«Volta da França»

Quero saber


      Há dias, a propósito da crase, referi aqui a expressão «Volta a França». Agora, com um exemplar do jornal A Capital, datado de 8 de Julho de 1938, à minha frente, leio na página 3 o seguinte: «A “Volta da França”, em bicicleta». Nela dava-se conta de que a quarta etapa tinha sido ganha pelo belga Félicien Vervaecke (no final, ficaria em 2.º da geral) e usa-se sempre a expressão «Volta da França». Como se evoluiu de Volta da França para Volta a França? E quando se deu esta mudança? Há muito a descobrir nas hemerotecas.

Actualização no mesmo dia

      Um leitor fez-me chegar o seguinte comentário, que constitui um importante contributo para esta reflexão: «1. Tour de France (Faire le Tour de France) terá sido vertido directamente, tintim por tintim, para português: Volta da França.
      2. Mas volta em português (em francês não) também significa regresso e podia prestar-se a confusões.
      3. Além disso, enquanto os franceses dizem “faire le tour de...” no sentido de percorrer, circundar, etc., nós dizemos “dar a volta a...” (à arena, ao quarteirão, ao país, ao texto...)
      4. Donc... os ciclistas dão a volta a França.
      Agora, se me perguntar quando é que se deu a transmutação, eu tenho de meter a viola no saco e deixar-me de dar palpites, porque não sei. Só posso conjecturar que quem primeiro utilizou a fórmula “Volta da França” não soubesse francês. Hélas!»


[Post 3349]

Léxico: «prato de conduto»

Ladeiro, sopeiro...


      «Os pratos de conduto há muito que tinham sido levantados e Betty voltava com o pudim de pão e manteiga» (Expiação, Ian McEwan. Tradução de Maria do Carmo Figueira e revisão de Ana Isabel Silveira. Lisboa: Gradiva, 5.ª ed., 2008, p. 162).
      Ninguém ignora o que significa «conduto»; prato de conduto, pouca gente saberá o que é. Pretenderá traduzir o inglês dinner plate, pratos rasos.

[Post 3348]

Problemas de tradução

Pode espreitar o anacronismo


      «Era verdade: o toque senhoril do perfume de Lola não conseguia disfarçar o cheiro algo infantil a Germolene» (Expiação, Ian McEwan. Tradução de Maria do Carmo Figueira e revisão de Ana Isabel Silveira. Lisboa: Gradiva, 5.ª ed., 2008, p. 137).
      Pela pesquisa que fiz, creio que o anti-séptico Germolene não está à venda em Portugal. Contudo, ainda que esteja ou estivesse, o exemplo serve para reflectir numa questão. Não raramente, bons tradutores, em circunstâncias semelhantes, substituem por medicamentos equivalentes conhecidos de todos nós. É uma boa solução? Pode não ser. Há dois aspectos a considerar: por um lado, dar y por x (qual boticário de quiproquó) é uma pequena traição, uma infidelidade ao original; por outro, dar y por x pode conduzir a um anacronismo. Apesar da incompreensível aversão dos editores por notas de rodapé, creio que, nestes casos, o melhor seria deixar na tradução a designação original do medicamento e fazer uma nota.

[Post 3347]

Tradução: «apologetically»

Não peço desculpa


      «Ao ouvir o pigarreio suave de uma garganta feminina levantou os olhos, admirada. Era Lola. Estava a espreitar apologeticamente para dentro do quarto e, assim que os seus olhos se cruzaram, bateu ao de leve na porta com os nós dos dedos» (Expiação, Ian McEwan. Tradução de Maria do Carmo Figueira e revisão de Ana Isabel Silveira. Lisboa: Gradiva, 5.ª ed., 2008, p. 137).
       Já há dicionários que dão como tradução de apologeticallyapologeticamente. Os dicionários gerais da língua — e entre eles os três que aqui mais cito, Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora e Dicionário Houaiss —, porém, ainda se mantêm em terreno sólido. Trouxe para aqui esta questão também para mostrar como mesmo bons tradutores caem nestas armadilhas. Assim de repente, consigo imaginar meia dúzia de alternativas melhores para traduzir apologetically.

