«À séria», outra vez

Vai ser difícil


      «A empresa neozelandesa Marlborough’s NZ King Salmon, exportadora de salmão, está a aproveitar o facto das rivais europeias não poderem usar o meio aéreo para fazer negócio à séria na Ásia» («A sorte no azar do céu de cinzas», Tiago C. Esteves, Metro, 20.4.2010, p. 2).
      E um jornalista a sério não escreveria assim, uma revisora a sério não deixava sem corrigir... Um leitor a sério só tem de denunciar e repudiar. Pergunto a mim mesmo se esta gente lê alguma coisa.

[Post 3365]

Operário/trabalhador

Pensando bem...


      «Aos 69, Eugene Terre’Blanche foi assassinado por dois operários negros que trabalhavam nas suas terras, no noroeste do país. O crime foi em Ventersdorp, cidade-mãe do Afrikaner Weerstandsbeweging (AWB)» («Um jogo decisivo», Jornal de Negócios, 9.4.2010, p. 1).
      Para mim, operário é a pessoa que tem ofício manual ou mecânico, sobretudo no sector industrial (e dou a definição do Dicionário Priberam da Língua Portuguesa). De uma maneira geral, a imprensa portuguesa referia que se tratava de dois trabalhadores agrícolas ao serviço de Eugene Terre’Blanche. E é logo no Jornal de Negócios que lemos isto...
      Posso estar enganado, mas nunca tinha lido o vocábulo composto cidade-mãe. Não se costuma usar cidade natal?

[Post 3364]

Erratas

De evitar


      Alguém tem saudades das erratas que outrora os livros traziam? O leitor sabia que essas listas dos erros tipográficos num livro, num impresso, etc., com indicação das correcções, por vezes eram maiores do que a própria obra? Faz lembrar o Eugene Onegin de Púchkin anotado por Nabokov. Mas voltando à errata. Recentemente, a Associação de Professores de Português (APP) e a Imprensa Nacional-Casa da Moeda (INCM) co-editaram um livrinho, da autoria de Paulo Feytor Pinto, com o novo acordo ortográfico, e de tal forma fizeram as coisas (e teve dois revisores: Ana Clara Jorge de Sousa e Edviges Antunes Ferreira), que tiveram de inserir a folhinha de errata que reproduzo. Em boa verdade, quase todas as obras precisavam de corrigendas, mas só algumas as merecem. Até poderia ocorrer a algum escritor excêntrico reescrever numa errata todo o enredo de um romance: «Onde se lê x, deve ler-se y

[Post 3363]

Concordância com numerais

Vamos concordar


      Escreve-me um leitor: «“Naquele fatídico ano, foram mortas centenas de civis hutus.” Ou será antes: “Naquele fatídico ano, foram mortos centenas de civis hutus”?» O particípio passivo concorda em género e numero com o sujeito. Se o núcleo do sujeito é um numeral colectivo, como é o caso, a concordância faz-se com o substantivo que o acompanha: «Naquele fatídico ano, foram mortos centenas de civis hutus.» «Centenas de obras de arte foram vistas naquela exposição.»
      A concordância traz sempre algumas dúvidas. Mas há quem tenha teorias muito próprias. A minha filha, com 3 anos acabados de fazer, já me explicou: «Se falarmos com uma senhora, dizemos “obrigada”; se falarmos com um senhor, dizemos “obrigado”.» Já interiorizou que há diferenças, agora só falta afinar as coisas.

[Post 3362]

«Bicha» e «fila»

Preconceitos


      «Obviamente que os Amigos do Facebook não são amigos-a-sério. Mas são-no em potência. São-no de certo modo, e no de certo modo é que está o ganho. Trata-se simplesmente de gente com quem trocar dois dedos de conversa na bicha para o pão» («As faces da fé», Rui Zink, Metro, 19.4.2010, p. 9).
      O revisor antibrasileiro, no último dia que estive com ele, também atribuiu a culpa de se usar fila em vez de bicha aos Brasileiros. João Carreira Bom discordaria.

