«À contracorrente»

Ainda ontem


      «Na verdade, os vinhos de Colares não foram “relançados”: uma expressão de marketing que tanto insulta a teimosia e a lealdade artesanal da Adega Regional de Colares como a ousadia contra-corrente da Fundação Oriente. Isto sem falar nas Adegas Beira ou no espólio vinícola da Viúva Gomes» («Colares a dançar», Miguel Esteves Cardoso, Público, 22.4.2010, p. 39).
      Escreve-se contracorrente, o revisor do Público tinha obrigação de estar ao corrente. E mesmo assim, «ousadia contracorrente»? Apesar da imprevisibilidade do mundo actual, na gramática ainda se espera que a qualificar um substantivo surja um adjectivo ou uma locução. Ei-la: à contracorrente. Outra vez: «Na verdade, os vinhos de Colares não foram “relançados”: uma expressão de marketing que tanto insulta a teimosia e a lealdade artesanal da Adega Regional de Colares como a ousadia à contracorrente da Fundação Oriente. Isto sem falar nas Adegas Beira ou no espólio vinícola da Viúva Gomes.»

[Post 3377]

Siglas e acrónimos

Reciclem-se


      «Porém, as análises revelaram a concentração desta toxina em níveis superiores ao que está legalmente estabelecido pela agência de segurança alimentar europeia (EFSA). Os únicos e raros casos (terão sido apenas duas das amostras analisadas) encontravam-se na receita da broa, com milho, segundo nota Cristina Matos, do Instituto Superior de Engenharia do Porto» («Estudo confirma presença de toxina no pão e revela amostras de broa que ultrapassaram limites legais», Andrea Cunha Freitas, Público, 22.4.2010, p. 10).
      O leitor fica com a ideia de que EFSA se desdobra no nome da instituição que se lê antes: agência de segurança alimentar europeia. Sendo assim, porém, este tinha de ser grafado com maiúsculas iniciais. Ora, a verdade é que esta instituição se chama Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (AESA). Quem ganha com esta distorção? Ninguém. E há o oposto disto, de que já aqui dei conta: «Tratamento de águas residuais: processo que torna as águas residuais aptas, de acordo com as normas de qualidade em vigor ou outras aplicáveis para fins de reciclagem ou reutilização. Considera-se apenas o tratamento efectuado nas Estações de Tratamento de Águas Residuais (ETAR).» No desdobramento de uma sigla ou acrónimo, só se tem de usar maiúsculas se estiverem envolvidos nomes próprios ou topónimos. Este é um erro que vejo todos os dias.

[Post 3376]

Acordo Ortográfico

Ciberduvidoso

      Uma consulente do Ciberdúvidas, professora, tem dúvidas sobre a grafia do vocábulo «espectador» segundo as regras do Acordo Ortográfico de 1990, afirmando que articula o c. Os consultores, que ultimamente respondem aos pares, respondem que esta palavra passará a ter duas grafias: espetador e espectador. E acrescentam: «Em Portugal, contudo, a questão só quando o AO estiver em vigor poderá levantar-se; por enquanto, escreve-se apenas espectador.» Mas não está já em vigor, depois da ratificação por três Estados do Acordo Ortográfico e do Segundo Protocolo Modificativo? Ou vamos passar a destrinçar «em vigor» de «mesmo em vigor»?
      Para se redimirem, os consultores ainda advertem: «Assinale-se que a pronúncia-padrão desta palavra em português europeu é “espètador”, sem articulação de [k]».

[Post 3375]

«Bispo-auxiliar»?

Trabalhar para o bispo


      «‘There are a lot of divisions in society along racial and ethnic lines, even among our Catholics’, says Bishop Barry Wood, auxiliary bishop of the Archdiocese of Durban.» Estava aqui sossegadinho a traduzir um texto de que faz parte a frase acima e lembrei-me logo disto: «D. Carlos Azevedo, bispo-auxiliar de Lisboa, garante que não haverá problemas de segurança na celebração da missa no Terreiro do Paço, em Lisboa, a 11 de Maio, durante a visita do Papa a Portugal» («Afastados problemas de segurança», Correio da Manhã, 8.4.2010, p. 21). O que é que este auxiliar tem de diferente de adjunto? Nada. Por isso, também não tem de se usar hífen a unir as palavras. E eles sabem.

