«Sujeira» e «puxa»

Deixá-lo!


      Há um surto de brasileirismo por aí. Há dias, foi o cair na real. Agora isto: «Estão poeirentos por estarem nas prateleiras há tanto tempo e em breve as minhas mãos estão quase pretas da sujeira que sai deles» (O Fim do Senhor Y, Scarlett Thomas. Tradução de Inês Castro e revisão de Duarte Camacho. Lisboa: Círculo de Leitores, 2008, p. 105). «— Puxa. A homeopatia já existia na altura?» (idem, ibidem, p. 120). Tanto o substantivo sujeira, em vez de sujidade, como a interjeição puxa, em vez de, por exemplo, caramba, são marcas, escusadas na tradução de uma obra publicada em Portugal, da variante brasileira do português. Fico perplexo é com a negligência dos revisores.

[Post 3385]

«Sem-abrigo» pluraliza?

Não varies


      Foi só um lapso, prontamente corrigido, mas alguém disse logo: «Estás a ver? É como se deve, ou devia, dizer.» Agora, lapso ou não (esta tradutora é suficientemente descuidada — e todos os revisores colaboram — para se pensar que é mero lapso), encontro-o de novo: «Depois do castelo existe uma passagem subterrânea por baixo da estrada da circunvalação e se a atravessarmos podemos andar ao longo do rio em direcção à auto-estrada, passando pela torre do gás e o acampamento para sem-abrigos que vivem em tendas» (O Fim do Senhor Y, Scarlett Thomas. Tradução de Inês Castro e revisão de Duarte Camacho. Lisboa: Círculo de Leitores, 2008, p. 62). Mas sem-abrigo é invariável, como sem-papéis, sem-tecto, sem-terra, sem-vergonha...

[Post 3384]

Género de «jeans» II

Tudo como dantes


      «Não acordo senão às dez, a tremer nos meus jeans e camisola no sofá, com uma luz forte de Inverno a derramar-se sobre mim através da janela da cozinha» (O Fim do Senhor Y, Scarlett Thomas. Tradução de Inês Castro e revisão de Duarte Camacho. Lisboa: Círculo de Leitores, 2008, p. 169). «Apanha-o e guardo-o no bolso das minhas jeans» (ibidem, idem, p. 185).
      Passado um ano, volto a esta questão do género de jeans. Contudo, agora não é para assinalar a desconformidade entre o que registam os dicionários e o uso na escrita, mas a incoerência de uso na mesma obra, uma tradução, mais uma vez. E, ao contrário do que prometia um leitor, os dicionários da Porto Editora não passaram a classificar jeans (nem pop) como substantivo de dois géneros.

[Post 3383]

Frase interrogativa

Interrogo-me


      «— Não faças isso. Que se lixe a física teórica. Vem fazer um doutoramento comigo. Presumo que ainda não o tenhas?» (O Fim do Senhor Y, Scarlett Thomas. Tradução de Inês Castro e revisão de Duarte Camacho. Lisboa: Círculo de Leitores, 2008, p. 34).
      Só me pergunto, como já o fiz em relação a outra tradução, porque é que aquela frase é interrogativa. Se a tradutora e o revisor também se interrogaram, então não chegaram à conclusão a que eu cheguei. Chegaram, sim, à conclusão a que chegou Jorge Candeias. Mesmo que admitisse que, neste caso concreto, a frase deveria ser pronunciada como se tratasse de uma interrogativa, o facto de só poder utilizar, para o mostrar, o ponto de interrogação torná-la-ia incorrecta. Há uma terceira via?

[Post 3382]

Verbo «sociabilizar»

Incompleto


      «Nenhum de nós tentou sair do nosso canto e juntarmo-nos aos outros: não sou muito boa a sociabilizar e muitas vezes ofendo as pessoas por acidente; não sei qual era a razão de Burlem — talvez simplesmente ainda não tivesse sido ofendido por mim» (O Fim do Senhor Y, Scarlett Thomas. Tradução de Inês Castro e revisão de Duarte Camacho. Lisboa: Círculo de Leitores, 2008, p. 27).
      É mais um problema lexicográfico: somente o Dicionário Houaiss apresenta o verbo sociabilizar como transitivo e pronominal — tornar(-se) social, reunir(-se) em sociedade, em grupos —, o que de facto é, ao contrário de outros, como o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa ou o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Imagino que possa ser um obstáculo de monta para o falante menos habituado a consultar dicionários.

[Post 3381]

Tradução

De férias no Rio


      «“Precisas de cair na real, Nick”, disse-lhe Brown referindo-se à proposta dos lib-dem de não renovar o sistema de armas nucleares Trident.» Quem escreveu esta frase foi a jornalista do Público Ana Fonseca Pereira, num artigo («Debate renhido mantém corrida eleitoral a três», p. 18) sobre o segundo debate da campanha eleitoral britânica. A pergunta é óbvia: a jornalista não tinha uma forma portuguesa de traduzir a frase? Nem é preciso supor que em inglês é ou deixa de ser to face the truth, pois percebe-se a ideia. Não teria sido melhor optar por «desça à Terra» ou «enfrente as coisas»?

