Escravista/escravagista/esclavagista

Felizmente


      «A vedeta não se parecia nada com um escravista brasileiro, lembrando mais uma matrona europeia, velha e rabugenta» (O Que Faço Eu Aqui?, Bruce Chatwin. Tradução de José Luís Luna e revisão de Carlos Pinheiro. Lisboa: Quetzal Editores, 2009, p. 14).
      Houve um tempo em que, decerto por medo de ser-se diferente, só se escrevia «esclavagista», ainda que se tivesse consciência de que era um galicismo (de esclavagiste). Além destes dois termos, o Dicionário Houaiss regista ainda escravagista, o que parece um meio-termo. Há ainda um sinónimo menos usado: escravocrata.

[Post 3459]

Ortografia: «sovieto-moçambicano»

Atentado ou acidente?


      Esta capa apócrifa, que aparece, por exemplo, na Wook, é que era a correcta. Há menos de meia hora, estive numa livraria e o que se pode ler na capa é «Páginas desconhecidas das relações soviético-moçambicanas». Correcto aparece ainda no blogue do autor, José Milhazes («O livro sobre “páginas desconhecidas das relações sovieto-moçambicanas” vai ser publicado pela editora Aletheia [sic], a quem agradeço desde já o apoio concedido.») e no convite para o lançamento. Já aqui referimos casos semelhantes, ficando o primeiro adjectivo truncado: sino-japonês, dano-chinês, nigero-congolês... Sovieto-moçambicano, pois. Percebo que no convite figure já a correcção, mas não na Wook. E talvez não se possa culpar o revisor, Helder Marques, pois não poucas vezes os editores — pelo menos até aparecer algum reparo numa recensão ou mensagens de correio electrónico de leitores indignados — não dão as capas a rever.

[Post 3458]


Actualização em 13.11.2010

      «E imagina-se mal que as rádios e as televisões concorrentes da RTP, e até os demais media, possam continuar a ser clientes da Lusa. Até porque o País viveria então num quase-regime sovieto-chinês!» («Uma absurda “agregação”», J.-M. Nobre-Correia, Diário de Notícias, 13.11.2010, p. 66).

Tradução: «beignets»


Não engulo isto


      «Durante quase uma semana, não cozinhei nem comprei mercearias. Em vez disso, todas as nossas várias famílias levaram-nos, a mim e ao Eric, a comer comida mexicana, churrasco e beignets» (Julie&Julia, Julie Powell. Tradução de Fernanda Oliveira e revisão de Eda Lyra. Lisboa: Bertrand Editora, 2.ª ed., 2009, p. 162). E a tradutora entendeu fazer uma nota a beignets: «Uma variedade francesa de donuts
      Duvido. O contexto não autoriza a tradutora a dizer que são beignets aux pommes: «Entremets composé uniquement de pâte à chou ou à brioche, gonflée dans la friture chaude» (in Le Trésor de la Langue Française Informatisée). Donuts... Até parece que não há entre os nossos doces regionais nada parecido com os beignets aux pommes. Mas enfim, são sinais dos tempos. O que Julie e Eric comeram terá sido mesmo beignets: «Mets ou entremets composé de viandes, légumes, fruits, poissons, enrobés de pâte à frire et passés ensuite à la friture chaude» (idem).
      Nota final: eu não escreveria o plural «mercearias», pois «mercearia» é um colectivo: conjunto de géneros alimentícios. (E sim, sei o que regista o Dicionário Houaiss.)

[Post 3457]

Nome das castas de uvas

Com o tempo maduram as uvas


      «O que também ajuda é um vinho australiano barato, desde que não se importe de acordar com a boca seca às três da manhã, com o último jarro de água Poland Spring a acabar e a amaldiçoar o nome shiraz» (Julie&Julia, Julie Powell. Tradução de Fernanda Oliveira e revisão de Eda Lyra. Lisboa: Bertrand Editora, 2.ª ed., 2009, p. 192). E a tradutora entendeu fazer uma nota «ao nome shiraz»: «Casta de uva muito utilizada na Austrália.»
      Três notas. Primeira: os nomes das castas de uva grafam-se com maiúscula inicial (e com hífen se o nome for composto: Antão-Vaz, Fernão-Pires, Ferro-Pau, Gonçalo-Pires...). Segunda: os nomes das castas de uva não se grafam em itálico. Terceira: «Casta de uva muito utilizada na Austrália»? Bem, é mais utilizada na Europa, onde tem as suas origens sob o nome Syrah.

