Ortografia: «criptoprovedor»

Nada críptico


      «Bem sei que a Lusa se restringe aos factos (e que o texto da notícia contém tudo o que precisamos de saber) mas, sem querer armar-me em cripto-provedor, o “ex-cabo nazi” dá a ideia dele ter deixado de ser nazi e o “fundou culto no Chile” tem um toque triunfalista que, para quem não lê os corpos das notícias, atira para segundo ou terceiro plano o facto de ter abusado sexualmente de 25 crianças, graças ao “culto” que fundou» («Uma vergonha», Miguel Esteves Cardoso, Público, 27.4.2009, p. 39).
      Miguel Esteves Cardoso deveria ter escrito criptoprovedor, pois o elemento de formação de palavras cripto- só se liga por hífen ao segundo elemento quando este começa por h. Então o Miguel já não se lembra dos criptopórticos? E o criptopórtico das Galerias Romanas da Rua da Prata?

[Post 3393]

Português-padrão

Ai, credo!


      Nos Dias do Avesso de hoje, Isabel Stilwell descobriu algo de crucial: ela pronuncia /consâilho/ e Eduardo Sá pronuncia /consêlho/. Esta é que é a verdadeira fractura social entre nós. Os lisboetocêntricos decretaram que só a primeira pertence ao português-padrão, e um dia, se puderem, levam (ou já levaram?) isto para a escrita, e então é que os outros ficarão, mesmo sem abrirem a boca, expostos no seu falar dialectal. Não vejo melhor motivo para uma guerra civil.

[Post 3392]

Ordinal de 5000 milhões

Ordem!

      A pergunta de um leitor é muito sucinta: «Como se escreve o ordinal de 5000 milhões?» Há-de ser por extenso que o leitor pretende saber, pois abreviado é demasiado simples: 5000 000 000.º Por extenso, e quase todas as gramáticas ignoram esta questão, é quinto milésimo milionésimo. Não perguntei ao leitor para que queria saber, mas podia muito bem tratar-se de uma aposta.

[Post 3391]

Conceitos

Não me arrependo


      Podemos arrepender-nos por faltas cometidas por terceiros? Podem os Alemães, por exemplo, estar arrependidos por Hitler ter mandado matar milhões de judeus? Há jornalistas do Público que pensam que sim: «O ministro dos Negócios Estrangeiros, David Miliband, declarou-se, segundo o seu gabinete, “horrorizado” e o embaixador britânico no Vaticano, Francis Campbell, encontrou-se com responsáveis da Santa Sé para apresentar as desculpas de Londres. Face ao incidente, segundo a edição on-line do Times, conselheiros do Papa estarão já arrependidos de o líder católico ter aceite o convite para visitar o país» («Gaffe obriga Londres a pedir desculpas ao Vaticano», João Manuel Rocha, Público, 26.4.2010, p. 14).
      Como as cerejas... Na Sic Notícias, Ana Lourenço, quando se despede dos entrevistados, agradece sempre com um «obrigada por ter aceitado», e se se engana corrige. Mário Crespo diz sempre «ter aceite».

[Post 3390]

Como se escreve nos jornais

Beneficência, beneficência...


      «O Foreign Office, Ministério britânico dos Negócios Estrangeiros, apresentou desculpas ao Vaticano, na sequência da divulgação de um documento oficial em que se aconselhava o Papa a lançar a sua própria marca de preservativos, “Benedict”, abençoar um casamento homossexual e inaugurar uma clínica de aborto, por ocasião da visita ao Reino Unido, agendada para Setembro» («Gaffe obriga Londres a pedir desculpas ao Vaticano», João Manuel Rocha, Público, 26.4.2010, p. 14).
      Salvo melhor opinião, isto é tontice: se se supõe, e talvez se suponha erradamente, que é do conhecimento do leitor o que significa Foreign Office, para que se traduz logo de seguida? Ah, sim, e é Ministério dos Negócios Estrangeiros britânico. Leiam o que o Correio da Manhã publicou: «Depois de ter sido desvendado o conteúdo do documento enviado a funcionários públicos e ao gabinete do primeiro-ministro, Gordon Brown, o Ministério dos Negócios Estrangeiros emitiu um comunicado onde pede desculpa ao Papa e ao Vaticano pelo sucedido. No mesmo documento, o ministro do gabinete em causa demonstra-se “horrorizado” e garante que o funcionário em questão já foi transferido para outra secção» («Londres pede desculpa ao Vaticano», P. M. C., Correio da Manhã, 25.4.2010).
      Infelizmente, o jornalista do Correio da Manhã embaçou completamente a imagem ao escrever «beneficiência» em vez de «beneficência»: «O semanário ‘The Sunday Telegraph’ teve acesso ao documento que sugeria ainda que fosse criada uma linha telefónica de apoio às vítimas da pedofilia e que o Papa cantasse com a rainha Isabel II com o objectivo de recolher fundos para organizações de beneficiência.»

[Post 3389]

Como se escreve nos jornais

Ninguém vê?


      Quando se trata da língua inglesa, prefiro, por exemplo, o The Times, e este jornal escreve Lib Dems. «The Lib Dems are ten points up at 31 per cent since last week, while the Tories are down four points at 32 per cent and Labour is on 28 per cent, down five points.» O Público, que só deveria escrever liberais-democratas, porque afinal Portugal não é uma colónia britânica, mete os pés pelas mãos. Vejam: «Em contrapartida, o crescimento dos lib-dem “conduzirá a maior indecisão” e pode até deixar o país “atolado no mesmo sítio”, afirmou, numa alusão a um eventual entendimento entre Clegg e o primeiro-ministro, Gordon Brown» («Cameron revê táctica para combater subida dos Liberais Democratas nas sondagens», Ana Fonseca Pereira, Público, 21.4.2010, p. 16). «“É ridículo”, criticou ontem no talk show político televisivo Andre Marr Show, da BBC, avisando já o primeiro-ministro, Gordon Brown, de que não conte com o apoio dos libdem num cenário em que os trabalhistas consigam o maior número de assentos no Parlamento, apesar de não serem o partido mais votado» («Líder dos libdem britânicos avisa que não apoiará os “irrelevantes” trabalhistas», Público, 26.4.2010, p. 14).

[Post 3388]

Aportuguesamentos

Vai um capuchino?

Qual o critério?


      «O chão parece estar forrado de parquet escuro envernizado, mas mal se consegue vê-lo devido a toda a serradura» (O Fim do Senhor Y, Scarlett Thomas. Tradução de Inês Castro e revisão de Duarte Camacho. Lisboa: Círculo de Leitores, 2008, p. 213).
      Compreende-se mal esta opção pelo galicismo parquet. O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa regista três variantes no aportuguesamento: parqué, parquê e parquete. E compreende-se mal porque a tradutora optou por motar (motard), flache (flash), balé (ballet), capuchino (cappuccino), holígane (hooligan)...

[Post 3387]

Léxico: «plásmico»

Poucas escapam


      «Na fornalha do Big Bang, o hidrogénio foi o primeiro elemento a formar-se a partir do caldo plásmico quente de electrões e protões» (O Fim do Senhor Y, Scarlett Thomas. Tradução de Inês Castro e revisão de Duarte Camacho. Lisboa: Círculo de Leitores, 2008, p. 137).
      Nem o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa nem o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora registam o vocábulo plásmico, mas somente plasmático. O Dicionário Houaiss, contudo, regista ambos os adjectivos.

[Post 3386]

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