[Post 3380]

Abreviatura de «superintendente»

Tem lá em casa


      Uma bancária brasileira, Luciane Bassoli de Assunção, queria saber qual a abreviatura de «superintendente». E, como estava em maré de pedir, ainda acrescentou: «Vocês têm um dicionário geral de abreviaturas para me enviar?» Ora, no Brasil há muito melhores dicionários de abreviaturas do que em Portugal, que eu já aqui divulguei. O especialista em abreviaturas do Ciberdúvidas, D´Silvas Filho, não conhecia, mas recomendou: «Sugiro Superint. para superintendente; sempre se evitam algumas letras. Para colectânea de abreviaturas, recomendamos o Anexo muito completo do VOLP da sua Academia, com o título “Reduções mais correntes”.»
      No Dicionário de Abreviaturas publicado pela Prefeitura da cidade de São Paulo, que se pode descarregar aqui, indica-se Suprint, sem ponto de abreviação. Sugiro, corrigindo esta forma, Suprint., com ponto. (Aqui encontra uma lista de abreviaturas para a língua espanhola.)

[Post 3379]

«Não» como elemento de formação

Ontem e hoje


      Só nas edições de ontem e de hoje, e apenas no caderno principal e sem considerar flexões e repetições, veja-se quantas vezes e com que vocábulos se usou o advérbio não como elemento de formação no jornal Público. Sem critério, a eito, é o que se pode concluir.


  1. «“Limitei-me a analisar o que me pediam para analisar”, adiantou o advogado, acrescentando que nunca perguntou a Rui Pedro Soares “com que vestes” lhe pedia aquele parecer, se como administrador executivo da PT, se como administrador não-executivo da Taguspark» («Paulo Penedos garante ter agido sempre a pedido de Rui Pedro Soares», Ana Brito, Público, 22.4.2010, p. 6).

  2. «“O chefe de Estado deve receber tanto o líder tibetano como qualquer outro líder religioso católico ou não-católico, visto até do campo da cidadania. No entanto, não tem de haver um distanciamento devido ao princípio da laicidade. Por isso, defendemos que o Presidente da República deve acompanhá-lo somente na posição de chefe de Estado”, esclareceu [Joffre Justino, presidente da Academia de Estudos Laicos e Republicanos]» («Laicos pedem a Cavaco que veja Papa só como estadista», Tânia Marques, Público, 22.4.2010, p. 9).

  3. «Devem, no entanto, respeitar algumas regras, como a não-discriminação na atribuição dessas ajudas» («Comissão Europeia pondera auxílio financeiro», Raquel Almeida Correia, Público, 22.4.2010, p. 14).

  4. «As características construtivas e de equipamento que vão ser utilizadas na sua recuperação colocam as novas unidades de alojamento na gama média-alta da oferta de hotelaria não-convencional, inseridas na área do turismo de natureza» («Onze escolas abandonadas de Odemira serão transformadas em alojamento turístico», Carlos Dias, Público, 22.4.2010, p. 26).

  5. «Mas aquele incêndio, um sério revés, foi também um sinal da urgência do trabalho que estava e continua a ser realizado por esta organização não-governamental ligada geneticamente aos holandeses da Fundação Transumância e Natureza que, em 2000, começou a comprar terrenos nas freguesias de Algodres e Vale Afonsinho para criar uma área para a conservação das aves rupícolas» («Aqui está a nascer a primeira reserva natural privada em Portugal», Abel Coentrão, Público, 22.4.2010, p. 44).

  6. «O diploma aprovado ontem em Conselho de Ministros agrava a tributação das mais-valias mobiliárias, mas mantém as actuais isenções aos contribuintes não-residentes em Portugal e das cúpulas dos grupos económicos, por onde passa parte significativa desses rendimentos» («Grandes grupos económicos vão ficar isentos das mais-valias», João Ramos de Almeida, Público, 23.4.2010, p. 2).

  7. «“Não vigora nenhum regulamento discriminatório deste tipo”, esclarecia ontem o BE, frisando que a câmara aprovou, em 17 de Fevereiro, “um novo regulamento para habitação social, utilizando critérios de igualdade, sem qualquer artigo discriminatório de cidadãos não-nacionais, em conformidade com os princípios constitucionais”» («Governo promete acabar com discriminação de imigrantes no acesso à habitação social», Filomena Fontes, Público, 23.4.2010, p. 12).

  8. «E alertava para uma situação paradoxal: enquanto perto de 39 mil pessoas com patologias não-prioritárias conseguiram ser operadas em menos de sete dias, cerca de dez mil doentes com cancro (que deve ser prioritário) tinham sido tratados após os prazos definidos para as cirurgias» («Em 2008, 233 doentes morreram antes da operação», A. C., Público, 23.4.2010, p. 14).

  9. «“É urgente confrontá-lo com a posição dos diversos grupos parlamentares, assim permitindo que o seu isolamento se evidencie”, sublinham os comunistas, que lamentam que o PS tenha inviabilizado a votação de um diploma que determinava a não-consideração dos efeitos da avaliação de desempenho como critério na elaboração da lista de graduação nacional dos professores» («Peso da avaliação para os professores contratados discutido hoje no Parlamento», Graça Barbosa Ribeiro, Público, 23.4.2010, p. 15).
[Post 3378]

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