Crase, de novo

Poucos, mas alguns


      A respeito da crase, escrevi que há algumas subtilezas no seu uso, mas que me parecia que, de uma maneira geral, não escapavam ao comum falante português. Ora cá está mais um caso que não é sempre resolvido da mesma maneira: «Estava a representar o filho da mulher-a-dias que vai à casa dos patrões fazer um recado» (Expiação, Ian McEwan. Tradução de Maria do Carmo Figueira e revisão de Ana Isabel Silveira. Lisboa: Gradiva, 5.ª ed., 2008, p. 39). Estou convencido de que muito mais de metade dos falantes, e especialmente tradutores, optariam por não fazer crase.

[Post 3341]

Léxico: «tapada»

Não há mais?


      «Depois de passar o portão de ferro e os rododendros que ficavam por baixo da vedação do jardim, atravessou a tapada — que tinha sido vendida a um agricultor da região para pôr as vacas a pastar —, chegou à fonte, ao muro que a suportava e à reprodução à escala média do Tritão de Bernini, da Piazza Barberini, em Roma» (Expiação, Ian McEwan. Tradução de Maria do Carmo Figueira e revisão de Ana Isabel Silveira. Lisboa: Gradiva, 5.ª ed., 2008, p. 28).
      A ideia que tinha, que foi confirmada pela consulta de corpora da língua, era a de que o substantivo tapada, nas suas várias acepções, é pouco usado entre nós. Quase só o usamos para nos referirmos à Tapada Real de Vila Viçosa e à Tapada da Ajuda, em Lisboa. A ligá-las, a mesma origem: a Sereníssima Casa de Bragança. Não há mais tapadas?

[Post 3340]

Sobre «vestibular»

Nada de novo, só errado


      Fernando Fragoso Marques, candidato a bastonário da Ordem dos Advogados, foi ontem entrevistado por Mário Crespo no Jornal das 9, na Sic Notícias. Ao comparar o presente com o passado, disse que, antigamente, a carreira no Ministério Público funcionava como «vestibular» para a magistratura judicial. Ora, não apenas a palavra não é familiar aos Portugueses (claro que o candidato não se dirigia a todos os concidadãos, mas a potenciais votantes), como a comparação pode não ser a melhor. Uma coisa, porém, é certa: o uso do vocábulo «vestibular» para exprimir esta ideia não é nada de novo.
      Durante décadas, que coincidiram quase completamente com o Estado Novo, os juízes de direito eram nomeados de entre delegados do procurador da República de primeira classe e doutores em direito com, pelo menos, cinco anos de exercício da profissão de advogado, mediante aprovação em provas de concurso público.
      Para alguns dicionários, como o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, vestibular é apenas adjectivo «relativo ao vestíbulo, especialmente do ouvido». Já quem consultar o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, a aproximação à ideia é maior: «Brasil exame ou designativo do exame de ingresso na Universidade». Sendo assim, o termo propedêutico talvez se adequasse mais à ideia que se pretende transmitir.
      Em Portugal, vestibular só é conhecido da comunidade de imigrantes brasileiros, e, num contexto judicial, de alguns juízes, médicos-legistas e indivíduos julgados por violação: O coito vestibular ou vulvar verifica-se quando o acto sexual, consubstanciado no contacto exterior dos órgãos sexuais masculinos e femininos atinge a consumação pela emissio seminis...

[Post 3339]

Sobre «setor»

Não aceite pela norma?


      Uma leitora, A. M. T., pergunta-me se eu admitiria, sendo professor de Português, que os alunos escrevessem setor e setora (ou stora) nos testes. Bem, parece-me que nem eu nem ninguém o poderia impedir, ou não? A pergunta havia de ser outra, e é a esta que eu vou responder. Não penalizaria um aluno que escreve esses vocábulos, amálgamas (senhora+doutora) que talvez já devessem ter tido acolhimento nos dicionários.
      Quase a propósito: no Record, a secção de revisão tem a instrução de grafar a palavra «sector» assim mesmo, com c. Agora mesmo a propósito: há uns meses, um leitor perguntou-me porque se diz «c curvo», quando não há nenhum «c recto». E acrescentou: «LOL». Acho, e foi o que respondi, que a origem está num equívoco relacionado com a soletração. Imaginem que estou ao telefone e quero soletrar ao meu interlocutor a palavra «sector». Digo: «“Sector”. S de “sapato”, e de “estrela”, c de “curvo”, t de “tudo”, o de “ordem” e r de “rato”.»

[Post 3338]

Actualização em 18.4.2010

      Por vezes, a grafia é outra, com acento circunflexo: «Ora vamos ao volante feitos uns senhores, ora ficamos de orelha murcha com ar de santinhos como quando, na escola, éramos apanhados: “Eeuuu, stôra? Juro que...”» («Teoria do Calimero português», Rui Zink, Metro, 12.4.2010, p. 9).