[Post 3456]

Léxico: «bicurioso»

Moda ou talvez não


      Tinha de chegar cá através das traduções: «Ainda bem que para mim, embora talvez seja mau para a Gwen, que não passo de uma secretária solitária, que mora nos subúrbios e gosta de vodka e de cigarros, em vez de ser... sei lá, uma stripper bicuriosa e ligeiramente viciada em cocaína — fico com a sensação de que, com tamanho potencial para o desastre, a Gwen faria valer os seus dotes como uma espécie de personagem shakespeariana corruptora da inocência» (Julie&Julia, Julie Powell. Tradução de Fernanda Oliveira e revisão de Eda Lyra. Lisboa: Bertrand Editora, 2.ª ed., 2009, p. 137). Numa nota de rodapé, a tradutora explica o neologismo, do inglês bi-curious: «Termo usado em relação a alguém que não se identifica como bissexual ou homossexual, mas mostra alguma curiosidade numa relação com alguém do mesmo sexo.»
      Será que o Grande Dicionário Sacconi da Língua Portuguesa (São Paulo: Editora Nova Geração, 2010), com 2088 páginas e 200 mil verbetes actualizados, acolhe o neologismo?

[Post 3455]

Letras k, w, y

Ora, ora


      «Nesta tradução, a transcrição fonética das letras russas foi feita para ser lida à portuguesa, não utilizando as letras w e y. A utilização da letra k justifica-se não só por não causar dificuldades de leitura, como também por ser indispensável em sons que exigem aspiração (kh). (N. do T.)» (A Filha de Rasputine, Robert Alexander. Tradução de Óscar Mascarenhas. Lisboa: Círculo de Leitores, 2007, p. 9).
      E a letra y oferecerá, acaso, dificuldades de leitura? A minha filha, agora com 3 anos e 2 meses, conhece há um ano todo o alfabeto «reformado» (já com o k, w e y incluídos com o Acordo Ortográfico de 1990), e ao y chama, conforme lhe ensinei por ser mais fácil para ela, i grego. Não sabe de cor, evidentemente, todo o alfabeto — mas também adolescentes no Ensino Secundário não o conhecem de cor, e por isso não sabem consultar um dicionário. Mas concordo com a opção do tradutor (que grafou Puchkine, Kerenski, etc.), não com a justificação. Em rigor, só a letra w poderá oferecer dificuldades ao falante da língua portuguesa, pois ora é consoante, ora é vogal, consoante a língua de origem do vocábulo de que faz parte.

[Post 3454]

Ortografia: «protobloguista»

Assim é que não


      «Alguns bloguistas são capazes de dizer que Samuel Pepys foi uma espécie de proto-bloguista, mas não somos pessoas muito comedidas, por isso, se fosse a vocês, não nos dava ouvidos» (Julie&Julia, Julie Powell. Tradução de Fernanda Oliveira e revisão de Eda Lyra. Lisboa: Bertrand Editora, 2.ª ed., 2009, p. 104).
      Isto de um revisor, e há, incompreensivelmente, muitos casos, se recusar a consultar dicionários e gramáticas tem muito que se lhe diga. Por analogia, pois claro. Se tivesse consultado o Dicionário Houaiss, por exemplo, teria visto protobanto: «diz-se de ou língua ancestral, histórica ou hipotética, da qual derivou o conjunto de línguas do grupo nigero-congolês oriental, dito banto». Um revisor não pode falhar nestes aspectos elementares de uma revisão. E sobretudo não pode descansar no tradutor. Este é que mais legitimamente o pode fazer, pelo menos em relação a estes aspectos ortográficos (não é por acaso que na ficha técnica de obras publicadas por certas editoras se lê «revisão ortográfica»).

[Post 3453]

«Passados alguns dias»

Olhe que não


      «Tudo aquilo foi tão excitante e dramático que só passado alguns dias é que comecei a sentir o peso de ter conhecimento dessa Outra Mulher» (Julie&Julia, Julie Powell. Tradução de Fernanda Oliveira e revisão de Eda Lyra. Lisboa: Bertrand Editora, 2.ª ed., 2009, p. 102).
      Senhora tradutora, senhora revisora: «passado» concorda com que palavra? Nenhuma? Com que então poderá ter adquirido «valor preposicional», hã? Não se diga tal. A língua portuguesa tende sempre — é uma verdade tão evidente que eu próprio às vezes me esqueço dela — para a concordância, e não se queira agora transpor para a escrita todo o desleixo, toda a espontaneidade, toda a liberdade da oralidade. Ela pode não aguentar. Nem nós.

[Post 3452]

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