«Bicha» e «fila»

Preconceitos


      «Obviamente que os Amigos do Facebook não são amigos-a-sério. Mas são-no em potência. São-no de certo modo, e no de certo modo é que está o ganho. Trata-se simplesmente de gente com quem trocar dois dedos de conversa na bicha para o pão» («As faces da fé», Rui Zink, Metro, 19.4.2010, p. 9).
      O revisor antibrasileiro, no último dia que estive com ele, também atribuiu a culpa de se usar fila em vez de bicha aos Brasileiros. João Carreira Bom discordaria.

[Post 3361]

Uso das aspas

Outra triste vez


      «Ainda assim, o correspondente [Peter Wise] acaba por levar um pouco de Portugal ao mundo de cada vez que escreve no Financial Times — conhecido por ser das melhores fontes de informação em assuntos relativos à União Europeia, por ser a leitura de referência dos grandes líderes empresariais e por vir cuidadosamente impresso em folhas cor de rosa [sic] salmão que fazem dele um “periódico superior do Reino Unido” — e na The Economist — revista semanal inglesa que no Verão de 2007 teve uma circulação média superior a 1,2 milhões de cópias semanais (metade da qual na América do Norte). Duas verdadeiras “bíblias” que não deixam ninguém indiferente à informação que veiculam» («As ‘bíblias’ da economia», Ana Pago, Global Notícias, 19.4.2010, p. 8).
      Por qualquer razão, este facto não entra na cabeça de muitos jornalistas: quando se usa uma acepção de um vocábulo que não seja a primeira, aquela em que logo se pensa, não é necessário usar aspas. Com minúscula, bíblia é uma obra que se consulta frequentemente, uma obra fundamental. Mas sem aspas.

[Post 3360]

Léxico: «primo-ministerial»

Sem gáudio


      «Mas apareceram mais uns detalhes, soube-se mais uns pormenores e, acima de tudo, recebeu o povo um comunicado primo-ministerial, tudo convidando a um retomar de atenção, principalmente a um fatigado cidadão pelos cabelos, como eu próprio» («O Gaudi das berças», Fernando Braga de Matos, Jornal de Negócios, 9.4.2010, p. 33).
      Primo-ministerial. Parece um termo burlesco, não é? Mas não: até num recurso contencioso de anulação apresentado ao Tribunal Central Administrativo Sul (TCA) o vejo usado: «Mantendo pois a exoneração efectuada, o despacho de 10.2.2003 indica de modo explícito e circunstanciado, os diversos motivos que se encontravam subjacentes à primitiva decisão primo-ministerial, assim sanando a ilegalidade desse acto.»
      Claro que é Gaudí que se escreve, mas o autor, entre detalhes e pormenores, ter-se-á distraído.

[Post 3359]

Tradução: «hall»

Olé!


      Não digam a ninguém: odeio o anglicismo hall. Desde sempre. Às vezes, até me pergunto como o escreveria quem o usa. «Ole»? Nesta tradução que tenho citado nos últimos posts, lê-se, como tradução de hall, vestíbulo: «Entrou em casa, atravessou rapidamente o vestíbulo revestido de mosaicos pretos e brancos — quão familiar e irritante era o eco dos seus passos! — e parou para tomar fôlego à porta da sala de estar» (Expiação, Ian McEwan. Tradução de Maria do Carmo Figueira e revisão de Ana Isabel Silveira. Lisboa: Gradiva, 5.ª ed., 2008, p. 30). Mas esta obra deixa-nos desgostosos com outras opções, por vezes meramente gráficas. Por exemplo, porquê usar prima dona se os dicionários da língua portuguesa registam prima-dona, ainda por cima aportuguesamento nada forçado? «— Cala-te, por amor de Deus! És uma prima dona muito cansativa. Eles não tinham meias lavadas e eu fui buscar umas tuas» (Expiação, Ian McEwan. Tradução de Maria do Carmo Figueira e revisão de Ana Isabel Silveira. Lisboa: Gradiva, 5.ª ed., 2008, p. 163).

[Post 3358]

Actualização em 21.06.2010

      «Voltou ao palco, agradecendo, sorridente e graciosa, uma ovação tal que teria satisfeito uma prima-dona» (Isabela, Ethel M. Dell. Tradução de Fernanda Rodrigues. Lisboa: Editorial Minerva, s/d, p. 259).