Léxico: «platina»

É tudo o mesmo, hã?


      Na edição de 11 de Abril da revista Domingo, do Correio da Manhã, foi publicada uma reportagem de Bruno Contreiras Mateus e fotos de Sérgio Lemos sobre as mulheres da GNR que fazem guarda ao Palácio de Belém. Uma das fotografias é a que, com a devida vénia, está acima. Tem interesse pelo léxico, naturalmente. A única novidade (nem mesmo encontrei o termo em nenhum dicionário) era, ao que me parecia, o vocábulo platino: «Agulhetas: Cordões que pendem desde os platinos metálicos e prendem no dólman.» Não encontrei e com razão. É que os dicionários registam platina: «presilha na camisa de trabalho ou no blusão, onde os militares seguram as correias, as divisas ou os galões», como se lê no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Para o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, platina é a «presilha ou pestana que os soldados têm no ombro do casaco ou jaleco para segurar as correias». Os únicos platinos que os dicionários conhecem são os naturais ou moradores de La Plata, a capital da província de Buenos Aires. No sítio da GNR, podemos ver anúncios de contratos de «aquisição de calças, calções, saias, platinas e agulhetas», como este. Vem do francês platine.

[Post 3337]

Casar ou casar-se?

Não precisa de ser oficiante


      Escreve-me um leitor: «Escritor de sucesso imparável e irrequieto apresentador de telejornais, disse José Rodrigues dos Santos: “Elizabeth Taylor vai casar.” Não disse quem nem o quê. Nem isso será importante.»
      A verdade é que os dicionários já vão apresentando este verbo, casar, não apenas como pronominal, mas também como intransitivo. A eliminação do se, que, neste caso, não é reflexo, como muita gente afirma, mas inerente, vai sendo comum, em parte devido à lei do menor esforço, mas também graças a fenómenos de analogia e cruzamento. De uma maneira geral, os falantes já não estranham a supressão do pronome nestes casos. Aliás, José Rodrigues dos Santos, que disse de facto o que o leitor transcreve, também disse — e até antes — isto: «Elizabeth Taylor vai-se casar pela nona vez.»
      Mais: se contrario, sempre que posso, a omissão do se no verbo ir — nunca sancionaria uma frase como esta: «Finalmente, o chefe local que tinha sido o seu principal apoio, Omach, também teve de ir embora com a sua gente.» —, nada faço em relação a casar. Espero que não me comparem agora ao médico que, podendo salvar o doente, deixa a doença seguir o seu curso.

[Post 3336]

Títulos: adequação e mentira

Inépcia de principiante


      Muito havia a dizer sobre coesão textual nos textos jornalísticos, assim como acerca da adequação dos títulos. Num artigo publicado na edição de domingo do Correio da Manhã, lê-se este título: «Chefe da PSP detido por agredir juíza». O leitor atira-se logo à leitura com uma só ideia: conhecer rapidamente o motivo deste acto de lesa-autoridade. Ainda saliva quando começa a ler o primeiro parágrafo: «Um chefe da Polícia foi ontem detido em flagrante, no Porto, pelo crime de violência doméstica.» Se era para enganar o leitor — que é o que configura o título, um engano, um embuste —, para quê o anticlímax logo no primeiro parágrafo?

[Post 3335]

Águas-furtadas, trapeira, mansarda

Furtadas a quem?


      As águas-furtadas, e a etimologia parece-me ser evidente para todos, é uma maneira de aproveitar a área de sótão para habitação, também por vezes designadas por trapeira. Começou por surgir nos palácios e destinar-se a quartos da criadagem — não é por acaso que outro sinónimo, mansarda, significa, numa extensão de sentido, morada miserável. Alguns falantes que diríamos qualificados desconhecem que é uma palavra composta. Um só exemplo: «Abandonada por ele, e por quase toda a gente, presa à cama numas águas furtadas, descobre em si mesma um inesperado sentido de humor» (Expiação, Ian McEwan. Tradução de Maria do Carmo Figueira, revisão de Ana Isabel Silveira. Lisboa: Gradiva, 5.ª ed., 2008, p. 11). Em 5.ª edição...
      Ainda sobre os sinónimos. Mansarda chegou-nos, ao que parece ainda no século XVIII, do francês mansarde, e este provém de um nome próprio: François Mansart (1598–1666), o arquitecto francês que concebeu o telhado (também conhecido por telhado francês) em que cada água é quebrada em dois caimentos, um quase vertical, o outro, quase horizontal. Ainda recentemente aqui falámos dos telhados mardelianos.

[Post 3334]

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