Sobre «clítoris»

Olha quem fala


      A cineasta Raquel Freire aconselhou no programa Este Tempo, da Antena 1, as mulheres: «E masturbem-se.» Um ouvinte queixou-se ao provedor e este foi ouvir Cristina Ponte, professora na Universidade Nova de Lisboa, que disse: «Ouvindo a intervenção, penso que foi um texto, foi uma apresentação informativa. É um tema, realmente, é um conteúdo do qual não se fala — e até achei graça como nem se sabe como é que se escreve, onde é que é o acento.» Hã? Esqueci-me: Raquel Freire usara a palavra «clítoris», e a professora universitária afirma que «nem se sabe como é que se escreve, onde é que é o acento». Quem é que não sabe? Bem, não é vergonha não saber, mas não fica bem dizê-lo depois de ter tido oportunidade de esclarecer a dúvida.
      O provedor teve o discernimento de esclarecer: «Antes de prosseguirmos, um pequeno esclarecimento de quem não é especialista sobre a acentuação da palavra que está no centro deste problema. Pronunciamos /clitóris/, com acento no o, seguindo o que indica o Dicionário Houaiss de Língua Portuguesa. Mas devo acrescentar que o Grande Dicionário da Língua Portuguesa, da Sociedade de Língua Portuguesa, põe o acento no [primeiro] i, /clítoris/, e que o dicionário da Academia das Ciências de Lisboa aceita que se diga de uma ou de outra forma, como aliás o Houaiss. Todos eles apontam ainda, de resto, uma terceira forma de dizer o mesmo, através da palavra “clitóride”, que dizem ser mais correcta, mas menos usada.» É uma novidade para mim, esta «especialidade» na acentuação da palavra «clítoris». Recomendo a Adelino Gomes um bom curso nesta área: sobre a pronúncia do nome Houaiss.

[Post 3345]

«Ultravioletas», de novo

Obrigado, vulcão islandês


      Em relação a certas matérias, não é suficiente fazer actualizações aos posts. É o caso de ultravioleta. O repórter Luís Ochoa, em Bruxelas, disse: «O Instituto Real de Meteorologia [RMI] anuncia que a nuvem de cinzas de erupção vulcânica na Islândia atingirá plenamente a Bélgica amanhã de manhã e que essa nuvem se encontra a 10 km do solo, não tendo influência sobre a camada de ozono, que nos protege dos raios ultravioletas» (noticiário das 15 horas na Antena 1).

[Post 3344]

Etimologia do sufixo «–istão»

Algo se aprende


      De manhã, no programa infanto-juvenil Zig Zag, na RTP2, lembrou-se que o sufixo –istão (de que falámos aqui recentemente), presente em topónimos como Adzaristão, Afeganistão, Cazaquistão, Nuristão, Quirguistão, Tajiquistão, Turcomenistão, Usbequistão, Waziristão, provém do sufixo de origem persa –stan e significa «terra».

[Post 3343]

«Dorsal», novamente

Ajudem o doentinho


      Imagine, caro leitor, que sofre dessa doença mental, que ainda não responde a nenhuma denominação, caracterizada pela recusa em usar palavras não dicionarizadas. Imagine também, se não lhe custa, que era desportista, profissional ou amador. Tinha de se identificar, durante as provas, com um... dorsal. Ora, ainda nenhum dicionário regista o termo, passados três anos sobre o meu reparo. (Caro Paulo Araujo, dê uma palavrinha a Mauro Salles.) O verbete do vocábulo no Dicionário Priberam da Língua Portuguesa é paupérrimo; no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora é mais rico; o do Dicionário Houaiss é o melhor — mas nenhum deles regista o substantivo masculino dorsal. É lamentável esta ausência, esta desatenção das editoras. Traduzam e copiem a definição do Diccionario de la Real Academia Española: «Trozo de tela con un número, que llevan a la espalda los participantes en muchos deportes.»

[Post 3342]

Crase, de novo

Poucos, mas alguns


      A respeito da crase, escrevi que há algumas subtilezas no seu uso, mas que me parecia que, de uma maneira geral, não escapavam ao comum falante português. Ora cá está mais um caso que não é sempre resolvido da mesma maneira: «Estava a representar o filho da mulher-a-dias que vai à casa dos patrões fazer um recado» (Expiação, Ian McEwan. Tradução de Maria do Carmo Figueira e revisão de Ana Isabel Silveira. Lisboa: Gradiva, 5.ª ed., 2008, p. 39). Estou convencido de que muito mais de metade dos falantes, e especialmente tradutores, optariam por não fazer crase.

