Ortografia: «Zona Euro»

Pois, pois


      Qual é o «jornal de referência»?
      «A ajuda financeira da zona euro à Grécia far-se-á segundo as condições da Alemanha, ou não se fará: Angela Merkel, chanceler alemã, não o disse nestes termos, mas foi isso que aconteceu desde que o cenário de um socorro a Atenas se impôs na agenda» («Grécia vai receber ajuda da zona euro nas condições da Alemanha», Isabel Arriaga e Cunha, Público, 2.5.2010, p. 12).
      «A inflação homóloga na Zona Euro manteve-se estável em Fevereiro, nos 3,2%, segundo a estimativa rápida divulgada ontem pelo gabinete de estatísticas das Comunidades Europeias, Eurostat» («Inflação da Zona Euro mantém-se estável nos 3,2%», Meia Hora, 4.3.2008, p. 9).
      «O Banco Central Europeu (BCE) decidiu ontem manter a taxa de juro de referência da Zona Euro nos quatro por cento» («BCE mantém taxa de juro nos quatro por cento», Metro, 7.3.2008, p. 5).

[Post 3411]

Tradução: «heating/chauffage»

Ao lado


      «Uma sensação de frio, mais intensa do que o aquecedor do carro» (O Fim do Senhor Y, Scarlett Thomas. Tradução de Inês Castro e revisão de Duarte Camacho. Lisboa: Círculo de Leitores, 2008, p. 279).
      Se com aquecedor a tradutora pretende traduzir o termo inglês heating, acho que a opção não foi a melhor. Temos sorte, eu sei (mas nunca esta tradutora faria isso), de não ter traduzido, como já tenho visto, um vocábulo inglês com um galicismo: chauffage. Deveria, contudo, ter optado por «aquecimento» em vez de «aquecedor».

[Post 3410]

Noutra obra inglesa, leio esta frase: «The heater hummed as a creeping snowfall came down.» A tradutora quis que fosse isto: «A calafetagem emitia um sussurro enquanto caía uma neve progressiva.»

Tradução: «bullying»

Louvável


      «São todas para um doutor Mitchell, sobre assuntos como propinas, intimidação no colégio e aulas extras» (O Fim do Senhor Y, Scarlett Thomas. Tradução de Inês Castro e revisão de Duarte Camacho. Lisboa: Círculo de Leitores, 2008, p. 263).
      Já conhecemos a preferência, nem sempre coerente, e muitas vezes ousada, desta tradutora pelo aportuguesamento de estrangeirismos. Neste caso, é mais do que isso: é querer, o que é louvável, substituir um estrangeirismo, bullying, por um termo português, «intimidação», proposta que já aqui tínhamos visto, e bem longe de invenções ridículas. Eu sei: talvez tenha sido mais fácil resistir porque na altura o anglicismo não tinha a presença que tem hoje nos meios de comunicação.

[Post 3409]

Tradução: «draft»

E o contexto?


      «Os democratas avançaram com um rascunho de 26 páginas com as suas ideias para a reforma. O primeiro passo, dizem, deve ser o reforço da segurança da fronteira. O segundo diz respeito à situação dos trabalhadores que vivem nos EUA ilegalmente: “Terão que identificar-se perante as autoridades, aprender inglês, pagar impostos, exibir um registo criminal limpo e ir para o fundo da lista dos pedidos de visto”, enumerou Harry Reid» («Milhares de norte-americanos protestam contra nova lei de imigração do Arizona», Rita Siza, Público, 2.5.2010, p. 12).
      Creio que nunca li um artigo desta jornalista sem erros. Hoje são vários, mas escolhi um de que já aqui tinha falado: a tradução do vocábulo inglês draft. Se o podemos traduzir por desenho, esboço, borrão, rascunho, também o podemos traduzir por minuta ou, como no excerto do artigo citado, por projecto. Tem sempre de se atender ao contexto.