[Post 3361]

Uso das aspas

Outra triste vez


      «Ainda assim, o correspondente [Peter Wise] acaba por levar um pouco de Portugal ao mundo de cada vez que escreve no Financial Times — conhecido por ser das melhores fontes de informação em assuntos relativos à União Europeia, por ser a leitura de referência dos grandes líderes empresariais e por vir cuidadosamente impresso em folhas cor de rosa [sic] salmão que fazem dele um “periódico superior do Reino Unido” — e na The Economist — revista semanal inglesa que no Verão de 2007 teve uma circulação média superior a 1,2 milhões de cópias semanais (metade da qual na América do Norte). Duas verdadeiras “bíblias” que não deixam ninguém indiferente à informação que veiculam» («As ‘bíblias’ da economia», Ana Pago, Global Notícias, 19.4.2010, p. 8).
      Por qualquer razão, este facto não entra na cabeça de muitos jornalistas: quando se usa uma acepção de um vocábulo que não seja a primeira, aquela em que logo se pensa, não é necessário usar aspas. Com minúscula, bíblia é uma obra que se consulta frequentemente, uma obra fundamental. Mas sem aspas.

[Post 3360]

Léxico: «primo-ministerial»

Sem gáudio


      «Mas apareceram mais uns detalhes, soube-se mais uns pormenores e, acima de tudo, recebeu o povo um comunicado primo-ministerial, tudo convidando a um retomar de atenção, principalmente a um fatigado cidadão pelos cabelos, como eu próprio» («O Gaudi das berças», Fernando Braga de Matos, Jornal de Negócios, 9.4.2010, p. 33).
      Primo-ministerial. Parece um termo burlesco, não é? Mas não: até num recurso contencioso de anulação apresentado ao Tribunal Central Administrativo Sul (TCA) o vejo usado: «Mantendo pois a exoneração efectuada, o despacho de 10.2.2003 indica de modo explícito e circunstanciado, os diversos motivos que se encontravam subjacentes à primitiva decisão primo-ministerial, assim sanando a ilegalidade desse acto.»
      Claro que é Gaudí que se escreve, mas o autor, entre detalhes e pormenores, ter-se-á distraído.

[Post 3359]

Tradução: «hall»

Olé!


      Não digam a ninguém: odeio o anglicismo hall. Desde sempre. Às vezes, até me pergunto como o escreveria quem o usa. «Ole»? Nesta tradução que tenho citado nos últimos posts, lê-se, como tradução de hall, vestíbulo: «Entrou em casa, atravessou rapidamente o vestíbulo revestido de mosaicos pretos e brancos — quão familiar e irritante era o eco dos seus passos! — e parou para tomar fôlego à porta da sala de estar» (Expiação, Ian McEwan. Tradução de Maria do Carmo Figueira e revisão de Ana Isabel Silveira. Lisboa: Gradiva, 5.ª ed., 2008, p. 30). Mas esta obra deixa-nos desgostosos com outras opções, por vezes meramente gráficas. Por exemplo, porquê usar prima dona se os dicionários da língua portuguesa registam prima-dona, ainda por cima aportuguesamento nada forçado? «— Cala-te, por amor de Deus! És uma prima dona muito cansativa. Eles não tinham meias lavadas e eu fui buscar umas tuas» (Expiação, Ian McEwan. Tradução de Maria do Carmo Figueira e revisão de Ana Isabel Silveira. Lisboa: Gradiva, 5.ª ed., 2008, p. 163).

[Post 3358]

Actualização em 21.06.2010

      «Voltou ao palco, agradecendo, sorridente e graciosa, uma ovação tal que teria satisfeito uma prima-dona» (Isabela, Ethel M. Dell. Tradução de Fernanda Rodrigues. Lisboa: Editorial Minerva, s/d, p. 259).



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