[Post 3341]

Léxico: «tapada»

Não há mais?


      «Depois de passar o portão de ferro e os rododendros que ficavam por baixo da vedação do jardim, atravessou a tapada — que tinha sido vendida a um agricultor da região para pôr as vacas a pastar —, chegou à fonte, ao muro que a suportava e à reprodução à escala média do Tritão de Bernini, da Piazza Barberini, em Roma» (Expiação, Ian McEwan. Tradução de Maria do Carmo Figueira e revisão de Ana Isabel Silveira. Lisboa: Gradiva, 5.ª ed., 2008, p. 28).
      A ideia que tinha, que foi confirmada pela consulta de corpora da língua, era a de que o substantivo tapada, nas suas várias acepções, é pouco usado entre nós. Quase só o usamos para nos referirmos à Tapada Real de Vila Viçosa e à Tapada da Ajuda, em Lisboa. A ligá-las, a mesma origem: a Sereníssima Casa de Bragança. Não há mais tapadas?

[Post 3340]

Sobre «vestibular»

Nada de novo, só errado


      Fernando Fragoso Marques, candidato a bastonário da Ordem dos Advogados, foi ontem entrevistado por Mário Crespo no Jornal das 9, na Sic Notícias. Ao comparar o presente com o passado, disse que, antigamente, a carreira no Ministério Público funcionava como «vestibular» para a magistratura judicial. Ora, não apenas a palavra não é familiar aos Portugueses (claro que o candidato não se dirigia a todos os concidadãos, mas a potenciais votantes), como a comparação pode não ser a melhor. Uma coisa, porém, é certa: o uso do vocábulo «vestibular» para exprimir esta ideia não é nada de novo.
      Durante décadas, que coincidiram quase completamente com o Estado Novo, os juízes de direito eram nomeados de entre delegados do procurador da República de primeira classe e doutores em direito com, pelo menos, cinco anos de exercício da profissão de advogado, mediante aprovação em provas de concurso público.
      Para alguns dicionários, como o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, vestibular é apenas adjectivo «relativo ao vestíbulo, especialmente do ouvido». Já quem consultar o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, a aproximação à ideia é maior: «Brasil exame ou designativo do exame de ingresso na Universidade». Sendo assim, o termo propedêutico talvez se adequasse mais à ideia que se pretende transmitir.
      Em Portugal, vestibular só é conhecido da comunidade de imigrantes brasileiros, e, num contexto judicial, de alguns juízes, médicos-legistas e indivíduos julgados por violação: O coito vestibular ou vulvar verifica-se quando o acto sexual, consubstanciado no contacto exterior dos órgãos sexuais masculinos e femininos atinge a consumação pela emissio seminis...

[Post 3339]

Sobre «setor»

Não aceite pela norma?


      Uma leitora, A. M. T., pergunta-me se eu admitiria, sendo professor de Português, que os alunos escrevessem setor e setora (ou stora) nos testes. Bem, parece-me que nem eu nem ninguém o poderia impedir, ou não? A pergunta havia de ser outra, e é a esta que eu vou responder. Não penalizaria um aluno que escreve esses vocábulos, amálgamas (senhora+doutora) que talvez já devessem ter tido acolhimento nos dicionários.
      Quase a propósito: no Record, a secção de revisão tem a instrução de grafar a palavra «sector» assim mesmo, com c. Agora mesmo a propósito: há uns meses, um leitor perguntou-me porque se diz «c curvo», quando não há nenhum «c recto». E acrescentou: «LOL». Acho, e foi o que respondi, que a origem está num equívoco relacionado com a soletração. Imaginem que estou ao telefone e quero soletrar ao meu interlocutor a palavra «sector». Digo: «“Sector”. S de “sapato”, e de “estrela”, c de “curvo”, t de “tudo”, o de “ordem” e r de “rato”.»

[Post 3338]

Actualização em 18.4.2010

      Por vezes, a grafia é outra, com acento circunflexo: «Ora vamos ao volante feitos uns senhores, ora ficamos de orelha murcha com ar de santinhos como quando, na escola, éramos apanhados: “Eeuuu, stôra? Juro que...”» («Teoria do Calimero português», Rui Zink, Metro, 12.4.2010, p. 9).

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