Plural de «Bíblia»

Vá-se lá perceber


      A palavra Bíblia é, etimologicamente, um plural, mas essa é uma noção que se perdeu. Em língua portuguesa, se queremos referir-nos no plural à colecção dos livros sagrados do Antigo e do Novo Testamentos, temos mesmo de pluralizar a palavra — e manter a maiúscula inicial. Mas vejam o que até em textos assinados por religiosos já tenho lido: «À entrada do mesmo campo, um capelão e o seu ajudante regavam com petróleo caixas cheias de livros de oração e de bíblias» (Expiação, Ian McEwan. Tradução de Maria do Carmo Figueira e revisão de Ana Isabel Silveira. Lisboa: Gradiva, 5.ª ed., 2008, p. 277).

[Post 3357]

Léxico: «banco de neve»

Mais um depósito


      «Inquietar-se, concentrar-se, ler, olhar, desejar — tudo eram coisas a evitar em favor de um lento impulso de associação, enquanto os minutos se acumulavam como um banco de neve e o silêncio se adensava à sua volta» (Expiação, Ian McEwan. Tradução de Maria do Carmo Figueira e revisão de Ana Isabel Silveira. Lisboa: Gradiva, 5.ª ed., 2008, p. 175).
      Bancos há muitos, como já aqui vimos. Esta obra até tem mais um: «Determinou-se que havia luz suficiente das estrelas e do banco de nuvens que reflectia as luzes da cidade mais próxima» (ibidem, idem, p. 197). À conta do banco de neve, descobri aqui um Glossário Internacional de Hidrologia multilingue. É mais um recurso para tradutores e revisores.

[Post 3356]

Sobre «escada»

A subir


      Como se sabe, usa-se indiferentemente escada ou escadas quando dizemos, por exemplo, «desci a escada»/«desci as escadas». Ontem de manhã, a minha filha, que tem 3 anos, contou-me um sonho (há seis meses que começou a contar-me os sonhos) que teve. Contou-mo três vezes seguidas. Como acontece muitas vezes, quis certificar-se de que a ouvira bem, pelo que tive de repetir, também eu, alguns trechos. «Sim, desceste as escadas, ias sozinha...» «“Escadas”, não; “escada”.» Com excepção do Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa, nenhum outro se refere ao uso do plural, que é corrente e está legitimado, ao que me parece, pela etimologia. Relacionada também com escada, há também uma expressão curiosamente elíptica, que algumas pessoas evitam. Ei-la: «Briony, por seu lado, subiu a escada a dois e dois, cheia de energia pelo seu sentimento do dever e de fazer bem, prestes a fazer uma surpresa que só lhe podia granjear elogios» (Expiação, Ian McEwan. Tradução de Maria do Carmo Figueira e revisão de Ana Isabel Silveira. Lisboa: Gradiva, 5.ª ed., 2008, p. 204). E já que derivei outra vez para esta obra, outra palavra relacionada: «Mostrou o bilhete e mergulhou naquela luminosidade amarela e suja até chegar às escadas-rolantes que começaram a transportá-la para baixo e a fazê-la mergulhar naquela brisa artificial que vinha da penumbra, da respiração de um milhão de londrinos, e que lhe refrescava o rosto e lhe fazia abanar a capa» (ibidem, idem, p. 393). Nenhum dicionário regista esta grafia com hífen, mas nem tradutora nem revisora quiseram saber destes pormenores.

[Post 3355]

«Pôr em xeque»

Ainda pior


      «— E se te lembrares seja do que for em relação ao Danny Hardman, onde é que ele estava, o que estava a fazer e quando, se mais alguém o viu, tudo o que possa pôr o álibi dele em cheque, também quero saber isso» (Expiação, Ian McEwan. Tradução de Maria do Carmo Figueira e revisão de Ana Isabel Silveira. Lisboa: Gradiva, 5.ª ed., 2008, p. 390).
      Digo outra vez: por vezes, é difícil perceber o que fez o revisor numa obra. Esta é um desses casos. Então a expressão não é pôr em xeque?

[Post 3354]

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