[Post 3374]

Tradução: «facilities»

Facilitismos


      «Os pisos superiores são dedicados aos quartos. Cada um deles, incluindo os standard, disponibilizam diversas facilidades, mas o que realmente os distingue é o facto de todos eles serem diferentes — não há um único igual, apesar de haver coisas em comum: são bastante espaçosos, uma das paredes é forrada com papel com motivos de época, outra pintada com uma cor diferente mas harmoniosa e o resto respeita a traça original, com a pedra granítica à vista» («Caminho de Santiágua», Paulo Rolão, Evasões/Global Notícias, 21.4.2010, p. 9).
      Mais um falso cognato com lugar garantido nos dicionários de língua portuguesa. No caso, foi Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, que regista o plural facilidades com a acepção «comodidades». Sendo assim, porque não traduzir facilities por comodidades? Se não há uma só palavra para traduzir as várias acepções do termo inglês, dependendo do contexto, neste caso parece estar encontrada.

[Post 3373]

Pronúncia

Psst, garçon


      «O nome correcto do vulcão é Eyjafjallajokull e não Eyjafjalla, como por vezes tem aparecido escrito. A explicação foi-nos dada por Ása Kolka, do gabinete de informação da Universidade da Islândia. O vulcão está por baixo de um glaciar, como muitos outros vulcões da Islândia. Alguns desses vulcões têm um nome próprio, diferente do do glaciar, mas este não. O nome do glaciar e do vulcão são o mesmo: Eyjafjallajokull. Eyja significa ilha, fjalla significa montanhas e jokull é glaciar. Logo, para quem não conseguir pronunciar Eyjafjallajokull, o melhor é dizer que é o vulcão que fica no glaciar das montanhas que ficam perto das ilhas. Obrigada, senhora Kolka» («Cinzas do Eyjafjallajokull mantêm-se sobre a Europa, Atlântico e Canadá», Nicolau Ferreira, Público, 20.4.2010, p. 14).
      Felizmente, na rádio e na televisão os jornalistas não são obrigados a pronunciar o nome do vulcão. Afinal, com palavras bem mais simples eles se atrapalham ou erram. Ainda na semana passada, Mário Crespo entrevistou no Jornal das 9 Fernando Fragoso Marques, candidato a bastonário da Ordem dos Advogados. Às tantas, falou-se do juiz espanhol Baltasar Garzón, de quem Fragoso Marques é amigo. Nunca Mário Crespo pronunciou o nome de outra forma que não /Garçon/.

[Post 3372]

Léxico: «cardiogénico»

Isso pensam eles


      «O médico frisou a gravidade da situação em que se encontra o ex-presidente do COI, revelando que a equipa teme pela vida de Samaranch desde que este foi internado. “Vinte minutos depois de ter dado entrada, sofreu um choque cardiogénico”, revelou o médico» («Médicos temem pela vida de Juan Antonio Samaranch, presidente honorário do Comité Olímpico Internacional», Tiago Pimentel, Público, 20.4.2010, p. 35).
      Só o Dicionário Houaiss nos salva da ignorância (se formos ignorantes em relação ao latim). Cardiogénico significa que tem origem no coração ou que resulta de uma doença ou distúrbio do coração. Tanto o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa como o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora acham que não precisamos de saber.

[Post 3371]

Média/“media”

Mera distracção


      Viva!, o Público aderiu ao plural anómalo: «O jornal lançado em Maio do ano passado vive um momento conturbado. Depois dos donos do título terem assumido, em Março, que poderiam deixar a área dos média, e de buscas até aqui infrutíferas por um investidor que comprasse o i, na semana passada o fundador e director Avillez Figueiredo deixou o cargo, após ter-lhe sido exigido que aplicasse uma redução de custos que “irremediavelmente desfiguram o projecto”» («Director do Grande Porto assume interinamente a direcção do jornal i», Abel Coentrão, Público, 20.4.2010, p. 12).
      Esperem... Foi distracção: «Essa informação é transmitida para centros em todo o mundo, que aplicam um modelo informático para traçar os mapas que nos últimos dias têm sido divulgados nos media» («Cientistas realçam incerteza dos riscos, transportadoras querem voltar a voar», Clara Barata, Público, 20.4.2010, p. 3).

[Post 3370]

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