[Post 3346]

Actualização em 18.04.2010


      Mais um exemplo na mesma obra: «Leon encolheu os ombros e fez um sorriso apologético forçado — que objecção poderia ele levantar? — e o olhar suave de Emily concentrou-se nos dois inspectores» (ibidem, idem, p. 206).



Sobre «clítoris»

Olha quem fala


      A cineasta Raquel Freire aconselhou no programa Este Tempo, da Antena 1, as mulheres: «E masturbem-se.» Um ouvinte queixou-se ao provedor e este foi ouvir Cristina Ponte, professora na Universidade Nova de Lisboa, que disse: «Ouvindo a intervenção, penso que foi um texto, foi uma apresentação informativa. É um tema, realmente, é um conteúdo do qual não se fala — e até achei graça como nem se sabe como é que se escreve, onde é que é o acento.» Hã? Esqueci-me: Raquel Freire usara a palavra «clítoris», e a professora universitária afirma que «nem se sabe como é que se escreve, onde é que é o acento». Quem é que não sabe? Bem, não é vergonha não saber, mas não fica bem dizê-lo depois de ter tido oportunidade de esclarecer a dúvida.
      O provedor teve o discernimento de esclarecer: «Antes de prosseguirmos, um pequeno esclarecimento de quem não é especialista sobre a acentuação da palavra que está no centro deste problema. Pronunciamos /clitóris/, com acento no o, seguindo o que indica o Dicionário Houaiss de Língua Portuguesa. Mas devo acrescentar que o Grande Dicionário da Língua Portuguesa, da Sociedade de Língua Portuguesa, põe o acento no [primeiro] i, /clítoris/, e que o dicionário da Academia das Ciências de Lisboa aceita que se diga de uma ou de outra forma, como aliás o Houaiss. Todos eles apontam ainda, de resto, uma terceira forma de dizer o mesmo, através da palavra “clitóride”, que dizem ser mais correcta, mas menos usada.» É uma novidade para mim, esta «especialidade» na acentuação da palavra «clítoris». Recomendo a Adelino Gomes um bom curso nesta área: sobre a pronúncia do nome Houaiss.

[Post 3345]

«Ultravioletas», de novo

Obrigado, vulcão islandês


      Em relação a certas matérias, não é suficiente fazer actualizações aos posts. É o caso de ultravioleta. O repórter Luís Ochoa, em Bruxelas, disse: «O Instituto Real de Meteorologia [RMI] anuncia que a nuvem de cinzas de erupção vulcânica na Islândia atingirá plenamente a Bélgica amanhã de manhã e que essa nuvem se encontra a 10 km do solo, não tendo influência sobre a camada de ozono, que nos protege dos raios ultravioletas» (noticiário das 15 horas na Antena 1).

[Post 3344]

Etimologia do sufixo «–istão»

Algo se aprende


      De manhã, no programa infanto-juvenil Zig Zag, na RTP2, lembrou-se que o sufixo –istão (de que falámos aqui recentemente), presente em topónimos como Adzaristão, Afeganistão, Cazaquistão, Nuristão, Quirguistão, Tajiquistão, Turcomenistão, Usbequistão, Waziristão, provém do sufixo de origem persa –stan e significa «terra».

[Post 3343]

«Dorsal», novamente

Ajudem o doentinho


      Imagine, caro leitor, que sofre dessa doença mental, que ainda não responde a nenhuma denominação, caracterizada pela recusa em usar palavras não dicionarizadas. Imagine também, se não lhe custa, que era desportista, profissional ou amador. Tinha de se identificar, durante as provas, com um... dorsal. Ora, ainda nenhum dicionário regista o termo, passados três anos sobre o meu reparo. (Caro Paulo Araujo, dê uma palavrinha a Mauro Salles.) O verbete do vocábulo no Dicionário Priberam da Língua Portuguesa é paupérrimo; no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora é mais rico; o do Dicionário Houaiss é o melhor — mas nenhum deles regista o substantivo masculino dorsal. É lamentável esta ausência, esta desatenção das editoras. Traduzam e copiem a definição do Diccionario de la Real Academia Española: «Trozo de tela con un número, que llevan a la espalda los participantes en muchos deportes.»

[Post 3342]

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