin. Tradução de José Luís Luna e revisão de Carlos Pinheiro. Lisboa: Quetzal Editores, 2009, p. 110).
      Os revisores têm de apreender esta verdade simples: com palavras raras, só de dicionário na mão. Se ainda por cima não têm sequer umas tinturas de latim e grego, cuidado redobrado. Há duas semanas fui ao Jardim Zoológico e, em frente à jaula de um qualquer símio pendurado pela longa cauda negra, usei essa palavra, tendo articulado bem os dois ee para ser bem percebido.

[Post 3469]

«Carnaval/carnaval»

É um carnaval


      «Com esta precisa distinção dialéctica, ela equipara a roupa daquele costureiro a trajes de carnaval» (O Que Faço Eu Aqui?, Bruce Chatwin. Tradução de José Luís Luna e revisão de Carlos Pinheiro. Lisboa: Quetzal Editores, 2009, p. 104).
      No Brasil é que se grafa com inicial minúscula o vocábulo quando se refere à quadra festiva. A propósito desta questão, escreve o Prof. Sacconi no seu blogue: «Sempre com inicial minúscula: carnaval. Não há necessidade nenhuma desta palavra vir com inicial maiúscula. A mídia, no entanto, continua usando-a com inicial maiúscula. Explicar por quê, ninguém sabe.» De facto, o Formulário Ortográfico de 1943 estatui que se deve grafar com inicial minúscula o nome de festas pagãs e populares. Em Portugal, a Base XXXIX do Acordo Ortográfico de 1945 manda grafar com maiúscula inicial o nome de todas as festas públicas tradicionais, e até exemplifica com Carnaval. Com o Acordo Ortográfico de 1990, continua a ser assim, embora, única diferença, já não se exemplifique com o nome desta festa (vide Base XIX, 2.º, e)).

[Post 3468]

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