Ortografia: «pé-de-galinha»

Ruga no canto do olho


      «A dureza do seu olhar era nova, e os seus olhos estavam mais pequenos, mais estreitos e com pés de galinha bem vincados aos cantos» (Expiação, Ian McEwan. Tradução de Maria do Carmo Figueira e revisão de Ana Isabel Silveira. Lisboa: Gradiva, 5.ª ed., 2008, p. 386).
      Por vezes, é difícil perceber o que fez o revisor numa obra. Este é um desses casos. Então não há pés de galinha e pés-de-galinha? Outra palavra que nunca é grafada com hífen é meia-volta, erro comum a dezenas e dezenas de obras.

[Post 3353]

Léxico: «ebonite»

Falta de definição


      «Mandaram-na a outra enfermaria com uma pinça e uma ebonite para tirar os estilhaços da perna de um aviador» (Expiação, Ian McEwan. Tradução de Maria do Carmo Figueira e revisão de Ana Isabel Silveira. Lisboa: Gradiva, 5.ª ed., 2008, p. 338).
      Desde o século XIX que se usa o termo em Portugal. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, por exemplo, dá esta definição: «substância dura, negra, obtida por vulcanização da borracha, com 30 a 50% de enxofre, utilizada na indústria eléctrica e na confecção de vários objectos; ebanite, vulcanite». Todos os dicionários, mesmo os de língua inglesa, registam algo semelhante. Qual é o problema? É simples: a definição devia incluir os objectos, para diversos fins, feitos deste material. (Caro Paulo Araujo, dê uma palavrinha a Mauro Salles.)

[Post 3352]

Tradução: «impassivity»

Demasiado simples


      Não há sábado sem sol, domingo sem missa, segunda sem preguiça nem obras sem erros. Conheciam este provérbio? Inventei-o agora mesmo, inspirado pela leitura desta frase: «Só isto despertou Cecilia da sua impassividade» (Expiação, Ian McEwan. Tradução de Maria do Carmo Figueira e revisão de Ana Isabel Silveira. Lisboa: Gradiva, 5.ª ed., 2008, p. 376).
      Então ao estado do que é ou está impassível não se dá o nome de impassibilidade? Impassividade é a adaptação do vocábulo inglês impassivity. Seria, neste caso, necessário lançar mão deste recurso? É claro que não.

[Post 3351]

«Não-intervenção»

Em 1938


      «“Os não-praticantes portaram-se mal”» (Correio da Manhã, 7.4.2010, p. 50). O revisor antibrasileiro resmungou ao ler o título e disse que dantes não se via o advérbio não ligado por hífen nem a adjectivos nem a substantivos. Tudo começou, acrescentou, ufano, com «não-alinhado». Lembrei-me agora deste solilóquio ao ler, no jornal que já hoje aqui citei, este título: «A não-intervenção». Na notícia lia-se que «o “Times” prevê que Barcelona rejeitará o plano britânico para a retirada dos voluntários, assim como a proposta para a neutralização de Almeria». Não-intervenção, em 1938.

[Post 3350]

«Volta da França»

Quero saber


      Há dias, a propósito da crase, referi aqui a expressão «Volta a França». Agora, com um exemplar do jornal A Capital, datado de 8 de Julho de 1938, à minha frente, leio na página 3 o seguinte: «A “Volta da França”, em bicicleta». Nela dava-se conta de que a quarta etapa tinha sido ganha pelo belga Félicien Vervaecke (no final, ficaria em 2.º da geral) e usa-se sempre a expressão «Volta da França». Como se evoluiu de Volta da França para Volta a França? E quando se deu esta mudança? Há muito a descobrir nas hemerotecas.

Actualização no mesmo dia

      Um leitor fez-me chegar o seguinte comentário, que constitui um importante contributo para esta reflexão: «1. Tour de France (Faire le Tour de France) terá sido vertido directamente, tintim por tintim, para português: Volta da França.
      2. Mas volta em português (em francês não) também significa regresso e podia prestar-se a confusões.
      3. Além disso, enquanto os franceses dizem “faire le tour de...” no sentido de percorrer, circundar, etc., nós dizemos “dar a volta a...” (à arena, ao quarteirão, ao país, ao texto...)
      4. Donc... os ciclistas dão a volta a França.
      Agora, se me perguntar quando é que se deu a transmutação, eu tenho de meter a viola no saco e deixar-me de dar palpites, porque não sei. Só posso conjecturar que quem primeiro utilizou a fórmula “Volta da França” não soubesse francês. Hélas!»


[Post 3349]

Léxico: «prato de conduto»

Ladeiro, sopeiro...


      «Os pratos de conduto há muito que tinham sido levantados e Betty voltava com o pudim de pão e manteiga» (Expiação, Ian McEwan. Tradução de Maria do Carmo Figueira e revisão de Ana Isabel Silveira. Lisboa: Gradiva, 5.ª ed., 2008, p. 162).
      Ninguém ignora o que significa «conduto»; prato de conduto, pouca gente saberá o que é. Pretenderá traduzir o inglês dinner plate, pratos rasos.

[Post 3348]

Problemas de tradução

Pode espreitar o anacronismo


      «Era verdade: o toque senhoril do perfume de Lola não conseguia disfarçar o cheiro algo infantil a Germolene» (Expiação, Ian McEwan. Tradução de Maria do Carmo Figueira e revisão de Ana Isabel Silveira. Lisboa: Gradiva, 5.ª ed., 2008, p. 137).
      Pela pesquisa que fiz, creio que o anti-séptico Germolene não está à venda em Portugal. Contudo, ainda que esteja ou estivesse, o exemplo serve para reflectir numa questão. Não raramente, bons tradutores, em circunstâncias semelhantes, substituem por medicamentos equivalentes conhecidos de todos nós. É uma boa solução? Pode não ser. Há dois aspectos a considerar: por um lado, dar y por x (qual boticário de quiproquó) é uma pequena traição, uma infidelidade ao original; por outro, dar y por x pode conduzir a um anacronismo. Apesar da incompreensível aversão dos editores por notas de rodapé, creio que, nestes casos, o melhor seria deixar na tradução a designação original do medicamento e fazer uma nota.

[Post 3347]

Tradução: «apologetically»

Não peço desculpa


      «Ao ouvir o pigarreio suave de uma garganta feminina levantou os olhos, admirada. Era Lola. Estava a espreitar apologeticamente para dentro do quarto e, assim que os seus olhos se cruzaram, bateu ao de leve na porta com os nós dos dedos» (Expiação, Ian McEwan. Tradução de Maria do Carmo Figueira e revisão de Ana Isabel Silveira. Lisboa: Gradiva, 5.ª ed., 2008, p. 137).
       Já há dicionários que dão como tradução de apologeticallyapologeticamente. Os dicionários gerais da língua — e entre eles os três que aqui mais cito, Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora e Dicionário Houaiss —, porém, ainda se mantêm em terreno sólido. Trouxe para aqui esta questão também para mostrar como mesmo bons tradutores caem nestas armadilhas. Assim de repente, consigo imaginar meia dúzia de alternativas melhores para traduzir apologetically.

[Post 3346]

Actualização em 18.04.2010


      Mais um exemplo na mesma obra: «Leon encolheu os ombros e fez um sorriso apologético forçado — que objecção poderia ele levantar? — e o olhar suave de Emily concentrou-se nos dois inspectores» (ibidem, idem, p. 206).



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