[Post 3408]

Anglicismo: «major»

Para quê?


      «A par da mão-de-obra qualificada, avançam para Angola investidores que tentam expandir ou criar as suas empresas. O sector da construção civil e das obras públicas é o maior empregador, graças à posição que as majors portuguesas conquistaram no mercado angolano» («Remessas de Angola para Portugal aumentaram cinco vezes desde 2004», Ana Cristina Pereira, Público, 2.5.2010, p. 2).
      Qual a necessidade de usar o anglicismo? E quantos leitores compreendem exactamente (esqueçamos a intuição) do que se trata? Na definição do Merriam-Webster, major é «one that is superior in rank, importance, size, or performance: economic power of the oil majors».

[Post 3407]

Ortografia: «rodoferroviário»

Assim não


      Há uns tempos, asseguraram-me, mas foi fonte anónima, que o jornal Público não tinha revisores aos fins-de-semana. Mas era um manifesto exagero: talvez não os tenha também durante a semana. Apesar de o circuito de validação e edição das notícias incluir vários profissionais, nenhum domina o código de escrita — afirmação que vale mesmo que, ao contrário do que os rumores dizem, os textos sejam revistos. Seja o caso da notícia sobre a nova travessia do Tejo: «O documento de 2007 considera três cenários para a TTT — ferroviária, rodo-ferroviária e rodo-ferroviária faseada — sendo que esta última hipótese era considerada a mais ruinosa» («Nova ponte sem rodovia fica mais barata, mas perde receitas», Carlos Cipriano, Público, 2.5.2010, p. 19). Um jornalista não deveria procurar saber como se escreve o adjectivo assinalado? Claro que devia, e encontrá-lo-ia dicionarizado com a grafia rodoferroviário. No fundo, estes casos não revelam apenas o desmazelo do jornalista, mas de todo o jornal, além de falta de respeito pelo leitor.

[Post 3406]

Luisiana/Louisiana

Vamos ver


      «Depois da Luisiana, a Florida também declarou o estado de emergência devido à maré negra que cresce no golfo do México. O petróleo, que ontem já tinha alcançado a costa dos Estados Unidos, pondo em perigo espécies que vivem em vários parques naturais, levou a Casa Branca a banir novas explorações petrolíferas no mar até que sejam averiguadas as causas deste desastre» («Estado de emergência na Luisiana e na Florida após petróleo ter alcançado a costa», Nicolau Ferreira, 1.5.2010, Público, p. 19). Vamos ver se se mantém esta forma de escreverem o topónimo (e o género). Não acredito, claro. «O antigo congressista democrata do estado do Louisiana, William Jefferson, foi condenado a 13 anos de prisão num processo de corrupção que as autoridades descreveram como o “mais extenso de sempre” no Congresso norte-americano» («Antigo congressista do Louisiana condenado a 13 anos por corrupção», Público, 15.11.2009, p. 15).

[Post 3405]

Sangue-frio/sangue quente

Um pouco cruento


      Leonete Botelho, jornalista do Público, escreve hoje que o «primeiro-ministro foi ontem ao Parlamento defender que, perante os “ataques especulativos que nada na economia portuguesa justifica”, é preciso manter o “sangue frio e nervos de aço”, como dizia Guterres, e continuar fiel aos seus planos». Sendo assim, o título só podia ser, a toda a largura da página 6, «Sangue frio, nervos de aço e obras públicas». Há-de ser porque Nuno Ribeiro, na página 18, falou da violência contra as mulheres («Mais violência contra as mulheres no Centro e Norte da Europa do que no Sul»), concluindo: «“A ideia do ‘sangue quente’ dos países meridionais não se confirma, afinal não passa de um mito”, sintetiza ao PÚBLICO José Sanmartín, director do IRCS [Centro Rainha Sofia].» Estes erros sistemáticos estão na massa do sangue do Público, essa é que é essa.

[Post 3404]

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